Título: Mirleos
Autor: João Miguel Fernandes Jorge
Editora: Relógio de Água
Páginas: 128
Preço: 15,00€

mirleos

No seu conto “A Queda no Maelström”, Edgar Allan Poe conta a história de dois homens que se metem ao mar e o seu barco é engolido por um vórtice. Enquanto um dos irmãos se tenta salvar agarrando-se a alguma coisa inteira, o outro deixa-se cair no abismo e abre os olhos para ver o interior do vórtice. É então que percebe que tudo perdeu a forma inicial, tudo se transformou em destroços, mas que esses pedaços sem forma compõem agora maravilhosas e excêntricas figuras, coisas nunca vistas. Talvez porque foi mais corajoso, este homem salva-se e aprende que a parte mais forte, mais sólida, dos corpos são afinal os seus fragmentos. Aqueles que sobrevivem à catástrofe e se transformam.

Vem isto a propósito da obra do poeta João Miguel Fernandes Jorge, toda ela assente nos fragmentos, nas memórias, nos pedaços de experiências que cruzam tempos antiquíssimos com existências contemporâneas, onde o corpo é um lugar constante de perda mas também de metamorfose, onde os milénios, as diferentes épocas históricas e culturais, se cruzam para construir uma paisagem de maravilhosas ruínas, de vestígios de coisas incertas que é também uma das mais belas paisagens da poesia portuguesa contemporânea.

Mirleos, estranha palavra (significando aqui “maravilhosas ruínas”), acabou de sair na Relógio d’Água, e é, como tantos outros livros de João Miguel Fernandes Jorge, uma composição a partir de obras de arte. Neste caso, o livro ergue-se a partir das ruínas do Forum romano em Coimbra, sobre as quais se reconstruiu, no século XI, a igreja de S.João, e que hoje fazem parte do Museu Nacional Machado de Castro.

Desengane-se quem pensar que estes poemas são meras descrições pomposas das obras de arte. Pelo contrário, eles são antes de tudo um testemunho não dos objectos em si mas dos vestígios neles contidos. A poesia árida e exacta de Fernandes Jorge é sempre um confronto com as obras, sejam elas estátuas, túmulos, arcadas, quadros, portas ou pedras informes. Pelas palavras o poeta vai descobrir-lhes biografias, belezas secretas, cheiros, memórias que ligam a vida dos santos, dos mártires à vida do poeta, homem de hoje, que ligam as ruas romanas às ruas da cidade de agora, percorridas por estudantes, vizinhas e cafés.

b Criptopórtico Delfim Ferreira

Uma das inspirações de “Mirleos”: Criptopórtico de 40-50 d.C., Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra. Fotografia de Delfim Ferreira, Arquivo DGPC/ADF

Em Mirleos, como na obra poética de Fernandes Jorge em geral, o fragmento não é apenas o tema mas está presente na própria estrutura do poema, no inacabamento sintáctico dos versos, na descontinuidade abrupta da narrativa, na intersecção entre diferentes espaços e tempos. E, ao contrário de poetas do romantismo alemão do século XIX (onde JMFG, vai tantas vezes beber), como Novalis e Schlegel, aqui os fragmentos não são a nostalgia de uma totalidade perdida. Em João Miguel Fernandes Jorge, há uma hiperconsciência da brevidade da vida, da perda, da impossibilidade de atingir o absoluto que faz do fragmento a única totalidade possível. Como se a ruína, sendo o destino de todos os corpos, fosse também a sua maior proximidade com o sublime.

Assim escreve JMFJ (pág. 49) sobre um calcário de 30-40 d.C:

Retrato de Agripina-A-Antiga

Querem os traços da minha face? Aqui, no
exílio da pequena ilha enterrei o chão intacto
da memória — as noites nas areias de um palmar
pelas margens do Oraontes;
e a cidade, Antioquia, nos banhos
gentios, gregos, judeus
— a sabedoria, montículo de velhas ruínas que visitava.

O meu retrato? Agora, suspeito que não passa de
um sepulcro sem nome
todavia a face tem ainda majestade e a paixão de
um ramo de bagas vermelhas o regaço
um espinho rasga-me a pele
no rubro de pétalas, em íntima mistura se transluz
com o lustro e a cor do lacre
nesse vaso que contém as minhas cinzas.

O meu retrato? As ervas do verão, espigas
secas cresceram ao redor.
Trouxe-o para a beira do mar da ilha. Caranguejos
sobem pelo meu lado, enegrecem a gratidão dos
olhos, prendem-se-me à raiz dos cabelos; perfumam-
-me de maresia. Da vida espero o mesmo que
da poesia da morte – depósito de restos, arqueologia.

Das ruínas recriadas, re(a)presentadas através dos poemas de João Miguel Fernandes Jorge, diríamos que ainda não estão petrificadas, ainda são habitadas, reversíveis. Vivem num Outrora que é o Agora e vice-versa e isto só é possível através de dois mecanismos magistralmente usados pelo poeta: a memória e a linguagem.

Ora, esta memória não é um mero “contar de uma vivência pessoal”, algo muito em voga na poesia que se vai fazendo por estes dias em Portugal. Esta memória é rememoração, ou seja, é uma vivência que se transformou em experiência, que deixou se ser efémera mas se alojou na carne, na alma, se tornou um lugar onde incessantemente se volta, como muito bem explica João Barrento a propósito da poesia de Paul Celan. Por isso, João Miguel Fernandes Jorge usa a memória para ligar tempos, lugares e corpos distantes. A memória é aquilo que permite chegar ao verdadeiro conhecimento e que perante a devastação e a morte permite reconstruir a vida e, ao religar fragmentos dispersos, a poesia estará talvez a contrariar a morte.

