Depois do terror, surgem as histórias de sobrevivência. Fruto da sorte ou de uma boa dose de sangue frio.

Os terroristas do al-Shabab mataram 148 pessoas. Não foram 149 porque Cynthia Cheroitich conseguiu esconder-se a tempo dos terroristas. Em declarações à CNN, contou que assim que ouviu os primeiros tiros, saiu do quarto e perguntou “o que é que está a acontecer?”. Não demorou muito até voltar a esconder-se no quarto. Primeiro, foi para debaixo da cama, enquanto ouvia lá de fora os homens do al-Shabab a dizer “quem está dentro, quem está escondido debaixo da cama, que saia depressa”.

Muitos dos estudantes, possivelmente por acharem que se cumprissem as ordens dos sequestradores poderiam ficar em segurança, obedeceram à ordem. Cynthia teve outro entendimento. Fechou-se no armário, tapou-se com as roupas que lá estavam e só saiu de lá dois dias depois.

Dentro do móvel, Cynthia ouviu os terroristas a dizerem “aqueles que não conseguem ler as palavras do Islão, deitem-se no chão. Aqueles que sabem, vão para o outro lado”. De seguida, mataram com um tiro na nuca os cristãos e também alguns muçulmanos.

Cynthia ouviu cada tiro com os olhos fechados debaixo da pilha de roupas que a escondia. “Fiquei de olhos fechados. Não queria abrir os olhos, só queria fechá-los naquela altura.”

Até que, mais de 50 horas depois, apareceram polícias quenianos no quarto. O perigo já tinha passado há quase dois dias após os terroristas terem sido abatidos, mas Cynthia não tinha como sabê-lo. Por isso, quando os agentes abriram as portas do armário onde ela se escondia e lhe disseram que podia sair em segurança, Cynthia desconfiou. “Como é que posso saber se vocês são da polícia do Quénia?”, perguntou-lhes. Só acreditou quando apareceu o reitor da universidade. “Este é o teu professor, agora já estás segura”, disseram-lhe. “Dá graças a Deus por estares segura neste momento.”

Também há relatos de estudantes que se sujaram com o sangue dos colegas já mortos, para que assim os terroristas pensassem já não estavam vivos. Outros conseguiram fugir para dentro da mesquita do campus universitário, onde alguns do alunos muçulmanos de Garissa cumpriam a oração matinal, às 5h30.