O humor provocante, sem pudor ou medo da sensibilidade religiosa, era a especialidade de Jean Cabu. O desenhador de muitas das capas mais polémicas do jornal francês Charlie Hebdo, é um dos 12 mortos no ataque que ocorreu em Paris, nesta quarta-feira, de acordo com o Le Point. Stephane Charbonnier, mais conhecido por Charb, jornalista, desenhador e um dos editores do Charlie Hebdo, é outro, avança o jornal francês.

Em maio de 1975, Cabu esteve em Portugal durante o PREC e imortalizou o momento que o país vivia numa tira de banda desenhada. Mas esta foi só uma das suas paragens. Fundado em 1970 e ligado a movimentos políticos de esquerda, o semanário Charlie Hebdo surgiu para marcar a atualidade de França e do mundo com um humor cortante e incisivo. Nunca existiram tabus editoriais ou temas demasiado sensíveis, o que desde cedo atraiu muitas antipatias e críticas ao jornal.

(Desenhos de Cabu sobre Portugal, em 1975, durante o PREC.)

Nem esta é a primeira vez que os escritórios do jornal sediado em Paris são atacados. Em novembro de 2011, foi com um “cocktail molotov”, devido a uma edição especial “editada especialmente pelo profeta Maomé”. A capa tinha um desenho de Maomé a ameaçar os leitores com “100 chibatadas caso não se rissem”.

Desde 2013, Charb estava na lista das pessoas mais procuradas da Al-Qaeda e vivia sob proteção policial. “Prefiro morrer em pé, que viver de joelhos”, afirmou, em 2011.

E a resposta ao ataque na redação do jornal? Chegou na edição seguinte, com mais humor.

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Capa do Charlie Hebdo em Novembro de 2011, dias depois de um atentado à bomba que destruiu a redação.

A notícia da morte destes dois desenhadores já foi confirmada pelo advogado da publicação, em declarações a vários meios de comunicação.

Pouco antes do ataque aos escritórios do Charlie Hebdo, o jornal tinha publicado no Twitter um cartoon de feliz ano novo ” e, especialmente, boa saúde” para o líder do Estado Islâmico, Abu Bakr Al-Baghdadi. Ainda não se sabe a identidade dos três autores do ataque, mas de acordo com as imagens já divulgadas estes foram vistos a gritar “Alá é grande”. O semanário Charlie Hebdo foi processado por várias instituições religiosas ao longo dos anos.

Mas os muçulmanos não são o único motivo de gozo para o jornal: Marine Le Pen, François Hollande, judeus, Vaticano ou opositores ao casamento gay, também já foram matéria de humor.

Na capa da edição desta semana, lançada nesta quarta-feira, aparece Michel Houellebecq com o seu novo romance, Submissão, que recria França sob o regime de um presidente muçulmano – um dos temas mais debatidos nos últimos dias.

Segundo o Ministério Público de Paris, o ataque levado a cabo pelos dois terroristas matou 12 pessoas – 10 jornalistas e dois polícias -, causou quatro feridos graves e 20 feridos ligeiros.

Há poucos meses, Charb, 47 anos, tinha publicado uma banda desenhada sobre a vida do profeta Maomé, que criou muita polémica em França. “Não percebo porquê não posso fazer piadas sobre o islão (…), tal como fazemos sobre o catolicismo”, afirmou, em declarações à AFP, na época do lançamento. Tanto para Cabu como para Charb, o humor tinha limites. Ambos seriam apoiantes das palavras que George Carlin disse um dia:”Acho que o dever de um comediante é perceber onde está a linha e atravessá-la deliberadamente”.

(Stephane Charbonnier, mais conhecido por Charb)

(Último desenho de Charb para o Charlie Hebdo.)

Nos últimos anos, a publicação foi alvo de várias ameaças terroristas.

(Descansa em paz, Cabu, tu eras anti-militarista, anti-totalitarismo, anti-ódio e anti-parvos #CharlieHebdo)

Cabu tinha 75 anos e colaborava com o semanário satírico desde os anos 1970. Começou a sua carreia em 1954 no diário regional L’Unios de Reims, mas rapidamente ficou conhecido pelo trabalho que criou durante a guerra francesa na Argélia. Nos anos 1980, desenhou capas de álbuns de música. Durante a sua carreira, publicou quatro livros que compilavam muitos dos seus melhores trabalhos.