Foi a bomba da noite de quarta-feira, com os estilhaços a espalharem-se pela madrugada de quinta. Jorge Jesus será o treinador do Sporting para a temporada 2015/2016. O técnico bicampeão pelo Benfica não chegou a acordo com Luís Filipe Vieira para a renovação do contrato que o liga ao clube da Luz, e Bruno de Carvalho chegou-se à frente, garantido a contratação do técnico graças a investimentos de Angola e da Guiné Equatorial.

O Observador tentou obter reações, quer por parte de Jorge Jesus, quer por parte do Sporting e do Benfica, mas não foi possível chegar à fala com qualquer deles. Os únicos dados recolhidos permitem apenas avançar que se tratará um contrato com a duração de três anos, que custará seis milhões de euros brutos por época (o salário base é superior a três milhões), um valor nunca antes pago em Portugal. No Benfica, Jesus recebia quatro milhões/ano. O treinador terá ainda um prémio de assinatura na ordem dos cinco milhões de euros.

A notícia da contratação de Jesus pelo Sporting foi inicialmente avançada pelo Diário de Notícias (DN) e depressa chegou aos restantes meios de comunicação social. De acordo com a notícia do DN, Jesus vai estrear-se oficialmente pelos leões frente à equipa que treinou nas últimas cinco temporadas, e logo a doer, na Supertaça Cândido de Oliveira.

A apresentação deverá acontecer na tarde desta quinta-feira, dia 4, em Alvalade.

A notícia não era contudo, novidade nos bastidores de Alvalade. O Observador sabe que um ex-administrador da SAD sportinguista, e homem próximo e da confiança de Bruno de Carvalho, já tinha garantido nas últimas horas que Jorge Jesus iria mesmo substituir Marco Silva, ainda que os pormenores do contrato só tenham sido negociadas noite dentro, num hotel de Lisboa. A mesma fonte garantiu que o ordenado de Jesus será suportado por novos investidores do Sporting, vindos da Guiné Equatorial e de Angola. E além disso, conta com o apoio financeiro do empresário angolano Álvaro Sobrinho (ex-BES e ex-BES Angola), que é accionista da SAD sportinguista (tem 30%) e detém parte de passes de alguns jogadores.

Além do ordenado de Jesus, será também necessário que o Sporting ofereça ao técnico jogadores de qualidade para reforçar o plantel. O que vai tornar a necessidade de investimento ainda maior. Jesus terá falado em pelo menos quatro jogadores.

À segunda foi de vez e o leão regressou a casa

Jesus é desejado pelo Sporting há muito tempo. O treinador nunca escondeu o seu sportinguismo, foi formado no Sporting (jogou nos juniores e estreou-se mesmo pelo leões como sénior) e tem uma herança familiar ligada ao clube — o pai integrou o plantel dos Cinco Violinos.

Mas nunca foi possível chegar a acordo: Godinho Lopes teve-o como trunfo eleitoral — Jesus apresentou-lhe mesmo a lista de jogadores que pretenderia –, mas o ida para Alvalade acabou por não se concretizar e o técnico, em fim de contrato com o Benfica, renovou pelos encarnados.

Este ano, com a possibilidade de permanência de Marco Silva em Alvalade a ser praticamente nula (as últimas informações davam conta de “mensagens polémicas” trocadas entre técnico e o presidente, o que teria levado à rutura total de relações entre os dois), o Sporting voltou a insistir no treinador do Benfica, que terá afirmado junto de muitos dirigentes encarnados que o seu ciclo tinha terminado na Luz.

A saída inevitável do Benfica

A ideia seria Jorge Jesus deixar o Benfica pela porta grande em direção a um dos clubes top da Europa, intermediado pelo empresário Jorge Mendes. E tudo com o aval de Luís Filipe Vieira, que já escolheu o seu sucessor: Rui Vitória, atual treinador do Vitória de Guimarães. O presidente encarnado não só não quis satisfazer as pretensões financeiras para a renovação de Jesus, como começou a considerar exagerado o protagonismo do técnico. O Benfica já era mais Jesus que Luís Filipe Vieira.

Sem hipóteses em relação ao Real Madrid (Rafa Benítez até já foi apresentado) ou ao Barcelona, o Nápoles foi uma possibilidade, mas não interessou a Jesus. Os milhões árabes também não o seduziram, já que prefere o prestígio dos grandes clubes aos petrodólares. Equacionou-se também a oportunidade de substituir Villas-Boas no Zenit, da Rússia, pois o treinador português, campeão naquele país, pensou regressar a Inglaterra devido ao nascimento de um filho. Mas os rublos convenceram-no a ficar e também essa saída se gorou para Jesus. Com tantas idas e não idas, saídas e não saídas, o Sporting teve tempo para procurar o dinheiro necessário à contratação.

Os contactos mantêm-se há dois meses. E Jesus esteve sempre receptivo a ouvir-los. Sentia-se a ser empurrado da Luz. Sentiu que andavam a arranjar-lhe um clube à força. Não gostou. Recusou mesmo idas ao estrangeiro para negociações. Ao sair para o rival da Segunda Circular, pode deixar Vieira em maus lençóis: é que o Benfica tem eleições para o ano.

E a cláusula de Marco Silva?

O Sporting fica, entretanto, com um problema em mãos: a rescisão de Marco Silva é muito cara (há quem fale em 12 milhões de euros). Mas também é verdade que o ex-Estoril pode fazer “um desconto” para vir a treinar em Portugal (Marco no FC Porto em 2016/17?), já que a cláusula de rescisão o impede de orientar clubes portugueses por três anos.

As notícias e rumores dos últimos dias (incluindo as tais mensagens de telefone enviadas por Marco Silva para Bruno de Carvalho que comprometeriam o técnico) não seriam mais que uma forma de pressionar o treinador. A ideia era que saísse por sua vontade, aceitando assim um valor muito inferior ao que estará contratualmente estabelecido.

Mas a vitória na Taça de Portugal, conseguida numa reviravolta épica, terá dado uma nova força negocial ao treinador, que está nas boas-graças dos adeptos.