A reforma do setor da água, anunciada na quinta-feira pelo Governo, agradou aos municípios do interior, que vão beneficiar de uma redução de três euros nos preços, mas recebeu críticas fortes por parte dos do litoral, que vão ver um aumento gradual. Numa entrevista divulgada esta segunda-feira pelo Diário Económico e a Antena 1, o ministro do Ambiente e Ordenamento do Território admitiu que as alterações irão prejudicar a “grande maioria da população” e que, por isso, reforma “é tudo menos popular”. Pelo caminho, Jorge Moreira da Silva criticou a “arrogância” de autarcas e gestores.

“É fácil gerir alguns sistemas no litoral, difícil mesmo é conseguir compatibilizar os ganhos de eficiência com a coesão territorial. Julgo que esta fusão é tudo menos popular. Não tenho ilusões. Há uma larguíssima maioria da população que enfrentará aumentos nas tarifas”, disse o ministro, explicando que os custos são atualmente superiores no interior porque a “infra-estruturação é mais cara e o número de cliente é mais reduzido”.

Em função dessas diferenças, e perante as críticas que alguns autarcas já fizeram saber de que a reforma é mais um passo rumo à “cada vez menor autonomia do poder local”, como disse o presidente da câmara de Leiria, Moreira da Silva respondeu de volta, acusando os “alguns autarcas” do litoral, assim como “alguns gestores”, de “arrogância” e “sobranceria inaceitável em relação ao interior”.

Questionado sobre o “eleitoralismo” da medida, uma vez que aponta para uma descida imediata nos preços no interior do país e um aumento gradual no litoral, que subirá mais rapidamente após as eleições, Moreira da Silva rejeitou a ideia de que o Governo tinha pensado nas eleições e falou em “custo político”. “Temos um setor que não é sustentável e não acho possível que se possa encarar um diagnóstico deste tipo sem assumir os custos políticos das reformas que são realizadas”, disse.

Para o Governo, a reforma anunciada, que passa pelo emagrecimento do grupo Águas de Portugal com uma fusão de 19 empresas em apenas cinco entidades, assenta na ideia de que, por um lado, “o setor da água não é sustentável” e, por outro, a privatização não era hipótese. Por isso, a fusão foi vista como a solução possível.

Questionado sobre a injustiça de as câmaras cumpridoras terem de contribuir para as não cumpridoras, Jorge Moreira da Silva desvalorizou o critério, contrapondo com o facto de, no caso da eletricidade e do gás canalizado, as tarifas serem iguais em todo o território. “Por que razão na água se deve perenizar uma solução que é termos no litoral custos na água três vezes inferiores aos do interior? É preferível, mais do que repartir os custos no final do dia, fundir as empresas”, defendeu.