O fecho da Academia Socialista, a rentrée do partido, ficou para o presidente Carlos César que passou por Évora para deixar ataques para fora, mas também com uma mão cheia de avisos para dentro. O mais significativo, tendo em conta a última semana e a tensão que saiu do último Conselho de Estado, foi para aplacar uma eventual onda de críticas socialistas ao Presidente da República. “O PS sabe que tem que, com muita paciência, muita paciência, continuar a procurar e proteger a estabilidade, inclusive no plano institucional e, desde logo, nas relações com outros órgãos de soberania”. Mas a necessidade de o PS manter boas e mais alargadas relações, não fica por Belém.

Foi muito direto numa mensagem que chegou no fim da sua intervenção onde apontou a estabilidade com um “valor de confiança e de credibilidade” de que o PS não pode prescindir nesta fase. Isto ao mesmo tempo que avisava que “não se governa sozinho em parte alguma” e que “é preciso ter consciência disso e ter a humildade suficiente para isso”. César quer a maioria socialista “a continuar a procurar outros contributos, dentro e fora do país, de outros setores de opinião, outros partidos, dos parceiros sociais que importa mobilizar mais ativamente”.

Esta ideia também é associada à discussão do Orçamento do Estado, que vem aí, com César a aconselhar que o PS aproveite “os contributos que achar úteis — mesmo do PSD (ler mais abaixo) — para a governação do país, venham eles de que partidos e entidades vierem. Provaremos assim, para além da maioria parlamentar, a nossa maioridade política“.

“O PS não é o dono do país, nem o único a ter as melhores ideias ou a ter sempre as boas ideias”, afirmou ainda o socialista e um dos conselheiros mais próximo de António Costa. A maioria tem valido ao PS várias acusações de estar fechado sobre si mesmo, vindas da oposição, e César aponta a essa mesma questão, juntando-a aos “muitos riscos” que o país enfrenta nos próximos tempos. É, aliás, neste contexto que também pede a Costa uma “governação atenta a todas as condicionantes externas”.

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“Mais depressa” na saúde e na habitação (e com privados) e “mais profundo” na descentralização

Também passou pelas várias áreas de governação onde ainda deteta carências, caso da saúde e da habitação, onde César disse claramente que o PS “tem de fazer mais e mais depressa, mobilizando também a contribuição decisiva do setor privado“. A discussão público/privado esteve presente nestes dias da Academia Socialista, sobretudo este sábado e precisamente nos painéis onde estiveram os ministro da Saúde e da Habitação. A conclusão de César é que os privados não devem ficar de fora das soluções.

E tocou num dossiê que lhe costuma ser caro, o da descentralização e aqui também com avisos, ao dizer que “o país político não deve temer a descentralização”. “Tenho a perceção que a maioria dos políticos olha para a descentralização como uma manifestação perdulária do poder e desvalorizadora das políticas gerais” e alerta para a imprtância de o PS “assumir de corpo inteiro o país de todas as suas partes” e uma “descentralização política mais profunda do que conseguimos até agora”.

Quando fala no assunto também o relaciona com uma resposta necessária aos “défices democráticos”, bem como também o é o investimento numa maior representatividade e “a agilização de processos de decisão”, para uma proximidade relativamente à administração pública.

E atirou ainda à “precariedade laboral elevada”, vincando que o país está “acima dos padrões europeus” e sentenciando: “Temos de trabalhar este tema”.

Mas César também falou nos “bons resultados” e a este propósito até citou o ex-ministro das Finanças, Mário Centeno, a quem reconhece “integridade intelectual e competência” — o atual governador do Banco de Portugal surgiu recentemente como um nome próximo do PS que pode posicionar-se para futuras corridas eleitorais, nomeadamente as Presidenciais. E isto (também) para dizer que Centeno deu “destaque positivo” à economia portuguesa, face às Europeias, “salientando a mudança estrutural positiva dos últimos anos”.

PSD “salta pocinhas” mas PS deve “aproveitar contributos”

Quanto a críticas para fora, centraram-se — sem surpresa — em Luís Montenegro que lamenta não reconhecer os resultados socialistas e que acusa de ter uma postura de “gritaria” que é “civicamente intraquilizadora”. E mostra, segundo diz César, que “o líder do PSD precisa de mostrar que fala mais alto do que Rui Rio e os restantes líderes da direita, convencido que não se alimenta nem engorda com o que de bom acontece no país e que dá mais jeito vender a imagem de Portugal como se fosse um monte negro de problemas”.

Atribuiu ao PSD o fim dos debates quinzenais, dizendo que o fez porque “a presença mais frequente do primeiro-ministro no Parlamento já provava vezes demais a impreparação da oposição para assuntos do país”. Só não lembrou que isso saiu de um acordo fechado entre o então líder, Rui Rio, e o líder socialista António Costa que nunca gostou do modelo de debates que agora vai regressar.

“A lógica freudiana diz que é impossível enfrentar a realidade o tempo todo sem nenhum mecanismo de fugas, mas há sempre pessoas e políticos que, de tanto as fazerem, perdem o sentido do país real”, disse César apelando à consciência de que “há problemas e bloqueios que ainda afligem as famílias e as empresas”, sinalizando uma necessidade de aproximação entre as duas partes.

Por agora, vai atirando ao PSD “salta pocinhas” que “diz uma coisa num dia, outra no outro, ou uma coisa e o contrário no mesmo dia ou, como na redução de impostos, diz no dia o contrário do que disse no ano anterior ou diz no dia o que tem a certeza que o Governo pretende dizer no dia seguinte”. Ainda assim, César admite que “o PS deve entender que lhe cabe sempre aproveitar os contributos que achar úteis e melhores”, apontando a tal abertura face ao que vier também dos social-democratas.

Acabou a intervenção a olhar para o que aí vem e a dizer que se aproxima “um exigente calendário eleitoral” que só termina em 2026 com as legislativas. Antes, já em poucos dias, disputam-se as eleições da Madeira para onde César previne que qualquer que se seja o resultado (e o do PS deve ser mau), ele não pode ter uma leitura nacional. “Essas eleições não decidem quem deve ser o primeiro-ministro, mas o Presidente do Governo Regional”, sublinhou.

Quanto às Europeias do próximo ano, diz que o PS quer vencer e “tem razões para vencer”. Já as Presidenciais: “A seu tempo, teremos de decidir.”