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Primeiro as reformas estruturais, só depois o investimento. Foi esta a mensagem que tanto o vice-presidente da Comissão Europeia Jyrki Katainen, como Carlos Moedas, comissário europeu para a Investigação, Inovação e Ciência quiseram transmitir esta segunda-feira no Roadshow do Plano de Investimento para a Europa, que teve lugar na Universidade Católica, em Lisboa, e depois na fundação Calouste Gulbenkian. O finlandês chegou mesmo a pedir “por favor” ao primeiro-ministro Pedro Passos Coelho para que continue com o plano de reformas. E tanto Carlos Moedas, agora afastado da política nacional, nem o ministro da Economia, mais tarde, recusaram a ideia de que o Governo teria perdido o ímpeto reformista com as eleições no horizonte.

“Uma mensagem que quero passar ao primeiro-ministro [Pedro Passos Coelho] é que por favor continue com as reformas estruturais que realmente aumentem a competitividade”, disse aos jornalistas o vice-presidente comunitário, que é também Comissário para o Emprego, Crescimento, Investimento e Competitividade. Katainen desdobrou-se, de resto, em elogios à postura de Portugal, que “teve muito sucesso na recuperação da confiança” dos consumidores e investidores adotando “políticas decisivas”. O foco, disse, deve manter-se na competitividade e na qualificação das pessoas, sem nunca perder de vista as reformas estruturais.

“Agora que o crescimento económico voltou, há boas oportunidades para atrair investimento privado, e haverá certamente mais oportunidades de trabalho. Agora o futuro [de Portugal] é muito mais brilhante do que há 2 anos. Estou otimista que pela via do investimento privado a situação financeira irá melhorar”, disse o vice-presidente comunitário, acrescentando que para isso é preciso “corrigir primeiro as bases da economia antes de voltar a gastar”.

A ideia voltou a ser reforçada na conferência que decorre esta tarde na fundação Calouste Gulbenkian, dedicada ao tema “Relançar o Investimento em Portugal”, onde Jyrki Katainen, voltou a sublinhar a “necessidade de Portugal continuar o caminho das reformas estruturais e de responsabilidade fiscal” para poder ver o investimento privado crescer. “Ninguém investe se a confiança económica não estivem em bons níveis”, sintetizou.

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Também o comissário português Carlos Moeda deixou elogios às reformas estruturais, não só ao nível de Portugal como dos restantes países da UE, destacando o facto de serem essenciais para que o programa de investimento possa funcionar. “As reformas que estamos a fazer são essenciais para que o investimento funcione, estarmos a pôr mais dinheiro sem ter as reformas feitas nos diferentes países da União, não vai dar os resultados que esperamos”, destacou. E deixou um recado aos Governos nacionais: “os políticos não devem ser julgados pela quantidade, mas pela qualidade dos investimentos”, disse.

Durante a sessão de promoção do Plano Juncker, na Universidade Católica, onde vários alunos daquela Universidade e do Instituto Superior Técnico (IST) fizeram breves apresentações de projetos de start-ups reconhecidas internacionalmente – e que levaram o dirigente comunitário finlandês a dizer que eram “do melhor que se fazia na Europa” -, o diretor do IST chegou a deixar duras críticas ao atual Governo devido aos recentes cortes que fez nas bolsas de investigação. Mas Carlos Moedas relativizou a questão, preferindo lembrar que, no espaço de quatro meses, já teve o “prazer” de telefonar a 15 pessoas em Portugal para dizer que tiveram acesso a bolsas do Centro Europeu de Investigação, avaliadas entre 1,5 milhões a 2 milhões de euros e que, disse, “mudam a vida de um investigador”.

O chamado ímpeto reformista português, segundo Moedas, não será posto em causa por causa das eleições que se aproximam. “Trata-se de democracia, é tudo normal”, limitou-se a dizer o agora comissário europeu, recusando-se a comentar política interna portuguesa. Também o ministro da Economia, António Pires de Lima, que falou aos jornalistas à margem da sua intervenção na conferência sobre Investimento, rejeitou essa ideia, dizendo que o ímpeto reformista está mais firme do que nunca, dando o exemplo das privatizações que estão em curso. “O governo tem sido até muito criticado por não ceder às tentações mais populistas e eleitoralistas”, atirou.

“Não sei se Portugal está disposto a contribuir diretamente para o Fundo”

Sobre o plano de investimento que está em curso, o chamado Plano Juncker, o comissário finlandês limitou-se a dizer que vai assentar no investimento do setor privado, que será “essencial” para “minimizar os esforços dos contribuintes”, recusando-se a adiantar que tipo de projetos portugueses têm sido apresentados como candidatos aos fundos comunitários de investimento de alto risco.

Quanto à contribuição, direta ou não, que o Estado português pode vir a dar para o Fundo, à semelhança do que fizeram outros países como a Alemanha, França e Itália, que já contribuíram com oito mil milhões de euros cada, Katainen foi cauteloso, e não adiantou nada de novo. Afirmou que “não sabe” se Portugal, enquanto país fragilizado pela crise e programa de ajustamento, “está disposto” a contribuir diretamente para o Fundo (Espanha, por exemplo, contribuiu com 1,5 mil milhões), preferindo sublinhar que o “mais importante é que o setor privado em Portugal perceba as novas oportunidades” que pode ter. É que, como o novo Fundo pressupõe apoiar projetos “de alto risco”, o vice-presidente da Comissão afirma que Portugal pode ter aqui uma grande oportunidade para “investir em setores mais diversos, como a investigação científica”.

Carlos Moedas quis ainda deixar um recado às empresas portuguesas, pedindo para que estejam preparadas para concorrer num ambiente que vai ser “do mais alto nível”. Sobre o momento em que as empresas portuguesas vão poder começar a sentir os efeitos do plano europeu de investimento, o ministro da Economia, António Pires de Lima, aponta uma meta para os primeiros sinais: “meados de 2015”.