Se fosse vivo, António Sérgio faria hoje 65 anos. Quem segue as ondas da rádio lembra-se dele. Talvez o nome já não esteja na memória, mas seguramente a voz, aquela voz grave, muito grave, que durante muitos anos preencheu as horas – sobretudo as noturnas – da Rádio Comercial, da XFM e da Radar.

António Joaquim dos Santos Ferrão (António Sérgio era um pseudónimo, em homenagem ao pensador) nasceu em 1950 em Benguela, Angola. Estreou-se na rádio ainda na ex-colónia, no Rádio Clube do Bié. Já em Portugal, entrou na Rádio Renascença em 1968 e foi a partir daí que fez carreira até se tornar um dos nomes fundamentais da rádio portuguesa. Muitos chamavam-lhe “o John Peel português”, um tremendo elogio se considerarmos que o locutor inglês é tido como uma das figuras mais importantes da história da rádio. António Sérgio foi o realizador e apresentador de programas tais como o Rotação, Rolls Rock, Som da Frente, Lança Chamas, A Hora do Lobo e Viriato 25.

Foi um grande comunicador e concentrou toda a sua carreira na divulgação musical, em particular no segmento pop/rock alternativo. Antes de Portugal entrar na rota do mercado discográfico, muito antes do CD e da internet, era ele quem arranjava os discos antes de toda a gente. Foi nos programas dele que se ouviram pela primeira vez em Portugal nomes como Joy Division, Iggy Pop e Sex Pistols.

O locutor Francisco Mateus (TSF), autor do blogue Rádio Crítica, apresenta na publicação de hoje um conjunto alargado de referências sobre a vida e carreira de António Sérgio. Sempre à frente do seu tempo, marcou várias gerações de realizadores e apresentadores de rádio, o que ficou bem ilustrado no documentário “Uivo”, realizado por Eduardo Morais e apresentado no final do ano passado.

António Sérgio era um grande defensor dos programas de autor. Na última década a rádio portuguesa alinhou definitivamente com o modelo playlist, mas “O Lobo”, com maior ou menor resistência, sempre conseguiu o seu espaço. Há cinco anos, com 60 de idade, mantinha-se como uma referência na divulgação de novas tendências no espetro da Radar. O seu percurso deixa-nos imaginar que aos 65, se fosse vivo, o seu Som continuaria à Frente. Take care, stay tuned.