Ao longo de uma semana, o Observador publicou os concertos de música e os espetáculos para os quais vale a pena comprar bilhete, o cinema e as séries de televisão que não deve deixar fugir, os discos que vão sair em breve e os livros de leitura imperdível. Este é o apanhado da sétima arte.

Já não faz sentido falar em “rentrée” do cinema em Portugal, desde que os exibidores deixaram de reservar o verão para a reposição de filmes e começaram a seguir o modelo norte-americano de continuar a estrear durante o período estival, abrindo espaço às superproduções de verão, agora “época alta” para o cinema. Seja como for, os meses de setembro e outubro estão bem fornecidos de estreias, e o bom cinema não estará só nas salas comerciais. Também há ciclos na Cinemateca e três festivais em Lisboa. Um deles é novo e dois já têm nome e estão integrados nos circuitos internacionais. A estes, juntamos dez sugestões de estreias, seleccionadas entre as muitas dos próximos 60 dias.

1. Ciclo ‘Christopher Lee-O Príncipe das Trevas’

Sir Christopher Lee, que morreu no passado mês de junho, era uma das últimas lendas vivas do cinema, e do terror. Na sua quilométrica e farta carreira, foi o único actor que interpretou Drácula, Frankenstein, a Múmia, Sherlock Holmes e Fu Manchu, foi vilão de James Bond e entrou nas séries de filmes “Guerra das Estrelas”, “O Senhor dos Anéis” e “O Hobbit”.  A Cinemateca está a dedicar-lhe um grande ciclo até ao final deste mês. Na programação, alguns dos filmes mais conhecidos de Lee, caso de “O Horror de Drácula”, de Terence Fisher, que o lançou e tornaria num dos gigantes do cinema de terror e fantástico, mas também outros mais discretos e curiosidades como “Umbracle”, do realizador vanguardista catalão Pere Portabella.

2. Festival MOTELx

Na sua 9ª edição (8 a 13 de setembro), o Festival Internacional de Cinema de Terror vai passar, nas suas várias secções, filmes como “The Visit”, o regresso de M. Night Shyamalan ao género que o celebrizou, “Knock Knock”, de Eli Roth, com Keanu Reeves, “I Am Here”, de Anders Morgenthaler, com Kim Basinger, “Cop Car”, de Jon Watts, com Kevin Bacon, “Everly”, de Joe Lynch, com Salma Hayek, o documentário de David Gregory “Lost Soul: The Doomed Journey of Richard Stanley’s Island of Doctor Moreau”, sobre a rodagem de pesadelo de “A Ilha do Dr. Moreau”, ou ainda “Burying the Ex”, de Joe Dante, “Extinction”, de Miguel Ángel Vivas, e “Ghost Theater”, de Hideo Nakata. Roger Corman é o homenageado deste ano, embora não possa vir a Portugal.

3. Festa do Cinema Chinês

É a grande novidade deste ano e vai decorrer no Cinema Ideal (dias 10 a 16) e na Cinemateca (dias 17 a 30). No Ideal, são exibidos doze filmes chineses contemporâneos, entre eles “Se as Montanhas se Afastam”, de Jia Zhang-ke (a abrir o certame), “A Assassina”, de Hou Hsiao-Hsien (prémio de Melhor Realizador em Cannes) “A Tomada da Montanha do Tigre”, de Tsui Hark, ou “Hotel Novo Dragão”, de Raymond Lee. Já na Cinemateca passam uma retrospectiva de 10 filmes do cineasta Xie Jin (1923-2008), uma dos mais destacados nomes da cinematografia da China, com uma carreira de 60 anos, iniciada ainda antes da revolução comunista, e mais uma dezena de fitas rodadas entre os anos 30 e 90, de nomes como Mu Fei, Chen Kaige ou Zhang Yimou.

