A Europa conhece atualmente uma crise migratória “sem precedentes” de adultos e sobretudo de crianças, o que vai obrigar a repensar os sistemas e métodos de ensino, defende um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

No estudo “Os Estudantes Imigrantes e a Escola – Avançar para o Caminho da Integração”, elaborado pelo Programa Internacional de Seguimento do Conhecimento dos Alunos (PISA), da OCDE, é revelado que, atualmente, 12% do total dos alunos com 15 ou menos anos residentes no espaço da organização é oriundo da imigração.

No documento são indicadas oito prioridades a ter em conta para que os estudantes oriundos da imigração que integram estabelecimentos de ensino nos países da OCDE possam ter sucesso na escola, tendo em conta as dificuldades trazidas pela língua, adaptação ao novo país e meio escolar.

O desempenho dos estudantes imigrantes, o sentido de pertença, a concentração das desvantagens nas escolas que os recebem e os obstáculos à língua são alguns dos temas estudados no relatório, em que é defendida a ideia de que quanto mais cedo se aprender melhor serão os resultados e a integração social dos jovens.

A interação de todos os aspetos deve também integrar questões relacionadas com o insucesso escolar e o ensino em classes multiculturais, tendo em conta ainda as aspirações dos estudantes imigrantes, que, à partida, são altas, valorizando a vontade dos jovens em trabalhar para os atingir.

O estudo salienta também a importância de políticas de ensino “bem pensadas” para mitigar as diferenças e as realidades de cada comunidade (a autóctone e a imigrante), tendo como objetivo claro o sucesso escolar.

Nesse sentido, o estudo propõe que essas políticas promovam um ensino linguístico o mais cedo possível, ofereçam uma educação de qualidade, adaptada à aquisição da língua do país de destino, e encorajem os professores, não apenas os especializados, a preparar-se para trabalhar com turmas multiculturais.

Por outro lado, o PISA defende que se deve evitar a concentração de estudantes imigrantes nos mesmos estabelecimentos de ensino, repensar as políticas de educação e envolver os encarregados de educação no processo.

“Se os professores são essenciais para o sucesso dos estudantes imigrantes na escola, os seus pais têm também um papel determinante. Os estudantes tornam-se ainda melhores a partir do momento em que os pais compreendem a importância da escola, do funcionamento do sistema de educação e a melhor forma de apoiar os filhos ao longo de toda a escolaridade”, sustenta-se no documento.

Segundo o estudo, na maioria dos países da OCDE, entre eles Portugal, Brasil e Macau, enquanto região administrativa especial da China, a primeira geração de estudantes imigrantes (nascidos no país de origem e cujos pais também são estrangeiros) são piores do que os alunos sem qualquer passado de imigração. O desempenho dos de segunda geração (nascidos já no país de destino, ao contrário dos pais) surge no meio das duas.

“Como os sistemas de ensino e as escolas respondem à migração tem um enorme impacto no bem-estar económico e social de todas as comunidades envolvidas, quer tenham ou não um passado de imigração”, afirmou Andreas Schleicher, líder da Diretoria para a Educação e Competência Técnica da OCDE.

Para Andreas Schleicher, alguns sistemas de ensino necessitam “urgentemente” de integrar um largo número de estudantes imigrantes, outros de melhorar a relação dos alunos com a língua local e outros ainda lidar com famílias economicamente desfavorecidas.

“Outros têm de lidar com as três situações de uma só vez”, explicou.

“O facto de o sucesso emocional, social e educacional dos estudantes imigrantes diferir muito entre os diversos países (de acolhimento) e de os Estados contarem com políticas e práticas de ensino diferenciadas demonstra que há ainda muito a fazer para que todos possam aprender uns com os outros”, concluiu Andreas Schleicher.