Não foi há tanto tempo assim que Janine Medeira saiu de um supermercado com 60 caixas de douradinhos no saco. Quanto pagou? Absolutamente nada. “A senhora da caixa que passou todos aqueles cupões até ficou com dores no braço…” E como fez para não pagar? Foi tão simples quanto inscrever-se num passatempo da marca dos ditos douradinhos. A tarefa era simples: um comentário e uma partilha numa rede social. E lá ganhou os cupões, Janine.

Mas nem sempre é assim tão fácil. Daniel Mesquita poupa muito dinheiro ao usar de tudo o que é promoção e vales de descontos. E fá-lo em várias lojas. Sim, tem trabalho (e muito) para o conseguir. Quase diariamente, sai de casa para fazer uma ronda (ou “caça”, como lhe chama) pelos supermercados da zona e descortinar que produto está mais barato em cada uma das lojas. A partir daí, organiza as compras que quer fazer.

Tanto Janine como Daniel, ela do Algarve, ele de Santarém, garantem que a poupança que fazem é da ordem dos 75 por cento nas compras lá de casa. Os dois investem tempo na procura e acumulação de vales e promoções. E a verdade é que também tiveram que investir em mais arrumação para tantas compras. É que nem sempre é fácil ter onde guardar dezenas e dezenas de embalagens de gel de banho, ou quantidades desmedidas de comida congelada. Mas ambos acreditam (e juram-no a pés juntos) que todo esse esforço vale a pena.

Janine é casada, mãe de um rapaz de quatro anos e grávida de outro, que chegará no começo de 2016. “Em casa dos meus pais, quando era mais nova, nunca me incutiram esse hábito de poupar nas compras com descontos e com vales. Mas também é verdade que, em mim, essa curiosidade já existia. Na altura, quando os cupões tinham que ser recortados dos produtos, sempre me intrigou como é que se conseguiria pagar menos por um produto, nem que fosse cem escudos a menos, ou trazê-lo gratuitamente, só por causa de um cupão. Quando me casei comecei a usá-los, e muito. Tornou-se um vício. Um vício bom.”

Vive em Ferragudo, uma freguesia com pouco mais de dois mil habitantes no distrito de Faro. No Facebook, Janine, que é professora, e também autora do blogue “Poupadinhos e com vales”, tem quase 214 mil seguidores – na blogosfera, o número de visitas diárias à sua página é superior. E foi no Facebook, precisamente, que começou a partilhar, em meados de 2012, as suas “vitórias”, como lhes chama, de cada vez que conseguia uma poupança, maior ou menor, nas suas compras de supermercado. A transição da rede social para o blogue foi uma necessidade.

“Como tinha muitos amigos, eles mostravam-se curiosos e solicitavam-me conselhos sobre como obter os vales, sobre como e onde utilizá-los. E como a caixa de comentários tinha centenas de perguntas, não me querendo estar sempre a repetir nas respostas, resolvi criar um grupo no Facebook. O grupo era secreto. Mas ao fim de dois dias já tinha duas mil pessoas lá dentro, e eu não conhecia quase ninguém. E estou a falar-lhe de pessoas de todo o país. Fiquei espantadíssima, claro. O passo seguinte foi o de criar o blogue para dar vazão a tantas solicitações”, recorda.

Não é fácil gerir o papel de mãe, de mulher, trabalhar de dia e manter o blogue sempre atualizado. “Quando me perguntam como é que eu consigo, eu costumo dizer que não durmo. E às vezes não durmo mesmo, é verdade. Deito-me sempre muito tarde, e não vou à cama mais do que três ou quatro horas. Quando chego a casa, tarde, da escola, sento-me ao computador para ler os e-mails que recebi enquanto estive fora, e-mails com informação que é útil para os leitores do blogue. E partilho-a. É este o meu dia-a-dia, a rotina que tenho.”

