É um ponto final numa guerra de mais de dez anos entre o Governo britânico e o jornal The Guardian. Um conjunto de cartas, até aqui secretas, escritas pelo Príncipe Carlos e endereçadas a governantes britânicos, foram finalmente tornadas públicas. E as revelações não são simpáticas para a monarquia, deixando a descoberto o lobby da família real e a proximidade com o poder Executivo. Entre 2004 e 2005, o Príncipe Carlos trocou frequentemente correspondência com vários ministros onde opinava sobre várias questões e vias de ação, nomeadamente sobre os setores das forças armadas, agricultura e arquitetura.

Entre os governantes encontra-se precisamente o ex-primeiro-ministro Tony Blair e vários ministros do seu Executivo.

O conteúdo das cartas foi divulgado esta tarde depois de o Guardian ter vencido, em tribunal, uma batalha legal com o Governo, que já se arrastava há mais de 10 anos. O argumento do Governo era sempre de que a divulgação da correspondência poderia pôr o príncipe numa situação em que depois seria difícil de manter, aos olhos da população, a imparcialidade da monarquia quando se tornasse rei.

São ao todo 27 documentos, entre missivas do herdeiro ao trono e respostas do Governo, escritos e enviados entre setembro de 2004 e abril de 2005 não só para o primeiro-ministro, como também para os responsáveis pelas pastas da Saúde, Educação, Ambiente, Cultura e até da Irlanda do Norte. As cartas eram mantidas à margem da comunicação social mas o jornalista Rob Evans, do Guardian, alegou interesse público e invocou a lei da liberdade de imprensa para pedir o acesso.

A decisão do Supremo Tribunal deu razão ao jornalista, depois de o Governo ter gasto mais de 400 mil libras (mais de 550 mil euros) em custos judiciais.

Na troca de correspondência, que a imprensa britânica agora divulga na íntegra, pode ler-se como o Príncipe Carlos fez lobby junto do então primeiro-ministro Tony Blair, nomeadamente para substituir os helicópteros militares Lynx, ou para aumentar o orçamento da Defesa para dar “os recursos adequados para as forças armadas” combaterem no Iraque, apenas 18 meses depois da invasão.

Ou ainda como o príncipe se queixou ao chefe do Governo pelos “crescentes problemas” que afetavam o setor leiteiro no país devido à intervenção da entidade reguladora – o Organismo do Comércio Justo, segundo Carlos, era um “obstáculo sério” ao desenvolvimento das corporativas leiteiras.

Numa das cartas, é o próprio Tony Blair que pergunta diretamente ao herdeiro da coroa o que queria que ele fizesse a respeito do uso de plantas medicinais no país, que a comunidade científica criticava, noutra lê-se uma crítica dura do príncipe à proposta do Governo de combate à tuberculose bovina, onde diz que não consegue perceber como é que o “lobby dos texugos” faz com que se prefira optar pelo massacre de milhares de cabeças de gado caro e opor-se a um “abate controlado de uma superpopulação de texugos”. “Para mim isso é intelectualmente desonesto”, dizia Carlos a Blair.