frase

“Não são estas situações que vão condicionar os árbitros.” Nem pode ser. Quem o disse foi José Fontela Gomes, presidente da Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol (APAF), depois de João Capela, enquanto estava sentado à mesa de um restaurante, no Funchal, ter sido alvo de “ameaças à integridade física”.

As ameaças vieram de adeptos do FC Porto e apareceram na noite anterior à derrota da equipa diante do Marítimo, na partida em que o tal árbitro esteve presente. Este ou outro resultado nunca seriam impedidos por alguém achar que resultaria ameaçar o homem do apito.

Tudo quiçá motivado pela expulsão de dois jogadores portistas a meio da semana, em Braga, no empate (1-1) com os minhotos para a Taça da Liga — fonte do Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol, aliás, avançou à Lusa que a residência de Cosme Machado, árbitro desse encontro, também foi vandalizado. Assim não. Nunca serão as ameaças ou pressões a apagaram algo que sempre foi e será inato ao homem — errar. Mesmo que esse tenha sido, ou não, o caso. O que importa é a maneira como todos (adeptos, jogadores, dirigentes, árbitros e clubes) lidam com os erros que acontecem.

desilusão

É uma questão de matemática e de, a partir dela, chegar às probabilidades. Quando se olha para uma tabela, ordenada de um a 18, por ordem decrescente e dependente nos pontos, pensa-se logo: quem está mais em cima será melhor de quem está em baixo. É lógico. Mas nem sempre a lógica equivale a ser melhor. Esta jornada provou-o: só uma entre as oito primeiras equipas da liga conseguiu vencer quem estava mais atrás nesta corrida.

Quem vestia de encarnado saiu de Lisboa e viajou até Paços de Ferreira para acertar nos ferros, falhar um penálti e não inventar maneiras suficientes para abrir espaços numa equipa organizada, sim, mas inferior na tabela. Perdeu quando uma vitória chegaria para chegar aos nove pontos de vantagem na liderança do campeonato. “Ficámos ansiosos por termos de ganhar”, admitiu Jorge Jesus, no final. E tinham de o fazer porque, antes, os azuis e brancos do Porto, antes, foram à Madeira para serem incapazes de bater um Marítimo que, na semana anterior, perdera (4-0) com o líder do campeonato. Perderam.

Paços de Ferreira vs Benfica

Qualquer treinador e jogador de equipa grande sabe, mesmo antes de a época arrancar, que a aptidão com mais urgência de aprimorar é a de desmontar adversários que se fecham em copas. Os que abdicam de ter a bola, unem-se em torno da área, fecham linhas de passes e juntam jogadores numa fortaleza. Não é novidade. Notícia é quando o Benfica ou o FC Porto, além de não conseguirem domar essas fortalezas, se deixam bater por elas. Jorge Jesus, melhor do que ninguém (vai na sexta época a treinar o clube da Luz): “Era um jogo em que, se não ganhássemos, não poderíamos perder.”

Algo que também aconteceu ao Braga, no relvado sintético do Boavista. Depois houve um Vitória de Guimarães, que em casa se deixou empatar por um Gil Vicente que só tem uma vitória no campeonato. Um Rio Ave que muito tem prometido e crescido, mas foi a Setúbal ser atropelado (4-1) por um Vitória acabadinho de trocar de treinador e que apenas conseguira uma vitória nas últimas oito partidas na liga. Desilusão. Por fim o Belenenses, cujo nulo caseiro diante do Penafiel lhe deu o sétimo jogo sem marcar golos nos últimos oito que teve para o campeonato.

Apenas uma equipa fez o que dela se esperava — o Sporting.

destaque

Foram os primeiros, no topo, a pisarem o relvado. Apenas tinham uma certeza: era obrigatório ganhar, colher três pontos e não apagar do horizonte o título que o presidente impusera como objetivo no arranque da temporada. Custou, durou até ao último quarto de hora, mas lá apareceu o golo (o sexto na época) de João Mário que deu a vitória à equipa.

A vitória encurtou para um e sete pontos as distâncias da perseguição do Sporting a dragões e encarnados. A manter-se assim, a ganhar os jogos que lhe vão aparecendo, a equipa apenas depende de si para, pelo menos, agarrar o segundo lugar (ainda vai jogar ao Dragão), e encurtar ainda mais a desvantagem para o Benfica (que visita Alvalade daqui a duas jornadas, a 8 de fevereiro).

De repente, esse tornou-se talvez no jogo da época para os leões, que terão inflacionado a motivação com a derrota que viram o Benfica sofrer em Paços de Ferreira  há dez temporadas que o Sporting não ganhava três pontos aos dois rivais, na mesma jornada. Outro momento de viragem poderá acontecer em Setúbal. O Vitória trocara de treinador, Bruno Ribeiro nem tempo teve para descolar a equipa de algo que fosse dos tempos de Domingos Paciência, mas ainda assim venceu o Rio Ave, uma das melhores equipas do campeonato.

Quem já virou foi o Estoril, que desde 1 de novembro apenas sofreu uma derrota (em Alvalade) e aproveitou a jornada perdedora dos oito primeiros para dar um pulo e aterrar no oitavo lugar. Perto do que fez com Marco Silva nas duas temporadas anteriores (quinto posto). Os destaques, talvez os maiores, ficam com o Paços de Ferreira e o Marítimo.

Armaram-se em anfitriões e, os primeiros, souberam manter-se organizados, coesos e sem ousadias maiores do que a perna. Esperaram, foram pacientes, tiveram sorte (sim, também) e um penálti apareceu no final. Já os segundos mostraram que aprenderam com os erros. Leonel Pontes terá passado a semana a atinar a equipa a defender e a explicar aos laterais como fechar junto aos centrais e tapar os espaços — algo que nunca tinham feito no 4-0 sofrido com o Benfica — e os madeirenses foram bem mais seguros. E eficazes, pois marcaram no único remate que acertaram na baliza.

resultados

Vitória de Guimarães 2-2 Gil Vicente
Sporting 1-0 Académica
Vitória de Setúbal 4-1 Rio Ave
Belenenses 0-0 Penafiel
Moreirense 2-3 Nacional da Madeira
Estoril Praia 1-0 Arouca
Marítimo 1-0 FC Porto
Boavista 1-0 Sporting de Braga
Paços de Ferreira 1-0 Benfica

O Nacional da Madeira foi a única equipa da jornada a conseguir viajar e roubar uma vitória em casa alheia. O Boavista é que se vai aguentando dentro de portas — chegou à quinta vitória no Bessa, casa coberta por uma relva sintética que é a melhor arma para bater os visitantes. Longe dali, a equipa treinada por Petit ainda só conseguiu vencer um jogo.