Um “caçador” de descontos que vai ao supermercado fazer “a ronda”

“O Caça Promoções”. É assim que Daniel Mesquita se apresenta, e é assim que se chama o blogue que criou em meados de 2012. Seguem-no quase 113 mil leitores no Facebook – e são outros tantos os que diariamente o visitam no blogue. Hoje com 38 anos, casado e pai de duas meninas, de sete e 11 anos, Daniel voltou-se para a blogosfera quando empresa de contabilidade na qual trabalhava, em Santarém, fechou portas.

Daniel faz — às vezes quase diariamente – o que chama de “caça” nos supermercados. E nem sempre o faz para ir às compras. “Ao início, fazer todos estes cálculos para poupar, usa-se um cartão daqui, um vale de acolá, e tudo isso, para quem não sabe o quão simples é, dá a ideia de ser extremamente difícil. Não é nada. Como é que eu faço? É simples. Primeiro, apercebo-me de quais são os sítios onde é mais barato ir comprar um determinado produto. E apercebo-me disso ao visitar as lojas – eu faço uma ronda pelos super e hipermercados para saber das promoções de ocasião –, ao receber no correio de casa ou por e-mail os folhetos das marcas e das lojas, ao trocar informação com outros visitantes do blogue, informação que desconhecia mas que eles me enviam, e tudo isso me ajuda a descobrir os lugares onde poupar”, explica.

São “maluquinhos” ou “poupadinhos”? Uma coisa é certa: da “caderneta de cromos” não se livram. Nem querem

Há quem os apelide, carinhosamente – ou nem sempre –, de “maluquinhos dos descontos”. E pode realmente perder-se a razoabilidade. “Isto de ser-se poupado, em alguns casos, também cria distúrbios. É fácil obter vales de desconto. É tão fácil como inscrever-se nos sites das marcas ou simplesmente receber no correio as revistas das lojas. Está lá tudo. Mas há quem vá mais longe, erradamente, e recorte os vales das embalagens que estão nas prateleiras. Depois, deixam-nas lá, não os compram, e as lojas têm que deitá-las para o lixo. Também há quem fotocopie vales que só podem ser utilizados uma única vez. Isso é profundamente errado. E desnecessário. Eu costumo dizer que ter a informação é ter-se o poder. O poder de escolha. E se os leitores que me seguem no blogue souberem onde se consegue comprar mais barato, se tiverem o acesso aos vales, têm a opção de fazê-lo e poupar no orçamento lá de casa. Mas sem excessos”, clama Daniel, do blogue “O Caça Promoções”.

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A Janine também já a apelidaram de “maluquinha”, mas isso foi noutro tempo, não tão distante assim, em que os cupões e os descontos eram vistos como uma espécie de engodo. Hoje, estranho a quem vê, só quando Janine vai com a sua caderneta de cupões, imensa, para a caixa do supermercado. O que é cada vez mais raro, confessa. “Eu também tenho essa ‘caderneta de cromos’, claro. Não há ‘poupadinho’ que não há tenha. [Risos] Mas isso é em casa. Quando vou às compras, trago comigo um porta-cartões, ‘saco’ dele na caixa, e as pessoas ficam ali a observar-me, espantadas com os descontos. As empregadas, não, essas até já me conhecem. Hoje, as pessoas até acham graça. Mas nem sempre foi assim. Há uns três anos, até entre os colaboradores das lojas eu era vista como a ‘maluquinha’ dos vales e dos descontos. Era um tempo em que havia mais desinformação, não havia empatia, e muitos empregados julgavam que ao descontar os vales, que aquilo era uma fraude, e que ainda iam ter de pagar a despesa do seu próprio ordenado. Não foi fácil”, recorda.

