As negociações entre gregos e restantes parceiros europeus foram, como é sabido, bastante difíceis: a tensão foi uma constante desde o primeiro dia e as conversações estiveram mesmo a um pequeno passo de caírem por terra. À terceira reunião, no entanto, – depois de duas completamente infrutíferas – Grécia e Eurogrupo chegaram a um acordo que definiu a extensão do empréstimo a Atenas por mais quatro meses. Mas tudo poderia ter sido diferente não fosse a mão pesada de Jeroen Dijsselbloem, ministro das Finanças holandês e presidente do Eurogrupo, que, em entrevista ao Financial Times, revelou como teve de encostar Yanis Varoufakis à parede para levar as negociações a bom porto.

O presidente do Eurogrupo contou (e confirmou) o estranho caso da carta enviada por Varoufakis a Bruxelas. Depois de nas primeiras conversações terem sido acertados alguns pontos fundamentais, o documento então assinado pelo grego e enviado para o Eurogrupo rompia por completo com o que tinha sido discutido. Surpreendido, Jeroen Dijsselbloem telefonou a Tsipras: “Telefonei a Tsipras e disse ‘olha, eu não sei o que aconteceu, mas vocês enviaram-me uma carta diferente. Tsipras ficou supreendido. ‘Como é possível?’ Ele confirmou. Alguém tinha alterado [a carta]”.

Na altura, o jornal alemão Bild garantia, citando fontes governamentais alemãs, que o envio de uma segunda versão da carta tinha sido um “erro administrativo” do Governo grego. Este sempre negou a existência dessa tal carta. Mas a verdade é que este foi apenas um dos muitos episódios que marcaram as negociações entre gregos e parceiros europeus.

Depois de cinco dias de difíceis conversações – algumas presencialmente, outras por email e telefone – Grécia e Eurogrupo chegaram a um acordo, só possível porque os gregos apagaram uma das principais linhas vermelhas que desde o início tinham traçado, isto é, aceitaram cumprir as condições de reforma existentes no programa de assistência previamente acordado, como conta o Financial Times.

Todavia, Jeroen Dijsselbloem confessou que foram reuniões muito tensas e que a relação com Varoufakis nunca foi a melhor. Quanto às notícias que davam conta que os dois terão chegado quase a vias de facto, o holandês negou por completo que tal fosse verdade. “Às vezes as pessoas zangam-se, [mas essas notícias] são lixo. De facto, eu tive de conduzi-lo no sentido de encontrar uma solução, esse é o meu trabalho. Eu também tive de conduzir outros ministros, que também são bastante difíceis e teimosos (…)”, revelou o presidente do Eurogrupo.

Aliás, os problemas começaram ainda antes de o Syriza ter vencido as eleições, sublinhou Dijsselbloem. “Houve muitos políticos de toda a Europa que basicamente interferiram, dando conselhos ao eleitorado grego sobre em quem votar, o que penso que não ter sido correto. Nós não tínhamos muito tempo, tínhamos de começar a trabalhar com eles e eu quis enviar o sinal: ‘Aceito-os completamente como novos parceiros; vamos começar as conversações'”.

Apesar do começo difícil, em parte motivado pelo discurso duro do recém-eleito Governo grego, o tom começou a tornar-se menos crispado à medida que os sinais da crise económica na Grécia começaram a surgir – como a fuga massiva de depósitos dos bancos gregos. “Esse foi o maior catalisador [para as negociações]” e forçou os gregos a procurarem uma solução mais rápida, explicou o presidente do Eurogrupo.

Ainda assim, o caminho para o acordo continuou tortuoso. Um dos episódios mais tensos aconteceu na segunda reunião em Bruxelas – Varoufakis abandonou mesmo a mesa das negociações, acusando o holandês de ter deitado por terra um acordo estabelecido entre a Grécia e o comissário europeu para a Economia, Pierre Moscovici.

“Os gregos achavam que tinham conseguido um acordo. [Mas] eu não estive envolvido, [pelo que] não foi muito inteligente [da parte deles]. Se queres alcançar um acordo com o Eurogrupo, informar-me sobre o que estás a tentar fazer pode ser uma ajuda”, defendeu Dijsselbloem, que acusou também a Comissão Europeia de ter agido nas suas costas.

Varoufakis fora da equação

Depois do revés, o presidente do Eurogrupo fez chegar à mesa das negociações a sua própria proposta, com os termos e condições que a Grécia deveria aceitar se quisesse conseguir um acordo com o Eurogrupo. O que Jeroen Dijsselbloem não estava à espera era que o documento fosse imediatamente divulgado por vários órgãos de comunicação social. Dijsselbloem culpa, obviamente, Varoufakis:

“Quando estás num processo tão delicado, a tentar reconstruir a confiança, a tentar conduzir o processo e depois… entras na sala de imprensa e dizes: “Oh, estes tipos não são de confiança, vejam o que eles estão a tentar empurrar pela nossa garganta abaixo’. Isso não ajuda muito”.

O impasse mantinha-se e, por isso, o chefe do Eurogrupo decidiu mudar a estratégia: na terceira e última reunião, todos os principais intervenientes na discussão foram convocados para estarem presentes: a troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional), juntamente com gregos e alemães.

O presidente do Eurogrupo contou também que houve uma pré-reunião com cada uma das partes para acertar agulhas, mas Varoufakis não foi ouvido: Dijsselbloem falou diretamente com Alexis Tsipras. “Não vi Varoufakis toda a manhã. Não falei com ele sequer”. Varoufakis tinha sido afastado.

Depois de horas de conversações com o Tsipras e Schäuble, o presidente do Eurogrupo desenhou um acordo, garantido ao primeiro-ministro grego que não cederia nem mais um centímetro. “Disse a Tispras, este [acordo] tem de servir. E acho que, 15 minutos depois, ele [Tsipras] ligou-me de volta, e não havia mais nenhuma palavra para alterar. Foi isso”, rematou Dijsselbloem.

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