A varíola, uma doença mortal causada por um vírus, foi erradicada em 1979 graças à vacinação, mas existem laboratórios que conservam algumas amostras. O antrax é uma bactéria que existe na natureza onde afeta sobretudo o gado, mas tem sido usada como arma biológica em atos terroristas. Ambos os vetores de doença exigem medidas de segurança laboratorial elevadas, mas alguma coisa falhou e as amostras foram encontradas onde menos se esperava.

Estava o Centro para o Controlo e Prevenção de Doenças (CDC), nos Estados Unidos, a preparar-se para emitir que relatório sobre a exposição involuntária ao antrax do pessoal do laboratório no Royal Campus, em Atlanta, no início de junho, quando tomou conhecimento que tinha havido problemas em outro dos laboratórios que gere, no início deste ano.

O laboratório ocupado do estudo da gripe (influenza), tinha involuntariamente misturado uma estirpe não patogénica do vírus da gripe das aves com a estirpe H5N1 (uma estirpe patogénica que matou mais de 300 pessoas em 2003). Pior, enviou as amostras para o Ministério da Agricultura norte americano. Mas não são casos únicos, um relatório de 2011 dava conta de 395 incidentes em laboratórios entre 2003 e 2006, dos quais 196 foram perdas de amostras.

Em relação ao antrax, um laboratório de nível 3 [níveis de segurança no final do artigo] enviou amostras para um laboratório de nível 2 (um nível de biosegurança inferior) sem que as bactérias estivessem devidamente inativadas, como era suposto. Pondo em risco todas as pessoas que contactaram com as amostras (cerca de 75), embora ninguém tenha desenvolvido sintomas da doença.

O relatório do CDC publicado no dia 11 de julho concluía que: “os cientistas não seguiram o plano de estudo aprovado e que garantia todos os requisitos de segurança laboratorial, colocando dezenas de pessoas em risco de exposição. O relatório também detetou que houve uma falha nos procedimentos operacionais padrão.” O resultado é o encerramento de ambos os laboratórios até que as condições de segurança sejam novamente garantidas.

Num caso igualmente recente, a FDA (Food and Drugs Administration, responsável pela regulação de medicamentos e alimentos nos Estados Unidos) encontrou seis frascos contendo o vírus varíola num armazém refrigerado nos National Institute of Health, em Bethesda. A varíola foi declarada erradicada em 1979, segundo a OMS, e todas as amostras deveriam ter sido destruídas, excepto em dois repositórios mundiais. Mas estas, que datam dos anos 1950, ficaram esquecidas até agora.

Em abril deste ano, o Instituto Pasteur, em Paris, comunicou que tinha dado pela falta de mais de 2300 amostras do vírus da síndrome respiratória aguda grave (SARS) – 29 caixas com frascos que não foram encontradas durante o inventário de rotina em janeiro. A SARS é uma doença respiratória que se manifesta com febres altas, tosse e dificuldade respiratória, podendo causar a morte. Em 2003 deu-se o maior surto desta doença, afetando mais de 8000 pessoas em 29 países da Ásia, Europa, América do Norte e do Sul, e causando 774 mortes até julho de 2003, segundo dados do CDC.

Os níveis de segurança

Consoante o tipo de amostras existem requisitos especiais para os laboratórios e técnicos que as manuseiem. A Organização Mundial de Saúde (OMS) criou um “Manual de segurança biológica em laboratório” que define quatro níveis de risco para microorganismos infecciosos:
Grupo de risco 1 – risco nulo ou quase nulo de causar doença em pessoas ou animais;
Grupo de risco 2 – apesar do risco de infeção, a doença não é grave, pode ser facilmente tratada e a propagação contida;
Grupo de risco 3 – o agente patogénico pode causar uma doença grave, mas tratável e possível de conter, sendo o risco de passar para outra pessoa ou animal diminuto – é o caso da bactéria antrax e do vírus SARS (síndrome respiratória aguda grave);
Grupo de risco 4 – a doença causada pelo patogénico é grave, passa facilmente de uma pessoa para outra, muitas vezes não há cura, nem medidas de prevenção – é o caso da varíola.