Nunca, antes, em tempo algum, quando vem longe a metade de uma temporada, Cristiano Ronaldo apresentou números tão sagrados em campo. Vinte golos e oito assistências na Liga Espanhola em doze jogos. É muito, mas não é tudo.

Michel Platini já não vai a tempo de fazer um ato de contrição. Disse, está dito. As declarações pouco católicas do presidente da UEFA patrocinam um alemão. É um alemão quem deve por as mãos na Bola de Ouro em 2014, disse. A FIFA, que ainda não divulgou o vencedor, mas que já trouxe ao mundo a trindade candidata ao prémio, deu a conhecer o nome do único alemão, candidatável, que pode jogar a bola com as mãos, Manuel Neuer. E logo o único alemão que não pode ser comparado, em termos de rendimento, de forma direta, por via da sua condição específica, guarda-redes, com Cristiano Ronaldo e Lionel Messi. São habitantes de planetas diferentes dentro do mesmo sistema solar, o futebol. Neuer é o anti-climax que o jogo precisa para ter a dimensão universal que tem. Messi e Ronaldo são o sentido da vida. Entre os dois venha o diabo e escolha.

Todos os números

Em 1991, ano em que a Caminho punha no papel “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, de José Saramago, Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro, com os seus seis anos e sua primeira classe, começava a aprender a ler e a escrever. Seis anos mais tarde, estava Ronaldo a completar a primeira época de formação no Sporting e José Saramago explorava a ânsia de conhecer o desconhecido, em “Todos os Nomes”.

Posto isto: nem todos sabem que, nesta época de 2014/15, no campeonato espanhol, Cristiano Ronaldo marca um golo a cada 54 minutos! Esteve em 12 encontros (falhou um por lesão) e marcou 20 golos. É o melhor marcador da prova. Lionel Messi tem 10. Neymar tem 11. Cristiano lidera uma outra tabela, a das assistências, com 8, aqui par de Koke, médio do Atlético de Madrid. A empresa Onefootball GmbH, com sede em Berlim, publica estes e outros dados, fornecidos pela OptaSports, um gigante da recolha de dados desportivos, que trabalha com as maiores ligas, clubes e grupos de comunicação social do mundo.

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Com os olhos postos em cima de um dos jogadores mais mediáticos do planeta, por aí se vê que Cristiano Ronaldo, para além dos golos e das assistências, realizou, até momento, 24 cruzamentos na Liga Espanhola. Que em média, durante os 90 minutos, o capitão da seleção portuguesa toca na bola 58 vezes. A precisão de passe está nos 82,5%.

Fruto da posição que ocupa em campo, por norma a de extremo esquerdo, Ronaldo aparece na área e desaparece da área. Como uma brigada de intervenção rápida, chega, faz o que tem a fazer e vai em embora. Dos 20 golos que marcou até ao momento, 18 surgiram dentro da grande área. Dos 20, 14 com o pé direito, 2 com o pé esquerdo e 3 de cabeça.

Antes das férias de verão Cristiano Ronaldo conquistou a Liga dos Campeões e calçou a terceira Bota de Ouro. Messi nem uma coisa nem outra. Neuer juntou mais uma Bundesliga ao palmarés e no Brasil chegou ao topo do mundo com a seleção alemã. E antes das férias de verão, Cristiano Ronaldo foi o melhor marcador numa só época da Liga dos Campeões, com 17 bolas na última morada do jogo, a baliza. Já o mundial português foi o que foi. E o mundial de Cristiano também, mas sem ajoelhar, e devido a uma lesão na articulação que ajuda à metáfora.

De então para cá, desde o início da época em curso, e somando ao desempenho inédito no campeonato espanhol, Cristiano, nos cinco jogos em que participou na Liga dos Campeões, fez mais uma assistência e marcou 4 golos. Logo no início de agosto marcou dois golos ao Sevilha, golos que deram nova Supertaça Europeia aos merengues.

Num outro plano, no arranque da qualificação para o Euro2016, dois jogos, Dinamarca e Arménia, mais 2 golos. E seis pontos a caminho da pátria de Michel Platini.

Lionel Messi tem quatro Bolas de Ouro. Ronaldo, duas. Um não vale o dobro do outro, seja qual for a perspetiva.