4. DocLisboa

O programa completo do 13º DocLisboa (22 de outubro a 1 de novembro) ainda não foi anunciado, mas os espectadores – e os apreciadores de cinema documental em especial – já podem contar com uma retrospectiva dedicada ao terrorismo, intitulada “I don’t throw bombs, I make films. Terrorismo. Representação”, e composta por 19 filmes, entre os quais “Elephant”, de Alan Clarke, “Underground”, de Emile de Antonio, Mary Lampson e Haskell Wexler, ou “United Red Army”, de Kôji Wakamatsu; e outra dedicada ao realizador sérvio Zelimir Zilnik, o primeiro a filmar a desintegração da Jugoslávia na sequência da queda do Muro de Berlim e do fim do comunismo no Leste.

5. “A Visita” (M. Night Shyamalan)

Já há uns bons anos que M. Night Shyamalan não faz um filme à altura daqueles que, em finais do século passado e no início deste, o tornaram no nome mais falado do cinema fantástico e de terror. Depois de ter produzido a série de televisão “Wayward Pines” e realizado o primeiro episódio, Shyamalan está de volta ao cinema, e ao género sobrenatural, através desta fita rodada em regime independente, na zona onde habita, com um orçamento curto e actores desconhecidos. Dois miúdos são deixados pelos pais em casa dos avós, que não conheciam, e descobrem que estes não são o que parecem. E sim, o final tem surpresa. Estreia: 10 de setembro

6. “Homem Irracional” (Woody Allen)

Woody Allen é o único realizador americano que pode começar um filme com uma das personagens principais a citar Kant e levar a sua avante, como sucede em “Homem Irracional”, que começa por ser uma comédia romântico-existencial e depois se transforma num policial filosofante. Isto embora o seu protagonista, Joaquin Phoenix, um professor de filosofia na mó de baixo anímica e física, diga nas aulas: “A maior parte da Filosofia não passa de masturbação verbal”. Após “Magia ao Luar”, Emma Stone é repetente neste filme, que tem pontos de contacto com “Crimes e Escapadelas” e “Match Point”. Estreia: 17 de setembro

7. “Life” (Anton Corbijn)

Em 1955, o fotógrafo Dennis Stock, da agência Magnum, foi encarregue de fotografar James Dean, antes da estreia de “A Leste do Paraíso”, para a revista “Life”. São dele algumas das mais célebres fotos de Dean, caminhando numa Nova Iorque invernosa. Stock e o actor ficaram amigos e viajaram juntos durante alguns dias pelos EUA. O novo filme de Anton Corbijn, também ele fotógrafo, é um drama biográfico baseado nessa amizade entre Stock e James Dean, interpretados, respectivamente, por Robert Pattinson e por Dane DeHaan, um jovem actor em rápida ascensão em Hollywood. Também com Ben Kingsley no papel de Jack Warner. Estreia: 24 de setembro

8. “Perdido em Marte” (Ridley Scott)

Matt Damon interpreta um botânico e astronauta da NASA em missão em Marte, que é deixado para trás e dado por morto pelo resto da sua equipa, depois de uma violenta tempestade na superfície do planeta. O astronauta tem de conseguir comunicar à Terra que está vivo, e manter-se assim enquanto não regressam para o salvar – dentro de quatro anos. Quase com 80 anos, Ridley Scott continua a filmar com uma impressionante regularidade, regressando à ficção científica neste “Perdido em Marte”, adaptação do livro de Andy Weir. O elenco inclui ainda Jessica Chastain, Kate Mara, Sean Bean, Chiwetel Ejiofor e Jeff Daniels Estreia: 1 de outubro

9. “Uma Nova Amiga” (François Ozon)

O francês François Ozon é outro cineasta que filma com grande regularidade, e a sua nova realização, “Uma Nova Amiga”, adapta à tela um livro da autora inglesa Ruth Rendell, falecida no passado mês de maio. Depois da morte de Laura, a sua melhor amiga, Claire entra em depressão. Um dia, descobre que o viúvo, David, gosta de se vestir de mulher. Claire interroga-se: será que ele o faz por sentir a falta da falecida e a julga mais próxima ao usar as roupas desta, ou já o fazia quando ela estava viva? E começa a investigar. Este drama psicológico com tintas policiais é interpretado por Anais Demoustier, Romain Duris e Isild Le Besco. Estreia: 1 de outubro

