Lula da Silva deixou a cadeira do poder no Brasil em 2010 mas continua a ser uma figura política com destaque em todo o mundo. Recentemente, foram várias as manifestações públicas em defesa de Dilma Rousseff protagonizadas pelo ex-governante. E agora, numa altura em que a atual presidente enfrenta um pedido de impugnação por parte da Câmara composta pelos deputados, Lula vem outra vez a público para comentar a cada vez mais tensa situação política no país.

Mas, mais do que a atualidade nacional, Lula da Silva fala também sobre as investigações que decorrem neste momento e sobre as eleições espanholas que vão ter lugar dia 20 de dezembro. E já tem um favorito, que diz ser “uma extraordinária novidade”.

Numa entrevista concedida ao El Pais, que o descreve como alguém “pragmático, convincente, simpático e algo demagogo”, o brasileiro começa por falar sobre o impeachment contra Dilma garantindo que este “não tem base legal ou jurídica, nem sentido”, explicando também que “Dilma Rousseff fez o que todos os presidentes fazem: financiar projetos sociais e pagá-los depois através do Estado”. Sobre Eduardo da Cunha, presidente da Câmara dos deputados que iniciou o processo de impugnação, Lula não tem dúvidas de que este “atua por vingança contra o Partido Trabalhista (partido de Dilma e Lula), de uma maneira irresponsável, sem ter em conta o país”.

Depois de defender a atual presidente do Brasil, o político de 70 anos de idade passa para a defesa pessoal. Questionado sobre a investigação da Procuradoria da República do Distrito Federal que, alegadamente, suspeita de tráfico de influências, apontando Lula como facilitador de negócios entre a Oderbrecht e governos estrangeiros durante as suas viagens [nomeadamente a Portugal], o brasileiro desmente categoricamente quaisquer suspeitas: “Não, a Procuradoria pediu-me determinadas informações ligadas a uma revista, que já desmenti. O Ministério Público já recebeu as informações. Todas essas viagens e as conferências que dei eram públicas, não há viagens secretas”.

Também o filho de Lula está envolvido numa suspeita de corrupção, levantada na Operação Zelotes, que investiga operações fraudulentas nas decisões do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), órgão do Ministério da Fazenda [Finanças] brasileiro. Na prática, as autoridades responsáveis por esta investigação têm como alvo os conselheiros que, presumivelmente, passavam informações privilegiadas da Carf a escritórios de assessoria e de advogados que, por sua vez, comprometiam-se a influenciar o resultado dos processos em que determinadas empresas estavam envolvidas. E é aqui que Luís Cláudio da Silva entra. É suspeito de ter recebido, através da sua empresa, 2.5 milhões de reais da consultora Marcondes e Mautoni, por ter, alegadamente, aprovado ilegalmente uma medida beneficiando o setor automóvel.

Lula da Silva diz que o filho “deve respeitar e cumprir a mesma constituição que eu e os outros 204 milhões de brasileiros. Se ele cometeu algum deslize e a polícia o demonstrar, o meu filho pagará o preço que tiver de pagar. Da mesma maneira que eu ou qualquer outro. Não há diferença”.

Depois de terminado o capítulo da justiça e das investigações judiciais, Lula dedicou um pouco da entrevista para comentar o ambiente de campanha eleitoral que se vive atualmente em Espanha. E para dizer que “está muito interessante”, isto porque “pela primeira vez não existe essa dualidade entre PSOE e PP – há quatro forças políticas”, escolhendo já um preferido para ganhar as eleições:

Vamos ver como corre ao Podemos. O Podemos, como todos os partidos novos, parece-se com o PT quando alcançou a primeira vitória: muita ambição, muita vontade, pensa que pode fazer tudo. Depois surgem os problemas com as instituições ou com a burocracia. Mas gostaria que tivessem um grande êxito”.

No entanto, o brasileiro esclarece que até é “amigo há muitos anos de muitas pessoas do PSOE”, mas “penso que o Podemos constitui uma extraordinária novidade.”