Quando estamos apaixonados, tudo o que o outro faz parece perfeito. Mas uma vez que casamos com essa pessoa, as qualidades de que tanto gostávamos, deixam, em pouco tempo, de nos entusiasmar tanto. Ou tornam-se mesmo insuportáveis.

O Quartz alguns exemplos: “ser trabalhador”, passa a “trabalhar demais”; “gasta o dinheiro de forma responsável” passa a “é  forreta”; “fala dos seus sentimentos” passa a “só fala de si próprio”.

Mas porque é que isso acontece? Segundo Dorothy Tennov,  psicóloga e escritora citada no Quartz, tal acontece porque perdemos o sentimento de “leniência”.  Ou seja, perdemos a tolerância excessiva para com o outro e os eventuais defeitos. Dorothy  Tennov cunhou o termo em 1979, para descrever a gama de emoções e sintomas físicos muitos de nós sentimos quando nos apaixonamos, que incluem sudorese, tremores, palpitações cardíacas, êxtase, agonia e saudade aguda.

“Com leniência, tudo acerca da outra pessoa nos parece absolutamente fascinante,” disse Andrew G. Marshall, conselheiro matrimonial, ao Quartz. E até as coisas de que não gostamos, nos parecem interessantes.

Mas o estado de leniência, que surge com a paixão, não dura para sempre. E dois anos depois da relação começar, mudamos a forma como olhamos para a outra pessoa.

E é nesse momento que surgem os maiores problemas. Como os opostos se atraem, e este estado inicial de paixão impede que se veja a pessoa como ela realmente é, as coisas podem tornar-se complicadas. Porquê?  Kate Mollison, uma terapeuta cognitiva, tem uma explicação.

“O que nos pode atrair nas pessoas é algo que achamos que nos falta”, diz Mollison. “Se calhar alguém quer ser mais aventureiro, mais extrovertido,” explica. Então procuram uma pessoa que goste de sair e seja extrovertida. “Mas quando têm viver com isso todos os dias, percebem que não são assim.” Quer Mollison, quer  Marshall recebem muitos casais em terapia que estão a tentar viver com qualidades que começaram por apreciar na outra pessoa e que agora têm dificuldade em suportar. Então, como manter o estado de graça?

Ambos defendem que o melhor a fazer é falar sobre o assunto. E quanto mais cedo, melhor. Não esperar dois anos até começar a fazê-lo. No início da relação, tendemos a apresentar uma versão altamente editada da nossa pessoa e não é preciso ser um grande detective para deduzir que a outra pessoa faz o mesmo. Então, o melhor é começar logo a distinguir a realidade do faz de conta.

No começo da relação temos tendência a ser mais expansivos do que o costume, e até diferentes: os introvertidos vão a festas e os extrovertidos ficam em casa. Mas, com o decorrer da relação, a pergunta que se deve colocar é: será que fazer aquilo o que o seu parceira ou parceiro prefere fazer é compatível com o que quer e gosta de fazer?