O ex-secretário de Estado Paulo Campos não se recandidatará a deputado pelo PS por motivos “profissionais”, elogiou fortemente Ferro Rodrigues e José Sócrates e criticou “abusos dos poderes” executivo ou judicial.

“Depois de quatro anos na Assembleia da República a servir a causa pública, retomarei no fim da legislatura a minha atividade profissional e, entre outros, dedicar-me-ei à execução de projetos que promovem o desenvolvimento da minha região, o interior-centro do país”, declarou o ex-secretário de Estado das Obras Públicas dos dois executivos liderados por José Sócrates (2005/2011).

Nas últimas eleições legislativas, em junho de 2011, Paulo Campos, filho do dirigente histórico socialista António Campos, foi cabeça de lista pelo PS no círculo eleitoral da Guarda.

Em relação ao seu percurso político desde 2005, Paulo Campos destacou o ex-primeiro-ministro José Sócrates e o atual presidente do Grupo Parlamentar do PS, Ferro Rodrigues.

“Agradeço ao José Sócrates (que liderou o último Governo socialista) e ao Eduardo Ferro Rodrigues (que lidera a bancada do meu partido) toda a cooperação e excelência profissional que demonstraram. Sim, são personalidades diferentes, mas têm algo em comum: Nenhum deles vira a cara à luta quando está em causa o PS e Portugal”, salienta.

Sobre a atual situação política, Paulo Campos deixou vários avisos: “Uma das principais preocupações para qualquer democracia é a existência de abusos de poder, quer sejam abusos dos mais fortes, abusos do poder executivo, do poder judicial ou de qualquer outro”.

“O PS, como sempre o fez, deve ser o partido que está na primeira linha do combate a esses abusos. O fortalecimento da democracia e da sua qualidade passa sempre pela valorização adequada do contrapoder e dos instrumentos que permitam evitar o abuso pelos poderes instalados”, advertiu.

Interrogado se sai do parlamento por ser considerado ‘socrático’, o deputado socialista contrapôs que a tradição no PS “sempre foi de grande democraticidade interna”.

“Para mim, será impensável que tal situação possa ocorrer no PS. A minha decisão nada tem a ver com essas matérias, mas apenas com questões pessoais”, disse.

Questionado sobre a ideia de que os ‘socráticos’ estarão politicamente queimados no PS, Paulo Campos respondeu: “Nem imagino o que se pretende dizer” com isso.

“Nesta legislatura, designadamente nos primeiros três anos [período de liderança de António José Seguro], o PS nem sempre fez aquilo que deveria ter feito para combater a narrativa da direita – narrativa que ainda hoje condiciona toda a sociedade portuguesa. Infelizmente, durante muito tempo, o contraditório a essa narrativa não existiu. Manter-me-ei sempre em defesa dos valores do PS e daquilo que honra o PS, nomeadamente as governações de Mário Soares, António Guterres e José Sócrates”, frisou.

O ex-secretário de Estado socialista também se demarcou dos deputados que prometeram assumir os respetivos mandatos em exclusividade na Assembleia da República, mas não cumpriram.

“Foram quatro anos de uma grande luta, da qual saio com plena satisfação pelo trabalho desenvolvido, pelos combates travados e pelo reconhecimento feito por este Governo que, ao fundir a Estradas de Portugal com a Refer – para com os lucros gerados no setor rodoviário viabilizar o setor ferroviário -, prestou a melhor homenagem à política que desenvolvemos”, defendeu.

Paulo Campos sustentou depois que “o funcionamento da Assembleia pode e deve melhorar, nomeadamente tendo maior democraticidade, menos instrumentalização pelas maiorias e maior aproximação entre eleitos e eleitores”.

“O papel das minorias deve ser valorizado de forma a permitir uma adequada fiscalização do poder executivo. Ao contrário do que o que se verificou, nomeadamente em todas as comissões de inquérito, que foram instrumentalizadas para branquear as responsabilidades do Governo, ou para construir narrativas ao sabor da sua conveniência política”, acrescentou.