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As expetativas eram poucas. Como sempre. Mas, no Brasil, os gregos só cairam nos penáltis, após 120 minutos de luta nos oitavos de final. Nem assim quiseram a habitual recompensa. Dinheiro, não. Quando a Grécia se juntou ao clube das seleções eliminadas do Mundial, Antonis Samaras, primeiro-ministro helénico, recebeu uma carta. “Não queremos bónus extra, só jogamos pela Grécia e pelo seu povo”, lia-se, no meio do texto assinado pelos 23 jogadores que estiveram no Brasil com a seleção.

Era fácil perceber a mensagem. Os helénicos estavam a renunciar aos prémios de jogo a que tinham direito. Os tais prémios que, para a seleção do Gana, foram motivo suficiente para os jogadores protestarem e exigirem que o dinheiro lhes chegasse às mãos antes da partida contra Portugal. Os gregos, porém, não abdicaram do dinheiro. “O que queremos é que apoie no esforço para encontrar um terreno e construir um centro desportivo que acolha a nossa seleção”, pediram os jogadores a Antonis Samaras.

Antes da Copa, por exemplo, a seleção helénica estagiou em Aghios Kosmas, na zona sul de Atenas, capital da Grécia, num centro desportivo construído em 2004, para os Jogos Olímpicos. E, ao que parece, o primeiro-ministro grego gostou da ideia. “A resposta positiva [de Antonis Samaras] a este pedido é a garantia de que o Estado fará todos os esforços possíveis para que as seleções nacionais tenham uma infraestrutura vital”, revelou Yiannis Andrianos, secretário de Estado da Cultura no governo helénico, ao Ekathimerini.

Ou seja, os euros que a seleção grega fez por merecer ao chegar aos oitavos de final serão utilizados para a construção de um centro desportivo. Será esta a retribuição para os jogadores que deixaram “todos os gregos orgulhosos”, segundo Samaras. Como? Ao garantirem a passagem aos oitavos com um golo no 93.º minuto do último jogo da fase de grupos (2-1, frente à Costa do Marfim), por exemplo.

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Faltou um adepto no Pernambuco

Depois, só nos penáltis a Costa Rica conseguiu empurrar os gregos para fora da Copa. Foi no Arena Pernambuco, em Recife, estádio onde a Federação Helénica de Futebol (FHF) queria ter contado com Jay Beatty. Quem? Pelo nome, é difícil ser grego. E não o é.

Jay tem 11 anos, é adepto do Celtic, clube de Glasgow, e sofre de Síndrome de Down. No dia em que a Grécia superou a Costa do Marfim, o seu pai publicou no Facebook um vídeo, no qual Jay, vestido com uma t-shirt da seleção helénica, festejava o golo de Giorgios Samaras — avançado do Celtic e marcador do penálti que deu a vitória à equipa treinada por Fernando Santos.

No vídeo, Jay Beatty pulou, bateu palmas e celebrou. Afinal, o golo fora do seu jogador preferido. O mesmo que, em maio, o foi procurar às bancadas do Celtic Park, em Glasgow. A bola já não rolava. Milhares de adeptos estavam em festa — o Celtic acabava de garantir a conquista do título de campeão escocês.

E Giorgios Samaras quis ver Jay Beattey a festejar: o avançado grego foi procurá-lo à bancada e, quando o encontrou, colocou-o ao  colo para Jay participar nos festejos. “Conversei com Giorgios Saris [presidente da FHF] e resolvemos tentar arranjar um bilhete e fazer com que ele possa vir assistir ao jogo contra a Costa Rica”, revelou Samaras, quando soube da campanha para levar Jay Beatty a Recife.

A federação fez o seu trabalho. Havia bilhete e o avião estava à espera. Afinal, quase 100 mil pessoas tinham já aderido à página de Facebook, na qual se pedia que Jay pudesse estar no Arena Pernambuco, no dia do Grécia-Costa Rica. Mas umas férias já agendadas com a família impediram que a seleção grega contasse com o apoio de uma criança escocesa. “Estamos desfeitos por não podermos aceitar a oferta, mas gratos por vermos pessoas que fariam isto por ele”, respondeu Martin Beatty, pai de Jay. “É inacreditável como este miúdo me dá tanta força”, chegou a admitir Samaras.

A força, desta vez, veio de mais longe. Os penáltis tramaram a Grécia e a equipa saiu do Mundial nos oitavos de final.