As palavras deste poeta são, como já escrevemos anteriormente, exactas. O autor nunca cai na tagarelice, na verborreia supérflua nem na exibição de erudição. Todas as referências a poetas, mitos, obras de arte, cinema são muito subtis. Estão lá como pequenos tesouros à espera do leitor que os saiba encontrar.

A poética de Fernandes Jorge mostra um trabalho fino e preciso sobre as palavras, pois como o alemão Novalis ele sabe que cada palavra é uma espécie “de cavalo de Tróia”: lá dentro estão muitas outras palavras, imagens, conceitos, que é preciso desvendar. Por isso, os seus livros são também lugares onde se deve voltar muitas vezes para resgatar todos os muitos significados que os habitam. Já em 1989 JMFJ escrevia assim sobre outro poeta, Ruy Belo:

“ As palavras erguem-se, multiplicam-se, conversam entre si mesmas no silêncio do tão pouco mundo que ainda temos (…) elas surgem na mais secreta casa da nossa casa, como alguém amado, mais amado que nós próprios.”

João Miguel Fernandes Jorge, Mirleos,

João Miguel Fernandes Jorge usa a arte e a memória para ligar tempos e lugares distantes

Talvez por conhecer bem o interior das palavras é que a metonímia é uma das figuras recorrentes na poesia de Fernandes Jorge, porque ela permite-lhe fazer ligações de sentido semântico e etimológico e tornar o poema mais concentrado, mais denso mas mais depurado. Ou, como sobre ele escreveu Joaquim Manuel Magalhães, “a sua palavra situa-se na contiguidade com o indizível”. Embora dele nunca possamos dizer que é hermético, pois a sua escrita tem sempre uma forte carga comunicativa, ainda que subtil, como se nele houvesse sempre um pudor da palavra, no sentido que pudor não significa “vergonha”, como se tornou vulgar pensar-se, mas sim “cuidado”.

Caminhando entre as ruínas e as obras milenares do Museu Machado de Castro, JMFJ deixa, como sempre, um espaço vazio para que o leitor — aquele que encontra o poema “nas praias do coração” (Paul Celan) — possa também ele projectar as suas memórias, os seus fantasmas, as experiências do seu corpo no corpo das figuras de tinta, calcário, mármore que estão na origem destes poemas.

É o próprio JMFJ quem o escreve na nota final ao quinto volume da Obra Poética (Presença, 1996): “Resta-te, leitor, a estranheza da dúvida, que talvez seja, quem sabe, o melhor da sua leitura.”

Um poeta muito discreto

João Miguel Fernandes Jorge nasceu em 1943 no Bombarral, onde actualmente vive. Foi professor de Estética na Escola Superior de Cinema e, para além de uma vasta obra poética que começou em 1971 com o livro Sob Sobre a Voz, na extinta Moraes, e se prolonga até hoje, tem também uma vasta produção ensaística sobre artes plásticas, que começou em 1974. O autor escreveu sobre artistas tão díspares como Bartolomeu Cid dos Santos, Jorge Molder, Pedro Capalez, Rui Chafes, entre outros. É irmão de André Jorge, o mítico editor da Cotovia, chancela à qual também esteve ligado até 1991. A obra completa de JMFG está publicada em vários volumes na editorial Presença, na Relógio d’Água, na Cotovia e em muitos catálogos de artistas plásticos e exposições. Há ainda a revista literária As Escadas não têm Degraus, feita em conjunto com o poeta Joaquim Manuel Magalhães e com Manuel Feijó, que foi publicada pela Cotovia.

Bastante conhecido dentro do meio artístico e dos poetas mais velhos é, no entanto, mais ou menos ignorado pelas novas gerações. Poucos lhe reclamam inspiração ou herança e ele não parece importar-se. Não é um eremita de culto como foi Herberto Helder, mas é um homem discreto. Escusou-se a ser entrevistado pelo Observador a propósito deste livro e não há, de resto, muitas entrevistas por onde possamos seguir-lhe o rasto. Mas também não parece haver muito interesse dos jornais em saberem mais sobre o seu trabalho poético. E, no entanto, ele tem uma singularíssima obra, marcada tanto pelo constante diálogo com outras obras e artistas, outros tempos e lugares, como pela profunda hibridização entre palavras e imagens, verbal e visual.

Eis o que ele escreve no final do primeiro volume da sua Obra Poética: “Agora quero lembrar ainda Aristóteles, quando nos diz que é impossível pensar sem recorrer à imagem. Imagens, fantasmas são os que são estes poemas. Imagens que estão a passar, acabaram de passar, irão passar; ou não sabemos se alguma vez, sequer, existiram; mas sempre imagem, coisa manifesta.”

Não sendo uma bela rapariga, ou habituée dos media e dos festivais literários, afastado das mundanidades do meio artístico, é contudo um assíduo frequentador das mitologias, da literatura, das cidades do mundo, a avaliar pela cultura sólida que perpassa na sua escrita. E é aí que o devemos urgentemente encontrar, sob pena de estarmos a passar ao lado de uma grande, grande poesia. Poesia difícil, é certo, porque o difícil não é nunca um adjectivo pejorativo mas tão só um convite ao combate. Voltando a Edgar Allan Poe, a obra de João Miguel Fernandes Jorge pede-nos para abrirmos os olhos dentro do vórtice, pois só assim podemos ter o deslumbramento de olhar e ver.