Decidir a capa da primeira edição do Charlie Hebdo após o ataque da semana passada não foi fácil, desabafou o chefe de redação, Gérard Biard, numa conferência de imprensa esta terça-feira, em Paris. Perante uma sala cheia de jornalistas de todo o mundo, que aplaudiram, à chegada, três dos sobreviventes do ataque ao semanário francês, o cartoonista Renald Luzier, mais conhecido por Luz, explicou, visivelmente emocionado, como criou a capa da revista.

“Sinceramente eu não sabia o que desenhar. Quinta-feira à noite fiz um desenho que me serviu de catarse”, começou por dizer Luz. Depois desse desenho, pensou que tinha de fazer uma capa que “fizesse rir em primeiro lugar”, acrescentando momentos mais tarde que esta não é a primeira página que “o mundo queria mas é a que nós quisemos”.Um “homem que chora”, repetiu o cartoonista depois de relatar a dificuldade que foi escolher a primeira página e acrescentando que não sabe se terá forças para desenhar esta semana. “Escrevi na capa ‘tudo está perdoado’ e comecei a chorar”, contou.

“Foi muito duro encontrar uma capa, muito difícil”, reconheceu o chefe de redação, Gérard Biard, reiterando a importância da liberdade de expressão. Biard acrescentou ainda que o Maomé do semanário “é muito mais simpático que o dos terroristas”. “O nosso Maomé só é um bom homem que chora”, acrescentou, numa conferência marcada pela emoção e pelas lágrimas, que obrigaram os três sobreviventes do ataque a interromper o discurso por algumas vezes. “Este número saiu na tristeza e na alegria. Estamos felizes de o ter feito, estamos felizes de aqui ter chegado”, rematou.

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A primeira edição do semanário Charlie Hebdo terá Maomé em lágrimas na capa.

Questionado sobre as reações que esta caricatura poderá causar, Luz respondeu não ter “nenhuma preocupação”, por acreditar que “as pessoas são inteligentes.”

A edição desta quarta-feira do semanário satírico francês Charlie Hebdo vai ser distribuída em mais de 20 países e será traduzida, excecionalmente, em cinco línguas: inglês, espanhol e árabe na versão digital, e em italiano e turco na versão em papel, precisou o chefe de redação, Gérard Biard, durante a conferência de imprensa em Paris, na redação do Libération. A edição terá uma tiragem de três milhões de exemplares em vez dos habituais 60 mil.

Os três sobreviventes do semanário, além de Luz e Biard, também Patrick Pelloux, deixaram ainda a garantia de que “existe um futuro para ‘Charlie Hebdo'”, embora não saibam “como será”. “Haverá papel, mas nem nós conhecemos os detalhes”, afirmou Biard, que agradeceu por várias vezes, ao longo da conferência de imprensa, o apoio que têm recebido.