Nunca. Reviravoltas era coisa que não se tinha visto. Portugal e EUA podiam-se gabar do mesmo, mas de formas distintas. Uma equipa a roubar um resultado à seleção nacional, em Mundiais, era coisa jamais vista. E assistir a uma vitória norte-americana, após a equipa começar o jogo a perder, também nunca tinha acontecido. Duas raridades. Mesmo. Em quase 95 minutos, ambas acabaram por acontecer.

Logo nesta noite, com o relvado a servir de pano para tanta coisa estar em jogo. Portugal, o lado aflito deste duelo, precisava de uma vitória, de três pontos para depender apenas de si para chegar aos oitavos de final. Os EUA também caçavam uma conquista, a que faltava para garantir a equipa na fase seguinte desta Copa do Mundo. Logo aos cinco minutos, contudo, a coisa ficou-lhes negra.

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E quem a escureceu foi Nani. Ele, o homem do Manchester United, o extremo que capta menos atenções na seleção, apanhou à direita da área um cruzamento de Miguel Veloso e disparou uma bala para a baliza de Tim Howard, Golo, 1-0, festa e o melhor início possível para Portugal. Estes primeiros cinco minutos foram da seleção nacional. Viu-se pressão, roubos de bola, saídas rápidas para o ataque e, a defender, uma asfixia constante a qualquer norte-americano.

O golo de Nani foi a cereja no topo de um grande arranque. E pronto, ficou por aí. Assim que os EUA meteram a bola a rolar outra vez, Fabian Johnson carregou no gatilho e começou a disparar a arma. Não mais parou. Foi com as correrias deste lateral direito do Borussia Mönchengladbach que os norte-americanos passaram o resto da primeira parte a assustarem os portugueses. André Almeida que o diga. Como à sua frente tinha Ronaldo, a quem o chip da seleção ordena que não defenda, o lateral do Benfica travou sozinho várias batalhas.

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E perdeu todas. Quando Michael Bradley ou Jermaine Jones, médios centros, queriam meter a bola em Johnson, conseguiam-no sempre. Fosse por Ronaldo não o marcar, fosse por o lateral aparecer nas costas do lateral português. Aos 11’ e 29’, Johnson aproximou-se da área portuguesa e sacou cruzamentos que não chegaram a pés norte-americanos por pouco.  Aos 31’, o tal Fabian Johnson rematava de pé esquerdo e a bola passava pouco por cima da baliza de Beto.

E Portugal, no meio disto tudo? A partir do golo, era uma confusão. Não era novidade para nenhum dos outros dez portugueses o facto de Cristiano Ronaldo não ter de defender. Raul Meireles e João Moutinho, mais do que ninguém, sentem-no nas pernas a cada jogo da seleção. Mas, nesta noite, Meireles chegou sempre atrasado ao dever de ajudar a tapar Johnson. Veloso, ao meio, nunca estava perto da defesa quando os EUA roubavam a bola à seleção — portanto, Clint Dempsey, o avançado, arrastava Bruno Alves para onde queria, fugindo-lhe depois em velocidade para receber a bola, mais à frente.

Nada funcionava. E nem o remate de Nani, aos 45’, que Howard defendeu para o poste, e o remate de Éder — que entrara logo aos 15′, para o lugar do lesionado Hélder Postiga –, na recarga, que o guardião também defendeu, apagavam a borrada que a seleção fez após inaugurar o marcador. Chegava o intervalo. E com ele uma decisão: saía André Almeida para entrar William Carvalho e Miguel Veloso passar para a esquerda da defesa.

No arranque da segunda parte, até se notaram indícios de uma reprimenda de Paulo Bento ao intervalo — Raul Meireles apareceu mais vezes ao pé de Miguel Veloso, para acautelar contra as subidas de Fabian Johnson. O problema: por vezes, Veloso continua a comportar-se como trinco e fugia dali para ir pressionar adversários no meio do relvado. Aos 48′, Éder até teve um oportunidade para marcar, mas logo depois, aos 51′, um remate de Michael Bradley só não dá golo porque Ricardo Costa se mascarou de poste em cima da linha da baliza portuguesa. Com 61′ no relógio, Ronaldo terminou um contra-ataque a rematar para bancada.

