O al-Shabab nunca tinha feito tantos mortos. No dia em que este grupo terrorista da Somália tomou de assalto a Universidade de Garissa, no sul do Quénia, morreram ao todo 148 pessoas. O ataque causou ainda 104 feridos, dos quais 19 estão estado grave.

Tudo começou quando quatro homens armados entraram nos dormitórios. Eram cerca das 5h30 da manhã e a maior parte dos estudantes ainda estaria a dormir. Muitos deles partiriam nessa manhã até às suas terras, para poderem celebrar a Páscoa com a família. Os únicos que estavam acordados eram os muçulmanos, que cumpriam naquela altura a oração matinal. Segundo dados oficiais, 78% dos quenianos são cristãos e 10% são muçulmanos.

Segundo o “The New York Times” o silêncio daquela noite foi quebrado com os terroristas a gritarem “se querem sobreviver, saiam dos quartos!” e a outra hipótese, “Se querem morrer, não saiam!”.

148 mortos depois, sabe-se que era uma armadilha. Muitos daqueles que saíram foram executados com um tiro na nuca. Alguns deles foram obrigados pelos terroristas a ligarem aos pais para explicarem que o ataque se devia à intervenção militar queniana na Somália de 2011. Os homens da al-Shabab demonstraram uma preferência por matar cristãos. Os muçulmanos foram poupados ao massacre.

As autoridades quenianas estão a oferecer quase 200 mil euros a quem encontrar Mohamed Mohamud, líder da al-Shabab e presumível cérebro deste ataque.

O que é o al-Shabab?

O al-Shabab é um grupo terrorista islamista que controla cerca de um terço da Somália. Traduzido do árabe para português, o seu nome significa “a juventude”.

A Somália, cuja capital é Mogadíscio, está sem um governo efetivo desde 1991. Foi nesse ano que vários grupos armados se juntaram para derrubarem o Presidente Siad Barre, cuja ditadura durou 22 anos. Desde o golpe de Estado que a Somália é disputada por fações distintas num clima de guerra civil constante. O al-Shabab é um deles e tem sido até agora o mais violento de todos.

Segundo a revista norte-americana “Council on Foreign Relations”, o al-Shabab ganhou força a partir de 2006. Naquela altura, o governo de transição somali pediu ao exército da Etiópia, que faz fronteira a Noroeste, que invadisse o seu país e ajudasse a expulsar da capital o Conselho Supremo das Cortes Islâmicas (CSCI), do qual o al-Shabab fazia parte. A operação militar teve sucesso: o CSCI perdeu força e a sua “ala jovem” teve de se instalar no Sul da Somália. Mas foi precisamente quando estes pareciam ter ficado feridos de morte que ganharam uma nova vida.

Mais radicalizado do que antes, o al-Shabab começou a lançar ataques às tropas etíopes a partir das suas novas coordenadas. O número de tropas subiu de 400 para mais de mil até 2008. Em 2012, aliaram-se à Al Qaeda. Hoje, calcula-se que tenha entre 7 a 9 mil militares nas suas fileiras.

Segundo o Bureau of Investigative Journalism (BIJ), os EUA fizeram entre nove e 13 ataques de drone (aviões militares não-tripulados) desde 2007 direcionados contra o al-Shabab. O número de vítimas entre os terroristas é incerto, variando entre os 23 e os 105, segundo o mesmo site.

Pelo meio, foi criada a Missão da União Africana para a Somália (MUAS), cujo objetivo é pacificar a Somália e ao mesmo tempo impedir que os problemas sentidos naquele país se alastrem aos seus vizinhos. O Uganda é o país com maior participação neste esforço, tendo destacado 6220 militares. Depois segue-se o Burundi (5338), Etiópia (4395), Quénia (3664), Djibuti (1000) e Serra Leoa (800).

E foi precisamente por ajudar neste esforço para combater o terrorismo na Somália que o Quénia tem sido um dos alvos principais da al-Shabab.

Ataque no centro comercial Westgate

Até ao massacre de 2 de abril na Universidade de Garissa, o maior ataque do al-Shabab em solo queniano passou-se no centro comercial Westgate, no dia 21 de setembro de 2013. À semelhança daquilo que aconteceu na quinta-feira

Antes do massacre de 2 de abril na Universidade de Garissa, o maior ataque do al-Shabab em solo queniano passou-se em setembro de 2013. Durante mais de 48 horas, quatro homens entraram no centro comercial Westgate em Nairobi, capital do Quénia, e começaram a disparar sobre as pessoas que encontraram pela frente. Tal como na quinta-feira, o ataque foi reivindicado pelo al-Shabab, que atribuiu a causa do ato à presença militar queniana na Somália.

Morreram ao todo 67 pessoas neste ataque que foi gravado pelas câmaras de segurança no local.

(Aviso: este vídeo contém imagens que podem ser consideradas chocantes)

O primeiro ataque terrorista em grande escala da al-Shabab fora da Somália ocorreu na capital do Uganda, Kampala, no ano de 2010. O ataque consistiu numa série de explosões provocadas por bombistas suicidas enquanto um grupo de pessoas assistia à final do mundial de futebol, na África do Sul. Morreram 74 pessoas.