10. “O Desafio” (Robert Zemeckis)

No dia 7 de agosto de 1974, em Nova Iorque, o equilibrista francês Philippe Petit, caminhou num arame, e sem permissão das autoridades, de uma das torres gémeas do World Trade Center para a outra. Essa incrível proeza foi recordada no documentário “Homem no Arame”, de James Marsh, em 2008, vencedor do Óscar da respectiva categoria no ano seguinte. Sete anos depois, Robert Zemeckis recria, em 3D, o perigosíssimo feito de Philippe Petit em “O Desafio”, com Joseph-Gordon Levitt no papel do mestre equilibrista. O realizador baseou-se no mesmo livro de Petit que James Marsh usou para o seu documentário. Estreia: 8 de Outubro

11. “A Fossa” (Wang Bing)

O chinês Wang Bing é o mais importante nome do documentarismo do seu país, e um dos gigantes do documentário contemporâneo, embora costume rodar na clandestinidade, sem a devida autorização das entidades político-culturais da China. Em “A Fossa”, filmado em 2010, Bing, que já esteve em Portugal no DocLisboa, adapta o livro de um compatriota que, nos anos 50, esteve preso num dos muitos campos de trabalho forçado do regime comunista de Mao Tse Tung, situado no Deserto de Gobi, mostrando as condições sub-humanas a que estavam submetidos os prisioneiros, que chegaram a recorrer ao canibalismo para sobreviver. Estreia: 15 de Outubro

12. “A Assassina” (Hou Hsiao-Hsien)

O veterano cineasta taiwanês, autor de filmes como “Tempo para Viver e Tempo para Morrer” ou “Flores de Xangai”, assina aqui uma grande aventura de artes marciais em que, pela primeira vez na sua carreira, beneficiou de dinheiro da China (o filme é uma co-produção Taiwan/Hong Kong/China). Passado durante a dinastia Tang, “A Assassina” tem a estrela de Taiwan Qi Chu no papel do título, o de Nie Yinniang, uma assassina profissional que regressa de um exílio de vários anos e reencontra a família, e à qual é ordenado que mate os governantes regionais que desafiam a autoridade do imperador. Estreia: 22 de Outubro

13. “A Colina Vermelha” (Guillermo del Toro)

Mais um filme de terror, agora realizado pelo mexicano Guillermo del Toro, que também o escreveu em parceria com Matthew Robbins (o realizador do magnífico “O Dragão do Lago de Fogo”). Del Toro diz que “A Colina Vermelha”, passado na Inglaterra rural do século XIX, é uma homenagem em regra aos grandes filmes de fantasmas e casas assombradas do cinema fantástico. Mia Wasikowska interpreta uma jovem escritora que se apaixona por um aristocrata (Tom Hiddlestone). Casa com ele e vai viver para o lúgubre e enorme casarão no campo que o marido partilha com a irmã (Jessica Chastain), tornando-se no alvo das forças sobrenaturais que lá habitam. Estreia: 22 de Outubro

14. “Cavaleiro de Copas” (Terrence Malick)

Christian Bale, Cate Blanchett, Antonio Banderas e Natalie Portman encabeçam o elenco do novo filme de Terrence Malick (que entretanto já tem um documentário e mais outra longa-metragem na calha), que foi rodado em 2012 mas passou dois anos em trabalhos de pós-produção, tendo competido este ano no Festival de Berlim. O título da fita refere-se a uma carta de tarot e Bale personifica um argumentista de sucesso em Hollywood, mas que é atormentado pela morte de um dos seus dois irmãos e pelas circunstâncias difíceis em que vive o outro, refugiando-se na companhia de várias mulheres. Estreia: 29 de Outubro