Poderá um dos fundadores do jornal satírico francês Charlie Hebdo não “ser Charlie”? Henri Roussel, que na década de 70 ajudou a criar a publicação, acusou Stéphane Charbonnier (Charb), diretor do jornal e uma das 12 vítimas do atentado terrorista, de ter “arrastado a equipa” para a morte depois das sucessivas publicações controversas que despertaram a ira da comunidade islâmica.

Num artigo publicado na revista Nouvel Obs, sob o pseudónimo de Delfeil de Ton, Roussel, de 80 anos, começou por elogiar o antigo diretor da revista, descrevendo-o como um “rapaz incrível”. Mas diz que “a cabeça dura” de Charb terá ditado a morte do cartoonista. Pior, arrastou toda a equipa do Charlie Hebdo, lamentou Roussel.

“O que o fez sentir a necessidade de arrastar a equipa para este exagero?”, questionou o fundador do jornal, referindo-se ao episódio da reprodução da caricatura de Maomé, antes publicado por um jornal dinamarquês.

O primeiro aviso de que o Charlie Hebdo se tinha tornado um alvo dos extremistas islâmicos aconteceu pouco tempo depois da publicação da caricatura polémica. Em 2011, a sede do jornal foi destruída depois de ter sido atingida por uma bomba incendiária. Mas o diretor não desistiu de publicar novos cartoons do profeta. Para Roussel, isso foi um erro. “Ele não o devia ter feito [em 2011], mas voltou a repeti-lo em 2012″, lamentou o escritor.

As palavras do fundador do jornal e a decisão da revista francesa de publicar o artigo mereceram duras críticas do advogado que trabalhou com a equipa do Charlie Hebdo nos últimos 22 anos. “Charb ainda não foi enterrado e o Obs não encontra nada melhor para fazer do que publicar um artigo polémico e venenoso sobre ele. Ainda no outro dia, o diretor da Nouvel Obs, Matthieu Croissandeau, não podia derramar mais lágrimas [pelo sucedido] e garantia que iria continuar a luta. (…) Recuso-me a ser invadido por maus pensamentos, mas a deceção é imensa”, afirmou Richard Malka.

Matthieu Croissandeau, o diretor da revista, defendeu-se das acusações do advogado, com o argumento de que a liberdade de expressão deve ser respeitada, mesmo não concordado com o que é escrito. Croissandeau lembrou que não “podia censurar a voz” de um “dos pioneiros do gang [do Charlie Hebdo]”, especialmente quando o fundador do jornal culpa o diretor pelo destino fatídico dos companheiros.