Os especialistas portugueses estão cada vez mais atentos ao vírus do ébola, sobretudo agora que foi confirmado o primeiro caso de contágio em Espanha. E se, por um lado, as autoridades de saúde afastam o perigo de maior contágio só por haver um caso confirmado no país vizinho, por outro, revelam que se está a perceber que o risco de contágio do vírus é mais alto do que se pensava.

O risco de haver uma epidemia é muito baixo, mas o risco de contágio naturalmente que existe. Aliás, o contágio do ébola tudo indica que é mais fácil do que aquilo que se pensou inicialmente”, disse ao Observador Francisco George, diretor geral de Saúde, acrescentando que se assim não fosse não haveria já casos fora dos países onde o vírus mais tem atacado – Libéria, Serra Leoa e Guiné Conacri.

Mas questionado sobre se o risco para Portugal é maior devido ao caso espanhol, Francisco George não hesitou: “não é seguramente via Espanha que poderemos ter a eventualidade de diagnosticar um caso em Portugal. Não acreditamos que existam cadeias de transmissão direta”, afirmou o diretor geral de Saúde.

“O contágio do ébola tudo indica que é mais fácil do que aquilo que se pensou inicialmente”, disse ao Observador Francisco George, diretor geral de Saúde.

Também por isso, a Direção Geral de Saúde (DGS) decidiu manter o nível de alerta em relação vírus no país, até porque, segundo Francisco George, “não temos ligações com esses países [Libéria, Serra Leoa e Guiné Conacri], nem história de colaboração conjunta de portugueses e habitantes daquela região”, nem existem voos diretos para esses destinos, frisou. O que aumenta com este caso é “o nível de atenção e acompanhamento”.

O diretor de serviço de infecciologia do Hospital Curry Cabral, Fernando Maltez, disse ao Observador que o caso espanhol alerta para “a necessidade de reforçar todas as medidas de prevenção e circuitos estabelecidos para tratar e acompanhar estes doentes”.

Três hospitais preparados para receber eventuais infetados

Ainda que com um nível de risco de contágio baixo, Portugal está preparado para responder a casos de suspeita de infeção pelo vírus do ébola. Há três hospitais de referência para cuidar destes eventuais casos – Curry Cabral e D. Estefânia (para crianças), em Lisboa, e o S. João, no Porto – para os quais devem ser reencaminhados todos os doentes com suspeita de terem contraído o ébola. Já os procedimentos laboratoriais do doente só poderão ser realizados pelo Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA) para diagnóstico molecular de ébola e de malária e pelos laboratórios dos hospitais de referência para análises essenciais para efeitos de seguimento do doente.

Aí chegado, o doente é colocado em isolamento num quarto, se possível com pressão negativa e com casa de banho de uso exclusivo e “se a condição clínica permitir” devem ter uma máscara cirúrgica. Já os profissionais de saúde “deverão usar Equipamentos de Proteção Individual (EPI) e cumprir recomendações previstas”, conforme se pode ler nas orientações dadas pela DGS à população e aos profissionais de saúde.

O especialista em infecciologia, Fernando Maltez, explicou ao Observador que o Curry Cabral, enquanto hospital de referência, “tem os canais de circulação de doentes, de chegada e de isolamento e dispõe de equipamentos de proteção individual (fatos integrais, barrete, touca, viseira, óculos, máscara, botas e luvas) bem definidos”. Além do mais um conjunto de profissionais de saúde e também pessoal auxiliar e técnicos tiveram “ações de formação”.

Apesar disso, o dispositivo de coordenação criado para acompanhar este assunto está “a rever todos os procedimentos estabelecidos, a ver se não há falhas, se está tudo de acordo com o que é indicado e vão-se estabelecer mais regras relativamente à quarentena”, avançou ao Observador Fernando Maltez, acrescentando que o objetivo é aumentar a segurança. Além disto, deverá resultar até sexta-feira um documento em que se incluirá “um reforço nas recomendações” para os hospitais que não os três de referência e para os centros de saúde.

“Está-se a rever todos os procedimentos estabelecidos, a ver se não há falhas, se está tudo de acordo com o que é indicado”, Fernando Maltez, diretor do serviço de infecciologia do Curry Cabral.

Em Espanha, várias vozes se têm levantado para questionar o porquê de a auxiliar de enfermagem infetada com o vírus ter ficado seis dias com sintomas, sem ter sido vista pelos especialistas. Outras tantas questionam o que terá falhado para que esta profissional de saúde, que cuidou do sacerdote espanhol Manuel García Viejo, falecido de ébola no final de setembro, tenha ficado infetada. Profissionais de saúde dos hospitais de Madrid queixam-se das falhas na segurança e denunciam falta de informação e proteção, embora as autoridades de saúde reiterem que há mecanismos de proteção que foram cumpridos, segundo a imprensa espanhola.

ABC.es apresenta cinco razões para não temer o ébola em Espanha, depois de o próprio ministro da Saúde espanhol ter dito que a Espanha é um dos países com menor risco de contrair o vírus:

1. Não há voos diretos para os países mais afetados Espanha não tem nenhum voo direto para a Libéria, Serra Leoa e Guiné Conacri, onde está o centro da epidemia, ao contrário de outros países europeus.

2. Nigéria só tem 12 casos e estão sob controlo Espanha tem ponte aérea com a Nigéria (quatro voos semanais), e era a maior preocupação para as autoridades, mas a Organização Mundial de Saúde já disse que estão debaixo de controlo os 12 casos de ébola identificados.

3. O vírus mata mas é de difícil contágio O ABC.es é imperativo ao dizer que o vírus do ébola não se transmite pelo ar ou por pequenas quantidades de saliva como a gripe, a tuberculose ou outras infeções respiratórias, pelo que o contágio é mais difícil, apesar de muito mortal. O vírus transmite-se essencialmente por contacto com vómitos, fezes, sémen e sangue de pessoas infetadas. E o risco de contágio é maior quando os sintomas são mais visíveis.

4. Mais de 20 hospitais a postos Espanha adotou o protocolo de vírus hemorrágico e cada comunidade tem, pelo menos, um hospital preparado para receber e tratar este tipo de doentes. E o pessoal médico está treinado para os tratar.

5. Não há risco na fronteira com Ceuta e Melilla A publicação frisa que Ceuta e Melilla não são as zonas de maior risco. Chegar até esta fronteira é uma viagem difícil e complicada, impossível mesmo, diz o ABC, para quem está infetado e com sintomas.