Sandrina Azóia chegou a ter hipótese de ir dar aulas para Angra do Heroísmo, nos Açores, mas recusou a colocação e optou por ficar em Sintra, onde lecionou a disciplina de francês até à passada sexta-feira, 3 de outubro. Miguel Coimbra, professor de Filosofia, mudou-se de malas e bagagens de Braga para Lamego, onde também acabou por só dar aulas durante três semanas. Em comum, Sandrina e Miguel têm o facto de serem professores contratados e terem ficado agora no desemprego, depois de o Ministério da Educação ter refeito a Bolsa de Contratação de Escola (BCE), devido aos erros na fórmula de cálculo na primeira bolsa.

“Dia 11 de setembro fiquei colocada em Angra do Heroísmo. No dia 12 recebi a notícia que tinha ficado colocada numa escola em Sintra, a 14 quilómetros de casa, através da Bolsa de Contratação de Escola, e decidi ficar por cá até porque o meu marido está muito doente”, contou ao Observador Sandrina Azóia, de 37 anos, professora de Português, Francês e Ensino Especial. Na passada sexta-feira foi dispensada pela escola. “Agora nem Sintra, nem Açores. Estou sem trabalho. Aguardo desenvolvimentos e quero acreditar que o nosso ministro vai cumprir com a palavra que deu no Parlamento. Ele disse que ninguém seria prejudicado”, acrescentou a docente que, com a correção da BCE, caiu muitas posições na lista de ordenação dos docentes e portanto não só perdeu o seu lugar para outro professor como ficou, para já, sem emprego.

Cartão vermelho recebeu também Miguel Coimbra, de 33 anos. Na sexta-feira o professor de Filosofia recebeu um telefonema da escola de Lamego onde lecionou durante as últimas três semanas. Não precisaria de lá voltar. “Não sei sequer se é legal. E quem me vai pagar o dinheiro que gastei nas três semanas? Na primeira fiz todos os dias a viagem Braga, Lamego, Lamego, Braga, na segunda paguei pensão e alimentação por lá, e nesta última semana tinha fechado o contrato de arrendamento e pago dois meses de caução. Não sei sequer se vou ser indemnizado”, desabafou ao Observador, antes de partir para Lamego em busca de respostas.

“Na primeira fiz todos os dias a viagem Braga-Lamego, Lamego-Braga, na segunda paguei pensão e alimentação por lá, e nesta última semana tinha fechado o contrato de arrendamento e pago dois meses de caução.”

Explicações procurou também Maria João Cavalheiro. Esta segunda-feira de manhã dirigiu-se à Direção-Geral da Administração Escolar (DGAE). A professora de Matemática e Ciências de 41 anos passou de um horário completo numa escola em Loures, onde já tinha feito todo o planeamento do ano, para um horário de 11 horas semanais num agrupamento em Portimão. Até às 23h59 desta segunda-feira, 6 de outubro, teria de aceitar a colocação, sob o risco de ser penalizada mais tarde. E esta terça-feira ruma a Sul, bem cedo, com as malas feitas à pressa e o “coração apertado”. “Vou ficar longe do meu marido e dos meus filhos de 16 e sete anos de idade. São mais de 280 quilómetros que nos vão separar”, lamentou a docente que nunca esteve assim tão longe de casa.

Na DGAE, Maria João confrontou um funcionário com as declarações do ministro da Educação, Nuno Crato, no Parlamento, a 18 de setembro. No dia em que assumiu a responsabilidade pelo erro na aplicação da fórmula de classificação dos docentes na BCE e pediu desculpas aos professores, aos pais e ao país, Crato também tranquilizou os docentes dizendo que “ninguém” seria prejudicado.

“Na DGAE disseram-me que tudo o que foi dito, sem ser escrito, não tem qualquer valor! Disseram-me que se tiver sorte serei colocada numa próxima bolsa ou reserva de recrutamento, no final desta semana ou na próxima”, relatou a professora que leciona há 16 anos, mas que por ter tido muitos horários incompletos só conta com perto de nove anos de serviço.

“Vou ficar longe do meu marido e dos meus filhos de 16 e sete anos de idade. São mais de 280 quilómetros que nos vão separar”, lamentou a professora Maria João Cavalheiro, de 41 anos.

Estes são apenas alguns exemplos que ilustram as perturbações causadas pela correção dos erros nas listas de ordenação da BCE, que levaram à demissão do diretor-geral de educação, depois de muitos protestos dos docentes. Ao todo terão sido afetados cerca de 400 professores, sendo que para mais de 150 implicou mesmo a ida para o desemprego. Números que são vistos de outra perspetiva pelo ministro da Educação. Nuno Crato tem feito questão de frisar que estão em causa menos de 0,8% dos 110 mil professores que estão nas escolas desde o arranque do ano letivo.

“Dança de cadeiras” deixa alunos sem aulas

Mas as dúvidas e a preocupação dos professores também são sentidas pelos dirigentes escolares destes cerca de 300 estabelecimentos de ensino com contrato de autonomia ou em territórios de intervenção prioritária. Com esta “dança de cadeiras” provocada pela anulação da primeira Bolsa, ao fim de três semanas de aulas houve alunos que ficaram agora sem professor a algumas disciplinas.

No Agrupamento de Escolas Dr. Matos Costa, em Gaia, um professor de história teve a oportunidade de escolher entre esse e outros dois agrupamentos e acabou por escolher um em Matosinhos. “Para mim é chato, porque me vai abrir uma vaga em história e eles [Ministério da Educação] dizem que as colocações são ao minuto, mas a máquina não está oleada”, revelou Filinto Lima, diretor do agrupamento e vice-presidente da Associação de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, que pediu hoje ao Ministério da Educação para esclarecer se os diretores das escolas agiram com legitimidade ao anularem as colocações de professores do concurso da bolsa de contratação.

A ordem para a anulação das colocações destes docentes chegou às escolas na passada sexta-feira, horas antes de saírem as novas listas. O Ministério da Educação diz que “o processo que se iniciou é o mais justo para todos” e que se converteu a graduação profissional e a avaliação curricular para escalas idênticas, tendo sido ponderados 50% de cada um dos valores obtidos para obter a classificação final e assim ordenar os docentes.

Em resposta ao Observador, sobre as situações de desemprego que resultaram da nova lista, e da garantia que o ministro deu no Parlamento, fonte oficial do Ministério da Educação disse que “neste momento ainda estão a decorrer colocações” e que “muitos mais docentes ficarão colocados na sequência dos movimentos que estão necessariamente a processar-se no âmbito destas novas listas de ordenação, fruto da opção dos docentes com dupla colocação na reserva de recrutamento e na bolsa de contratação de escola e da validação pelos diretores das colocações agora divulgadas. Outros poderão ficar colocados através da publicação esta semana de uma nova lista BCE e de uma nova Reserva de Recrutamento. Reafirma-se que as situações residuais serão analisadas caso a caso”.

 

* Reportagem de Marlene Carriço