O que se pode dizer a uma mãe cujo filho foi assassinado pelo próprio pai? Ou a um pai que tenha perdido uma criança por um crime da mãe? Ou ainda aos irmãos, tios, avós e primos da criança morta? As respostas a estas perguntas variam de caso para caso, mas geralmente envolvem um longo processo, com vários obstáculos, do qual nem toda a gente sai completamente recuperada.

O importante é “perceber que a vida continua”, diz Bruno Brito, coordenador da Rede de Apoio a Familiares e Amigos das Vítimas de Homicídio, uma estrutura criada pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) no início de 2013. O nome da rede diz tudo: o objetivo é ajudar quem sofre a superar o impacto da morte criminosa de um ente querido. Uma dor que é ainda maior tratando-se de um filho. “É uma fase de choque muito intensa e não estamos a falar de uma recuperação nem fácil nem rápida, nem completa”, diz o psicólogo.

Na quarta-feira passada, João Barradas terá assassinado o filho de alguns meses a golpes de faca em Linda-a-Velha, no concelho de Oeiras. Para já, a polícia está convencida de que o homem ligou à mãe da criança a avisá-la do que ia fazer e que foi para impedir uma eventual separação do casal que João cometeu um ato tão extremo.

Nestas situações, explica Bruno Brito ao Observador, “uma pessoa nunca retoma a normalidade”, pelo que o objetivo dos psicólogos é conseguir que a experiência traumática se torne numa experiência de crescimento. “Que a situação seja isolada, trabalhada de forma a que seja processada e não fique como fantasma”, precisa. Isto não significa que o crime seja esquecido, mas que a pessoa traumatizada perceba “que é possível ter um amanhã”.

O luto dificultado pela justiça

As notícias de pais ou mães que matam os filhos provocam sempre choque e grande cobertura noticiosa, sobretudo quando há pormenores macabros envolvidos. Mas o filicídio está longe de ser um crime frequente em Portugal, tal como não o é o homicídio de crianças. Nos cinco anos que decorreram entre 2006 e 2011, foram 55 as crianças que morreram às mãos dos progenitores, segundo mostram os dados oficiais mais recentes. Ou seja, uma média de 11 crianças por ano.

São vários os casos que, nos últimos tempos, estiveram debaixo do holofote mediático, sobretudo pela forma como alguns assassinatos foram perpetrados. Em dezembro de 2012, uma mãe trancou os dois filhos e ateou fogo à casa; em junho de 2003, os pais de Tiago deixaram-no morrer de sede; em setembro de 2004, Joana Cipriano desapareceu sem deixar rasto, havendo a suspeita de que o seu corpo terá sido dado a comer a porcos pela mãe e por um tio; em agosto de 2014, Leonor foi mergulhada em água a ferver pelo padrasto.

Para quem fica, depois do choque imediato, há a dor do processo judicial. Se, num primeiro momento, a pessoa precisa de “primeiros socorros psicológicos”, explica Bruno Brito, depois é necessário fazer a chamada “gestão de contexto”, ou seja, “como estão a ser planeados os dias a seguir ao crime”. Isto pode passar por coisas tão simples como perceber qual é a estrutura familiar e social da pessoa afetada ou por ajudá-la a tratar de burocracia e da preparação das cerimónias fúnebres. Segue-se a violência de um julgamento.

“O luto ainda fica mais agravado com esta exposição”, refere o especialista, que diz que a pessoa em trauma passa por uma “revivência da situação”, o que pode durar mais de um ano, consoante os ritmos da justiça. No fim, porém, há uma compensação. “O processo, quando se conclui, é muito terapêutico”.

Mas cada caso é diferente e “não se pode determinar um padrão”, uma vez que as motivações de cada homicida são diferentes e a resposta dos familiares e amigos das vítimas também não são iguais, Bruno afirma que o apoio da APAV “facilmente” dura mais do que um ano e nem sempre se cinge à ajuda psicológica. “Apesar de a APAV não dar apoio pecuniário direto, pode dar encaminhamento, apoio jurídico”.

É por isso que cada pessoa que chega à APAV – geralmente pela mão da Polícia Judiciária – tem um elemento dedicado apenas à parte psicológica da ajuda e um outro, o gestor de caso, que pode fazer a ponte para outro tipo de acompanhamento, jurídico ou social. A rede, que desde o início de 2013 já ajudou mais de 200 pessoas que perderam familiares ou amigos em homicídios, conta com 30 colaboradores, incluindo voluntários, e pretende expandir-se brevemente.

“Tivemos alguma experiência onde houve crianças envolvidas”, admite Bruno, sem contudo querer precisar os casos, para proteger a privacidade das pessoas envolvidas. Os dois anos que já tem desta experiência permitiram-lhe perceber que há “coerência com o processo em tribunal”. Ou seja, condenado o culpado, o apoio da APAV tende a acabar gradualmente. “É um processo lento, longo…” E a vida daquelas pessoas pode nunca mais ser a mesma.