O que são as “acumulações” de cartões e de vales? Em casa, o que se acumula são as compras

Não basta saber onde poupar. Não basta pegar no cartão do super ou do hipermercado, e ir logo comprar por se ter um desconto na loja. A ideia é, muitas vezes, a essa promoção em cartão, juntar um vale da marca do produto, e fazer o que Daniel classifica de “acumulação de promoções”. Mas a acumulação não é proibida pelos retalhistas? Ele explica: “As lojas dizem-nos que as promoções não são acumuláveis. Isso não é de todo verdade. Imagine que um conjunto de quatro iogurtes custa três euros. E que eu tenho um desconto de 50 por cento de desconto em cartão. Se eu tiver um vale de 1,50 euros da marca de iogurtes, posso acumulá-lo com o desconto e não pago nada por aqueles quatro iogurtes. Isso é possível.”

Mas lança um aviso, Daniel: comprar, só o que é necessário, ou lá se vai a poupança ao ar. “O que eu sugiro sempre a quem me segue no blogue é que façam as compras, poupem nas compras, mas façam-nas sempre de forma racional. As compras com promoções, hoje em dia, representam quase 40 por cento das vendas dos super e dos hipermercados. É claro que é um negócio. Mas é um negócio que é bom para as três partes: os retalhistas, as marcas e os consumidores. O que os consumidores não podem é ser consumistas, senão só duas partes é que ficam a ganhar.”

Janine também é da opinião que o consumismo deve ser evitado. É que a ida aos supermercados, quando há uma promoção, não deve ser impulsiva, mas ponderada. E a ponderação faz-se, quer em função daquilo que realmente se necessita em casa, quer em função da própria promoção — se é ou não verdadeiramente rentável. “O que é preciso é ser-se metódico. Claro que para quem só vai às compras uma vez por mês é mais complicado de poupar. O sensato é ir várias vezes, comprando pouco de cada vez. Mas se for às ‘compras do mês’ numa semana em que há muitas acumulações, em que um produto de que se precisa está com 50 por cento de desconto em cartão do supermercado, em que há um vale da marca do produto com mais 25 por cento de desconto, e ainda há um terceiro vale, de uma revista, imagine-se, que vale um euro, aí sim, poupa-se e muito. Agora, pense-se neste método para um carro de compras cheio. E pense-se na poupança que se faz! Mas é fácil cair na tentação de comprar tudo, até o que não se necessita, só porque está em promoção”, alerta.

Nem Janine nem Daniel se consideram dois consumistas. Mas a despensa está sempre cheia. E às vezes, cheia para vários meses. E quando não há despensa que chegue, há sempre o resto da casa para servir de arrumação. “Há produtos que eu não precisarei de comprar até final do ano. O que é que eu tenho que comprar com maior regularidade? Produtos alimentares. Os congelados, como têm uma validade maior, mesmo que os compre em maior quantidade, posso sempre guardá-los durante vários meses. Os produtos frescos, não. Os detergentes, por exemplo, ou os produtos de higiene também me duram meses a fio. Quando vou às compras, e quando são compras para o mês inteiro, tento sempre poupar de 60 por cento para cima. Antes, gastava perto de 350 euros. Hoje não pago mais do que 150 euros em média. E às vezes até gasto menos de cem”, conta Daniel Mesquita.

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Também Janine poupa e faz por “stockar” a despensa, como a própria diz. “Em média, e sabendo que tenho sempre descontos de cem por cento comigo, a minha poupança, na hora de ir às compras e encher o carrinho, é de 75 por cento. Mas com tantas promoções, tantos artigos, e como a despensa era pequena, o frigorífico mais pequeno ainda, tive que comprar uma arca. A congelação dos produtos também é outro dos meus segredos para se economizar. E é possível fazer um stock de vários meses. Mas não é preciso ‘stockar’, como eu costumo dizer, em tudo e mais alguma coisa”, explica, dando o exemplo dos enlatados: “Nas latas de atum, não é porque estão com 50 por cento de desconto em cartão que temos de ir comprá-las a correr. São o exemplo de um produto que tem esse desconto durante quase todo o ano. Só vale a pena ir comprar muitas latas de atum se, a juntar ao desconto em cartão, ainda se conseguir acumular um vale. Aí o desconto é maior e vale a pena, sim. Em produtos com validades maiores, como produtos de higiene ou de limpeza, a minha despensa está cheia e não preciso de comprar nada nos próximos meses. Olho para lá, e guardo vinte e tal embalagens ‘plus size’ de gel de duche.”

