Já lá vai o tempo em que David Thomson escrevia, a propósito de “O Sexto Sentido”, o filme que revelou M. Night Shyamalan, em 1999, e que, além de aplaudido pela crítica, foi o segundo mais rentável desse anos nos EUA, que o realizador indiano radicado nos EUA representava a esperança de dar alma e coração “a um género, o terror, completamente degradado”. Entretanto, a fórmula dos filmes de Shyamalan, assente e dependente de uma “surpresa” final no enredo, foi-se repetindo, com resultados muito variáveis (e nunca, após “O Sexto Sentido”, tão melhor do que em “A Vila”). Quando o realizador começou a afastar-se da segurança confortável e identificável do seu “habitat”, as coisas foram piorando cada vez mais, como se viu no catastrófico “A Senhora da Água”, onde o próprio Shyamalan também aparecia como actor; no inenarrável “O Último Airbender”; e no insofrível projecto de vaidade familiar de Will Smith, “Depois da Terra” (devo ter sido das poucas pessoas no planeta a ter achado piada a “O Acontecimento”). Chegou-se ao ponto de um engraçadinho ter feito um “site” de “crowdfunding” para angariar dinheiro para mandar o realizador para a escola de cinema.

M.Night Shyamalan e o cinema

Depois de um desvio pela televisão, como produtor executivo e realizador do primeiro episódio da série “Wayward Pines”, já vista em Portugal, M. Night Shyamalan livrou-se “de alguma gordura cinematográfica que tinha acumulado nestes últimos anos”, como disse ao “The New York Times” numa entrevista, e volta a entrar no território do terror com “A Visita”. O filme foi feito em regime de total independência, com actores pouco conhecidos, na Pensilvânia, onde Shyamalan nasceu e vive, e com controlo total da produção por este. O realizador investiu aqui o dinheiro ganho em “Longe da Terra”, reivindicando assim a tutela artística plena que lhe foi negada nos últimos filmes. (Shyamalan não teve direito a “final cut” em “O Último Airbender” e em “Longe da Terra” , e Will Smith e ele pegaram-se valentemente por causa deste último, que teve que ser remontado e acabou por ser renegado pelo actor.)

“Trailer” de “A Visita”

Em “A Visita”, dois irmãos adolescentes, um rapaz e uma rapariga, vão visitar os avós à quinta destes. Os jovens não os conhecem, porque a mãe saiu de casa em conflito aceso com os pais 15 anos antes, e nunca mais tiveram contacto. Lá chegados, os miúdos começam a notar que tanto o avô como a avó se comportam estranhamente, a espaços, mas aceitam as explicações deles: velhice e maleitas desagradáveis e socialmente embaraçosas. Dizer mais sobre o enredo do filme seria revelar o que não se pode, tanto mais que Shayamalan volta a activar a “surpresa” final que o celebrizou.

Entrevista com M. Night Shyamalan

O filme deixa a impressão que o realizador está a tentar adaptar-se aos novos tempos e modos de contar, mas que chegou tarde demais. Por um lado, o formato de “found footage” que a fita adopta (a rapariga quer ser realizadora e leva consigo uma câmara, para fazer um documentário sobre a família – “A Visita” “finge” ser um filme rodado por ela) já foi sugado até ao osso, sobretudo no género de terror, e deu o (pouco) que tinha a dar; pelo outro, ao fazer dos irmãos adolescentes os heróis da fita, além dos seus “narradores”, Shyamalan parece querer conquistar o público dessa faixa etária (um erro que já cometeu em “O Último Airbender”), sem pretender alienar o do terror, correndo o risco de não agradar a nenhum dos dois. Daí também que haja “alívio cómico” a mais no filme, quase sempre a cargo do miúdo mais novo, Tyler, aspirante a “rapper”, e essa bota não joga bem com a perdigota do horror. Há bons momentos de inquietação e sobressaltos em “A Visita”, mas são atenuados no seu impacto pelos sucessivos espirros de comédia – e por duas ou três inconsistências da história. (E era mesmo necessária aquela cena repugnante com a fralda de incontinente do avô?).

Por trás da rodagem

M. Night Shyamalan revelou no Twitter que “A Visita” tem três versões diferentes. Uma que é “terror puro”, outra que é “comédia pura” e esta que se estreia, “algures a meio caminho” entre aquelas duas. Costuma dizer-se que no meio está a virtude, mas isso não se aplica aos filmes de terror. M. Night Shyamalan devia ter escolhido a primeira versão, só com medo e sem comédia. É que assim, “A Visita” ficou a meio caminho de ser um bom filme de terror.