A Comissão Nacional do PS aprovou este sábado a possibilidade de os cargos políticos públicos disputados pelo partido, como autarcas e deputados, serem escolhidos através de eleições primárias abertas a simpatizantes. Mas, por enquanto, é só uma possibilidade. Nada é obrigatório para já. Para Álvaro Beleza, que é um dos maiores defensores da medida inicialmente proposta por José António Seguro, a decisão ficou aquém das expectativas: “não se deu um passo definitivo em frente”.

“Foi uma proposta que o secretário-geral apresentou e aprovou no Congresso, foi hoje (sábado) ratificada pelos comissários nacionais, é um passo em frente na democracia interna do PS, a consagração da possibilidade da generalização de eleições primárias para todos os cargos públicos em Portugal a que o PS se predispõe a disputar”, afirmou a líder da federação de Setúbal, Ana Catarina Mendes, aos jornalistas.

Para o comissário nacional Álvaro Beleza, que na direção de António José Seguro foi o grande impulsionador das eleições primárias para secretário-geral, o passo em frente não foi grande o suficiente, por não ter sido imposta a obrigatoriedade.

“O meu receio é que tudo fique na mesma e acho que era altura de o partido definitivamente introduzir esse regulamento de tornar obrigatório eleições primárias, pelo menos para uma parte dos deputados”, disse aos jornalistas à saída da reunião do órgão máximo entre congressos do partido, que decorreu este sábado em Setúbal.

Para Beleza, os tempos são de “abertura” e o partido não deve ter “medo da participação”, disse, recordando o elevado número de simpatizantes que participaram na escolha do candidato socialista a primeiro-ministro no final de setembro. Mas para isso é preciso “audácia e coragem”, disse o dirigente socialista, que apontou mesmo um dos motivos que faz com que o aparelho do partido “tenha receio de abrir as portas para tudo, especialmente para as autárquicas”: o dinheiro envolvido, nomeadamente na escolha dos candidatos autárquicos.

“As pessoas têm receio de partilhar poder. Também há o argumento de que nas eleições autárquicas podem as questões do dinheiro ter uma influência maior e grandes empresários eventualmente terem uma maior participação. Mas isso há fórmulas, nomeadamente no financiamento dos partidos, em que se torne o financiamento dos partidos exclusivamente público”, disse.

Álvaro Beleza disse ter a certeza que o secretário-geral, António Costa, “acredita no virtuosismo das primárias”, mas disse estar ciente, até por ter pertencido a uma direção, “da dificuldade que é para uma direção impor algumas ideias de partilha de poder ao próprio partido”. “Os portugueses são muito conservadores e têm medo da mudança, mas o PS tem que ser progressista e pela mudança. É esse o papel dos líderes e eu confio que António Costa assim o fará”, declarou.

A proposta de incluir as primárias nos estatutos do partido, tornando-as facultativas, foi aprovada com um voto contra (de Álvaro Beleza) e duas abstenções.