Mas de onde é que vêm os vales?

No blogue, “Poupadinhos e com vales”, Janine Medeira partilha com os seguidores os locais onde estes podem encontrar cupões e vales de desconto, quais são os descontos em cartão de supermercado que há em cada um dos retalhistas, tudo com atualizações diárias. Mas como sabe ela o que há e onde há? “É simples. Vou buscar os cupões às revistas dos super e dos hipermercados, também às revistas em geral, que estão nas bancas e que eu compro, registo-me em sites de marcas, em plataformas de cupões como o ‘Para Mim’ ou o ‘Tryix’, e é por aí.”

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Janine critica a desconfiança que (ainda) há nos consumidores quando chega a altura de se registarem nos sites das marcas. Para esta professora de Ferragudo, é troca por troca: as marcas ficam a saber quem são, quantos são e de onde são os seus consumidores, e, em contrapartida, os consumidores recebem vales que podem descontar nas compras dos produtos daquelas marcas. “As pessoas acham que, ao registarem-se, ao darem os seus dados de e-mail ou a morada, vão receber correio que não querem. Mas não. O que recebem são vales. Alguns vales chegam por correio, outros por e-mail — e esses têm que ser impressos. Mas os vales são poupança. Não há nada de mal em registarem-se.”

Os passatempos também são outro método que Janine encontra para poupar no orçamento de casa. “Às vezes basta-nos fazer um comentário numa página de uma marca, partilhar alguma coisa no nosso Facebook e ganhamos os vales. Eu ganhei, há pouco tempo, vales suficientes para trazer gratuitamente 60 caixas de douradinhos de pescada congelados. E trouxe-os, claro. A senhora da caixa do supermercado que passou aqueles 60 cupões até ficou com dores no braço”, graceja.

Poupar para ir de “escapadinhas” e poupar para escapar à crise

Daniel diz que o blogue é uma comunidade. E ele conhece-a bem. “Eu sei de leitores que se tornam verdadeiros peritos em poupar para irem de férias com o dinheiro da poupança. E sei de quem o faça por necessidade, por estarem no desemprego, como eu estive. O que faço para ajudar esses leitores, e faço-o porque isto também é um trabalho que se quer de solidariedade, é mostrar-lhes como se conseguem acumulações de 100 por cento. Outro exemplo é que, ainda nem chegou a época do Natal, já consegui reunir mais de 80 brinquedos, e vou oferecê-los a instituições que têm assinaladas as famílias mais necessitadas, nomeadamente a Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental.”

Janine também vê no blogue um lugar onde pode ajudar os outros. E também por razões diferentes — do lazer à carência. “Há poucos dias fui contactada por uma ‘poupadinha’ – que é como eu chamo às seguidoras do meu blogue – que queria agradecer-me pela ajuda, pois desde que começou a poupar com o que eu partilhava, conseguiu fazer escapadelas de fim-de-semana com o marido. Depois, tenho outros leitores do blogue que me agradecem porque, com a poupança que agora fazem, lhes é mais fácil pagar o infantário dos filhos no final do mês. E há, claro, muitos desempregados que, quando marido e mulher estão no desemprego, ou só um deles é que está empregado, me dizem que conseguem viver melhor sem o sufoco das despesas em supermercado. Essas são as que mais me agradecem. Sabe?… Nunca pensei fazer isto na vida, não o fiz para que me agradecessem, mas é muito gratificante saber que somos lidos e que o que fazemos ajuda os outros. É comovente”, conta.

Texto e reportagem: Tiago Palma
Ilustrações: Andreia Reisinho Costa