Começa hoje o resto da vida deste Governo. Será calvário ou um caminho de sucesso? Tudo depende de como António Costa vai conseguir unir PCP e BE. Como lidar com os dois partidos? E tem de lidar de maneira diferente com PCP e BE? Há um momento mais crítico para os três partidos? Quais as oportunidades? Qual a margem que têm depois deste Orçamento? Estas são várias as perguntas que se colocam agora que o Governo PS vai ver o seu programa de Governo aprovado no Parlamento e vai passar a ser Governo em plenas funções. António Costa chegou a comparar o compromisso a um casamento, então, quais os conselhos para que a relação dure?

Daniel Oliveira, comentador e jornalista, Rui Tavares, ex-bloquista e líder do LIVRE, e Carlos Brito, ex-militante e ex-dirigente do PCP, fazem um guião de conselhos e opiniões para António Costa. O remédio para as dificuldades passa por doses elevadas de diálogo, com tratamento institucional sem falhas e sem queixas. E aí conta a relação profissional, mas também a pessoal.

Os conselhos

  • Reuniões de terça-feira – Não podem ser reuniões apenas técnicas para discussão dos projetos mais imediatos, nem só políticas. Têm de ser o centro do entendimento da esquerda e para isso precisam de força. É o “ponto positivo” que foi avançado por António Costa, dizem os três. “São um excelente ponto de partida”, diz Carlos Brito. Certo é que a relação será sempre tensa, mas essas reuniões “podem permitir um aprofundamento do relacionamento”, acrescenta Daniel Oliveira.
  • E convites para reuniões em São Bento? – Seria uma forma de aprofundar essa relação ao nível do Governo. Daniel Oliveira diz que a escolha de Pedro Nuno Santos para a relação na Assembleia da República com os partidos à esquerda é uma escolha “evidente”, mas que não deve ficar por aí. Quando questionado sobre se Costa deveria convidar Catarina Martins e Jerónimo de Sousa para reuniões regulares em São Bento, Daniel Oliveira ou Carlos Brito acham que “poderia ser mais favorável”, diz o ex-comunista. Contudo, “Costa deve dar esse tipo de sinais, mas é preciso que os outros partidos também queiram”, acrescenta Daniel Oliveira. E vaticina duas opções: “Ou este governo se limita e concentra-se no que está acordado (…) ou tenta aprofundar a sua relação com o PCP e o BE”.
  • Presidenciais não são segunda volta das legislativas – Rui Tavares defende que os partidos à esquerda devem evitar cair na tentação do debate de PSD e CDS que tenta “fazer das presidenciais a segunda volta das eleições legislativas”. “A esquerda deve resistir a isso”, para assim evitar o confronto, acrescenta o líder do LIVRE. E à partida esse “confronto” está saneado uma vez que o PS decidiu não apoiar oficialmente nenhum candidato.
  • Formação do Governo – Já foi um momento falhado, mas nada impede de reforçar a relação. Oliveira diz que Costa deu “sinais contraditórios” uma vez que agradar ao PCP ou ao BE “não foi critério” para a escolha dos ministros.
  • Não falhar na relação institucional – Que é o mesmo que dizer, informar de tudo, deixar os dois partidos a par de tudo e ceder no que não for um problema, mas que um dos partidos faça questão. Um desses exemplos pode ser a não votação na generalidade de alguns projetos, para que sejam feitas as audições com as associações e sindicatos primeiro.
  • Definir objetivos mais imediatos para evitar contestação – Para Carlos Brito, o Governo precisa de definir bem as medidas, mas também o que se pretende com elas para evitar a contestação social. “Terão de medir o que fazer a obtenção de objetivos mais imediatos”, diz.
  • Relação e experiência pessoal – “Costa é dos políticos portugueses com mais experiência política para lidar com os partidos à esquerda do PS” e por isso não precisa de grandes conselhos, diz Rui Tavares. Ou seja, basta pôr a funcionar a experiência que levou da Câmara de Lisboa.

Problema ou oportunidade? E há um limite?

  • Aprovação do Orçamento do Estado – Como foi negociado, a ideia é que não haverá dificuldades de maior. “A primeira fase é a mais simples. Não haverá problemas de maior, apesar de serem muito valorizadas as pequenas divergências”, diz Daniel Oliveira que, apesar de tudo, considera que este “orçamento é o mais difícil” da legislatura até porque tem muitas medidas para serem negociadas à exaustão.
  • Relação entre o PCP e BE – Mais do que a relação entre o PS e cada um destes dois partidos, será a relação entre os dois que será o maior desafio. “O problema é a relação entre BE e PCP”, diz Daniel Oliveira. Foram 15 anos de costas voltadas à esquerda do PS, com muita “competição, que pode dificultar o jogo político. Ou seja, cada um a puxar para o seu lado para ter mais ganhos no eleitorado de esquerda. Mas aqui há pouco que António Costa possa fazer, acredita, a não ser as “reuniões de terça-feira”. Mas já la vamos, é que se a relação PCP/BE pode ser a mais “tensa”, Rui Tavares e Carlos Brito lembram que por isso mesmo “não podem falhar”.
  • Contestação social  – “A CGTP vai continua a existir e o Governo vai ter de lidar com isso”, lembra Daniel Oliveira, que acrescenta que nesse campo, “o PCP é mais sensível à pressão sindical”.
  • Momento histórico – É uma espécie de “cimento”, como lhe chama Carlos Brito. “O primeiro que falhar vai ser penalizado por isso. Todos se vão empenhar porque isto é um cimento”, defende. E com isto quer dizer o facto histórico de PS, PCP e BE terem chegado a um entendimento. “A esquerda demorou tantos anos e toda a gente está muito consciente que não pode falhar”, diz Rui Tavares, que lembra que o que se está a passar é que “estamos a assistir à chegada da esquerda à normalidade governativa”. Ou seja, a “tensão” entre os quatro partidos (contando com os Verdes) pode resultar a favor da continuidade do Executivo. “Desaconselhava a direita a acha que este Governo vai cair no meio do caminho”.
  • Autárquicas – É um momento delicado, mas o problema será depois e não antes. As autárquicas de 2017 serão coincidentes com a aprovação do Orçamento do Estado e podem gerar tensão. Daniel Oliveira acredita que estas eleições são, no entanto, uma cola para o governo: “São a garantia que o PCP não rói a corda”, isto porque para terem o voto, “os autarcas precisam de dinheiro para fazer obras” e, “a não ser que o Governo esteja a implementar austeridade, o PCP precisa do eleitorado moderado que vê o acordo com bons olhos”. Contudo, os problemas podem começar depois: “Aprovado o Orçamento do Estado, passadas as autárquicas e com a queda de Passos Coelho”, diz. “Enquanto Passos Coelho se sentar na primeira fila, este Governo sobrevive”. O que nos leva ao ponto seguinte.
  • Mudanças nas direções dos partidos – Se no PS, os problemas internos estarão apaziguados pelo poder, o mesmo não vai acontecer nos restantes. “Podem vir a existir problemas internos no BE”, mas a pressão “é maior no PCP”, diz Oliveira. Contudo, essa é uma situação ainda longe até porque acredita que no PCP, a haver mudança de direção ela será de “continuidade”.
  • Europa – Onde PSD e CDS vêem um desacerto à esquerda, Rui Tavares vê uma oportunidade. O ex-eurodeputado faz contas ao equilíbrio europeu, onde, depois das eleições em Espanha, o PPE (partido europeu da família política do PSD) “pode perder maioria”. E aí, “podem surgir algumas oportunidades que podem desbloquear algumas situações para o segundo ou terceiro ano.