A retirada dos bens da localidade de Portela, perto do vulcão da ilha do Fogo, já terminou e haverá agora “tolerância zero”, podendo as autoridades recorrer à força para os que lá pernoitarem, garantiu nesta sexta-feira fonte da proteção civil cabo-verdiana. O coordenador das operações do Serviço Nacional de Proteção Civil (SNPC) de Cabo Verde, Nuno Oliveira, comentava, paralelamente, à Lusa a tentativa desencadeada por alguns jovens da povoação situada no planalto de Chã das Caldeiras, que serve de base às sucessivas erupções vulcânicas que assolam o Fogo desde domingo.

“Acabou a tolerância dada pelo Governo para a retirada dos bens. Sei que houve pessoas a colocar portas e janelas e a guardar algum mobiliário nas suas casas, porque a lava já não está a avançar, mas essas pessoas não vão ficar. Deixarão os bens onde quiserem e vão embora. A partir de agora é tolerância zero e, se for preciso usar a força, usaremos. Vamos usar a força mas não a de armas”, frisou Nuno Oliveira.

Neste sentido, continuou, vai ser montado um plano de vigilância e segurança em Chã de Caldeiras, de modo a que Portela se mantenha “sem nenhum residente”, só podendo entrar quem for dar de comer aos animais que deixou ficar para trás. “Mas essas pessoas serão devidamente registadas à entrada e vamos garantir que voltarão a sair”, sublinhou.

A atitude de parte da população surgiu a meio da manhã de hoje, quando o vulcão diminuiu ligeiramente a intensidade, apesar de as explosões continuarem, afirmou à Lusa a geóloga cabo-verdiana do Observatório Vulcanológico de Cabo Verde Sónia Silva Vitória, que frisou os perigos da “grande imprevisibilidade” do vulcão. “Ainda é muito cedo para falarmos no comportamento dele. Oscila de comportamento em pouco tempo”, reconheceu a geóloga, esclarecendo que, durante a tarde de hoje, diminuiu a expulsão de piroclásticas (areias, cinzas e escórias) e aumentou a saída de fumos. “São fumos negros, incolores e azuis, ou seja, estão a sair dióxido e monóxido de carbono, dióxido e óxido de enxofre, vapor de água e óxido de clorídrico, tudo gases prejudiciais à saúde”, precisou.

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Por sua vez, a geoquímica cabo-verdiana Nadir Cardoso, que está no terreno juntamente com outros elementos do observatório vulcanológico, nomeadamente das Canárias, adiantou à Lusa que já está a funcionar uma câmara térmica a medir a temperatura da lava. “A pouco mais de um quilómetro da cratera do vulcão, a lava está a uma temperatura superior a mil graus celsius. Hoje à tarde, fizemos medições na zona em que a lava entrou em Portela e registamos uma temperatura de 860 graus celsius”, explicou.

Os dados que os elementos do observatório estão a recolher no terreno, assim como o dos gases existentes e quais os seus níveis de perigosidade, ainda não permitiram que se chegue a qualquer conclusão, o que poderá acontecer nos próximos dias, acrescentou. Portela é a localidade que alberga a maior população de Chã das Caldeiras – de pouco mais de mil habitantes -, onde a erupção vulcânica, que se iniciou no domingo, já provocou a destruição de 15 residências, 14 cisternas de água, 15 currais, duas casas de apoio à agricultura e uma vasta área rural e agrícola. A erupção vulcânica, porém, não provocou, até hoje, sete dias após ter começado, qualquer vítima.