É uma prova portuguesa, com certeza! É com certeza uma prova portuguesa! Lido não soa ao mesmo, mas, enquanto lê, imagine o ritmo da canção de Amália Rodrigues, cantarole um pouco e vai reparar que a letra improvisada até funciona. Há muitas desculpas para manipular os versos que a cantora inventou para o fado e, pelos vistos, a Liga Europa serve para ser uma delas. Não que a competição seja invenção portuguesa, longe disso. Mas se a prova tem várias costelas, então muitas delas são, para já, bem lusitanas. Porquê? É para isso que cá estamos e assim começamos a explicar — nas seis épocas que leva contadas, apenas uma final da Liga Europa não teve portugueses.

A final que se realiza esta quarta-feira em Varsóvia (19h45) ainda não pôs a bola a rolar, mas é quase certo que levará uns pontapés de pés portugueses. Do lado do Sevilha, que pela segunda vez na história chega a duas finais seguidas, está Daniel Carriço, titular dos titulares na equipa espanhola. A acompanhar o recordista de jogos na Liga Europa — isso mesmo, o ex-Sporting já vai com 47 jogos feitos na competição — vão estar Beto, guarda-redes que a época passada tramou o Benfica nos penáltis, e Diogo Figueiras, lateral direito. Se estes não bastassem, no Dnipro ainda há Bruno Gama, com quem o Observador até conversou antes da final.

Dos quatro portugueses será feito, em parte, este jogo. Porque três estão no meio de uma equipa que repete, pela quarta vez, a presença na final (o Sevilha já o conseguira em 2006, 2007 e 2014) e o restante está na que se estreia (Dnipro) nestas andanças. Quem fala espanhol tem uma equipa organizada como poucas e matreira o suficiente para dominar o jogo pela bola, ou pelo contra-ataque. E depois tem craques como Carlos Bacca, Kevin Gameiro ou Ever Banega. Quem vem da Ucrânia traz o rótulo de surpresa. O Dnipro é uma equipa durinha, que tem cinco dos seis jogadores com mais cartões na competição. E tem também o que mais faltas sofreu — Ieven Konoplianka, o extremo em quem todos confiam e que, a par de Ruslan Rotan, o capitão ambidestro que marca livres com os dois pés, é um dos craques da equipa ucraniana.

É nisto que, ano a ano, a Liga Europa muda: nos protagonistas. Porque há algo que nos últimos seis anos não se alterou — a presença portuguesa na decisão da competição. Tudo começou em 2009/2010, na temporada de estreia da prova que substituiu, no nome e no formato, a Taça UEFA. A primeira edição da Liga Europa teve o Atlético de Madrid como vencedor, o Fulham como vencido e Simão Sabrosa como um dos conquistadores da taça. O português foi titular e aguentou-se até aos 68 minutos dessa final. Na época seguinte, em 2010/2011 viu-se a decisão mais portuguesa de sempre: FC Porto e Sporting de Braga foram a Dublin e os dragões de lá voltaram com um dos três canecos que conquistaram com André Villas-Boas a treiná-los.

Depois, em 2011/2012, a final não tem nenhum pé português. Mas calma: no Atlético de Madrid, que a volta a ganhar, só não joga Tiago porque o médio é expulso na partida da segunda mão das meias-finais, frente ao Valência. E Sílvio, que não aparece em campo porque Diego Simeone não o convoca. E na decisão da prova só não está uma equipa portuguesa pois o Sporting não consegue ultrapassar o Athletic Bilbao nas “meias”. Daí para cá, os tempos são bastante portugueses. Em 2012/2013 o Benfica vai a Amesterdão jogar a final com o Chelsea e uma cabeçada de Branislav Ivanovic faz um dois-em-um: tira o prolongamento das barbas dos encarnados e dá-lhes uma derrota. Em 2013/2014 o clube da Luz regressa à final, desta vez em Turim, onde o jogo com o Sevilha dura até aos penáltis e Beto e Daniel Carriço acabam a sorrir.

Moral da história: das cinco finais já realizadas, apenas uma não teve um português a jogar e, aí, a culpa foi de um cartão vermelho. Por isso não é mentira nenhuma escrever que, nos últimos seis anos, a Liga Europa teve sempre uma costela portuguesa. Até a última edição da Taça UEFA a teve — em 2008/2009, quando o Werder Bremen foi à final perder com o Shakthar Donetsk, não teve Hugo Almeida em campo devido a um cartão amarelo maroto que o avançado viu nas meias-finais. “Acho que são mais coincidências, mas claro que é verdade. É sempre bom para Portugal ter jogadores nas finais”, resumiu Bruno Gama, que vai estar com o Dnipro na final desta quarta-feira, quando o Observador lhe falou do assunto.

A pegada portuguesa não se fica por aqui, porque até hoje não há uma Liga Europa que não tenha sido conquistada por um português. Sim, em 2013, quando o Chelsea tramou os encarnados, Paulo Ferreira (não saiu do banco) e Hilário (ficou a ver da bancada) estavam lá para a festa. Também não será esta temporada que a costela se parte, pois quer seja o Sevilha ou o Dnipro, haverá sempre um português a levantar o caneco em Varsóvia. Por isso, perguntamos: tinha, ou não, razão a tal verso manipulado da cantiga escrita por Amália Rodrigues? Nós continuamos a achar que sim.