Depois, o castigo. Os norte-americanos ganharam um canto aos 64′ e a defesa portuguesa até conseguiu tirar a bola da área. Nani, porém, pouco fez para a afastar de vez dali e ela foi parar aos pés de Jermaine Jones. Ele dominou-a, meteu-a a jeito do pé direito e cá vai disto. O médio do Besiktas rematou-a, em arco, com efeito, rumo à baliza de Beto, que nem se mexeu para a tentar defender. Não serviria de nada. 1-1, e os EUA traduzia com um golo o atropelamento que estava a dar na seleção nacional.

Dois minutos depois, Tim Howard até defendeu um remate de Meireles. Depois, tudo voltou ao mesmo: os EUA a usarem rápido a bola, os portugueses a chegarem atrasados a tudo e Fabian Johnson, uma e outra vez, a ser a arma preferida da equipa de Jurgen Klinsmann para chegar à baliza de Beto. Aos 80’, foi ele que, na direita, cruzou a bola à qual, na área, ninguém tocou — mas que chegou, do outro lado, aos pés de Graham Zusi, que a voltou a mandar para a área. Desta vez, estava lá Clint Dempsey, para a empurrar com a barriga e fazer o 2-1. Sim, foi com a barriga que o capitão norte-americano fez o seu segundo golo neste Mundial.

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Tocava o despertador. Era o alerta geral. Com este resultado, Portugal estava fora do Mundial. E se não é costume alguém se recordar de um sonho, o mesmo não acontece com pesadelos — há 12 anos, na Copa do Japão e da Coreia do Sul, foram estes EUA que venceram a seleção na única vez que começou um Mundial a perder. Agora, podiam ser também eles a ditar que, pela primeira vez, Portugal perdesse a hipótese de seguir para os oitavos à segunda jornada da prova.

Foi essa a sensação que perdurou durante 15 minutos. Os EUA estavam contentes. Recuaram os jogadores, baixaram as linhas de pressão e deixaram Portugal ter a bola. Afinal, como as coisas estavam, pouco perigo poderia vir da parca inspiração que os portugueses mostraram até ali. Tinha razão. Nani tentava fintar todos, Moutinho só passava para o lado e Ronaldo, mais Éder e Bruno Alves, estavam perdido na área norte-americana. Nada passava. Até que o capitão foge dali e vai para a direita.

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É lá que espera pela bola. Já aos 95′, ela chega-lhe e, talvez com saudades dos tempos de Manchester United, tira um cruzamento, com a força de um remate, que vai direitinho para a cabeça de Silvestre Varela. Antes de a bola entrar na baliza, já Tim Howard metia as mãos na cabeça. 2-2, e o jogo acabava. Um golo festeja-se sempre, diria qualquer português. Este até impediu uma derrota e manteve Portugal na luta pelos oitavos de final, mas pouco de risonho conseguirá trazer a quem torce pela seleção nacional.

Agora, a equipa de Paulo Bento fica com ainda mais contas por fazer. E lá vem a calculadora, velha amiga desta seleção. Com este empate e apenas um ponto somado no Mundial, os portugueses ficam obrigados a vencer o Gana por muitos golos — para tentarem anular o rácio de -4 na diferença de golos. E, sobretudo, agora têm de fazer figas e torcer para que a Alemanha faça um favor e goleie os EUA na última jornada. E que seja uma senhora goleada. Depois há o Gana, a seleção africana que tanto chateou os germânicos (2-2). E que, se encontrar um Portugal mole, sem pernas e desorganizado, vai arruinar a vida durante a hora e meia em que coincidir com a equipa de Paulo Bento no relvado do Estádio Mané Garrincha, em Brasília.

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