O Chapitô conseguiu superar com sucesso o desafio provocado pelo que designa como “cortes brutais” do Governo, assim como pelo aumento dos pedidos de apoio por parte dos alunos que frequentam a escola de circo, com o trabalho que desenvolve em várias áreas.

Quando fundou o Chapitô, há 33 anos, Teresa Ricou planeou como poderia rentabilizar “a toda a hora” os espaços da antiga cadeia das Mónicas, na colina do Castelo de S. Jorge, no coração histórico de Lisboa. Assim o fez. Durante o dia, o Chapitô é um espaço de aprendizagem, onde em quase todas as salas se veem alunos a aprender acrobacias, malabarismo e outros ofícios ligados ao espetáculo, e, à noite, transforma-se num espaço de lazer e cultura aberto a todos.

“Não é fácil conjugar estas áreas todas, mas é possível e está feito”, disse à agência Lusa a presidente do Chapitô, Teresa Ricou. A palhaça Teté explicou como o Chapitô tem conseguido manter-se: “temos a área da produção de espetáculos bastante bem desenvolvida (…), com muita procura, onde fazemos dois em um, os miúdos vão para o mercado de trabalho e têm a sua sobrevivência garantida”. Há também a Companhia do Chapitô, com jovens formados na escola, que anda em digressão pelo mundo. “Eles levam o nosso nome e trazem outras mais-valias, conhecimentos, aprendizagem (…) e alguns apoios”.

Sónia Correia, responsável pela gestão do Chapitô, disse que a instituição tem um orçamento anual de cerca de 1,8 milhões de euros. “É uma grande responsabilidade”, quando “todos os apoios estruturais do Governo têm vindo a diminuir”. “Temos tido nestes últimos quatro anos cortes absolutamente brutais, o que implica que o Chapitô desenvolva cada vez mais a economia social”, disse.

Por outro, as solicitações para ação social têm vindo a aumentar. Há uma “forte percentagem” de alunos que dependem do Chapitô, na alimentação, alojamento, transporte e vestuário. Este impacto tem sido superado por “receitas próprias” que, principalmente, nos últimos dois anos, “têm conseguido não só nivelar o que se perdeu, como aumentar”.

Por detrás das portas do Chapitô, vive-se um ambiente familiar, em que cultura, formação, criação, animação e intervenção social andam de “mãos dadas”.

A frequentar o segundo ano da escola de circo, Sara, 16 anos, disse “gostar imenso” do processo de formação, “tão diferente das outras” escolas. “As nossas aulas não são dentro dos formatos de uma escola habitual e dão-nos muito mais oportunidade para explorarmos as nossas capacidades artísticas, a expressão e o contacto com as outras pessoas”, contou a Sara, que dedica muitas horas do dia a fazer acrobacias aéreas em tecido e malabarismos.

Tiago, 24 anos, conheceu o Chapitô através de amigos e decidiu entrar, aos 21 anos, na Escola Profissional de Artes e Ofício, onde optou por cenografia, luz e som. Sobre a vida na escola, comentou que é “muito circense, muito animadora e de muita aprendizagem” e o ambiente “muito acolhedor”, mas “muito stressante” em véspera de apresentar um espetáculo. “O facto de nos fazerem sentir mais à vontade na escola dá-nos mais vontade de aprender”, frisou, com um sorriso rasgado.

O ambiente também é partilhado pelos pais dos alunos, conforme contou à Lusa Maria José Farinha, mãe de Francisco, aluno do 2.º ano que veio da escola dos Salesianos.

“A escolha desta escola foi do Francisco, aprovada por nós. Inicialmente não seria a primeira escolha, mas eu sempre soube que ele queria seguir um percurso no domínio das artes”, contou. Questionada sobre se tem algum receio sobre a saída profissional, Maria José disse que esse receio é para quem estuda nesta escola, mas também em qualquer outra.

Teresa Ricou orgulha-se deste projeto, que quebrou muitas barreiras em Portugal: “Primeiro por ser mulher, depois por ser palhaço, por ser artista de circo, por ter de enfrentar muitos preconceitos”.

Deseja ainda que “as pessoas não se fiquem só pelo lado mais mediático” do Chapitô, que é o espetáculo, “porque por detrás do espetáculo há muita coisa a acontecer”.