Em Berlim, para participar nas comemorações dos 25 anos da queda do muro, Mikhail Gorbatchev disse, na tarde deste sábado, que “o mundo está à beira de uma nova guerra fria” e que a Europa se transformou numa arena de revolução política, o que levou ao seu “enfraquecimento”. O antigo líder da URSS alertou ainda que se esta situação continuar, o continente arrisca-se a perder a sua “voz forte” e a tornar-se irrelevante.

“Em vez de se ter tornado um líder da mudança global, a Europa transformou-se numa arena de revolta política, de concorrência pelas esferas de influência e até de conflito militar. A consequência inevitável é o enfraquecimento da Europa numa altura em que outros centros de poder estão a ganhar influência. Se isto continuar, a Europa vai perder a sua voz forte nos assuntos internacionais e tornar-se irrelevante” , disse  Mikhail Gorbatchev.

Após ter sido recebido como um herói na sua chegada a Berlim na noite de sexta-feira – gravou as suas mãos em cimento numa cerimónia junto ao Checkpoint Charlie – e ter elogiado a capacidade de reunificação da Alemanha, Mikhail Gorbatchev deixou alguns recados ao Ocidente numa conferência que decorreu este sábado. Disse que os Estados Unidos e os seus parceiros da NATO se aproveitaram do enfraquecimento da Rússia após a queda da URSS e quiseram deter o “monopólio da liderança”. “Os eventos a que temos assistido nos últimos meses são uma consequência direta da falta de visão das políticas que foram impostas”, argumentou o russo.

Alguns dos exemplos destas políticas, segundo Gorbatchev, são as políticas “expansionistas” da NATO, o desenvolvimento do sistema antimíssil, as intervenções militares na Jugoslávia e no Iraque e por último a crise ucraniana, que “começou por ser uma bolha, agora está a sangrar e pode transformar-se numa ferida putrefacta”. O último líder soviético apontou assim o dedo pelas atuais tensões às ações do Ocidente nos últimos anos, concluindo assim que o mundo está à beira de uma nova Guerra Fria.

Gorbatchev, um crítico de Putin, disse ainda que o presidente russo está neste momento à procura de um entendimento com o Ocidente, apoiando a sua ação na crise ucraniana. “Apesar do seu criticismo ao Ocidente e particularmente aos Estados Unidos, eu vejo o discurso de Putin como um desejo de encontrar uma maneira de baixar a tensão e em última análise, criar uma plataforma de entendimento”, argumentou.