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Não lhe chamam o “Estado eremita” por acaso. Isolada do resto do mundo, tanto por desígnio próprio como por imposição da comunidade internacional, a Coreia do Norte é um dos países mais difíceis de conhecer. São muito poucos os dados que saem do país liderado por Kim Jong-Un, que não passam pelo apertado crivo das autoridades ou da propaganda do regime.

Quarta-feira, o mundo voltou a acordar com as imagens familiares — e das poucas que chegam ao resto do planeta a partir da Coreia do Norte. Nada mais nada menos do que a apresentadora de notícias norte-coreana mais mediática, Ri Chun-hee, a fazer o mesmo anúncio na sua voz com um tom de teatral bravura.

O primeiro teste com uma bomba de hidrogénio foi feito com sucesso às 10h00 [hora de Pyongyang] de 6 de janeiro de 2016 (…). Nós não vamos desistir do nosso programa nuclear enquanto os EUA mantiverem a sua postura de agressão.”

https://www.youtube.com/watch?v=f1o6YQPa2nQ

Fazer fé nas palavras de Ri Chun-hee seria um erro infantil — o facto de a apresentadora veterana da Coreia do Norte ter formação em Teatro e não em Jornalismo é uma pista para perceber que, dali, pouco se aproveita em matéria de dados fidedignos.

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Ao longo do dia, têm surgido dúvidas quanto à capacidade da Coreia do Norte de desenvolver uma bomba de hidrogénio. Numa comunicação à imprensa no final da tarde, a Casa Branca referiu que os dados entretanto recolhidos por várias fontes de monitorização “não são consistentes com a alegação da Coreia do Norte de ter feito um teste com uma bomba de hidrogénio com sucesso”.

Em declarações ao jornal britânico The Guardian, o diretor do CTBTO (uma comissão internacional de monitorização de testes nucleares), disse que para ser confirmado se a explosão causada na madrugada de quarta-feira (que causou um sismo de magnitude 5,1 na região) tinha elementos nucleares ainda terá de esperar. “Para confirmar se foi nuclear temos de ter provas, que são os isótopos radioativos que são espalhados pela explosão”. Para tal, terá de chegar pelo vento a estações da CTBTO. “Temos estações no Japão, na Rússia e arredores e essas estações podem apanhar algo nas próximas 48 ou 72 horas”.

“Estou bastante cética”, disse Melissa Hanham, investigadora sénior do James Martin Center for Nonproliferation Studies do californiano Middlebury Institute for International Studies. “Os dados sísmicos indicam que teria de ter sido um teste para uma bomba muito pequena”, disse, referindo que “parece ser cedo demais para [a Coreia do Norte] atingir um feito desta dimensão”.

Como é frequente acontecer quando o tema é a Coreia do Norte — e sobretudo quando se fala da sua vida militar — as perguntas são mais do que as respostas. Conseguirá a China, o único aliado de Pyongyang, travar este suposto ascendente bélico de Kim Jong Un? Como é que a Coreia do Norte desenvolve as suas armas nucleares? E onde é que este país, onde segundo as Nações Unidas 84% da população tem dificuldades no acesso a comida, consegue o dinheiro para alimentar este programa?

Enquanto as dúvidas persistem, há algumas certezas. A primeira é a de que a Coreia do Norte já realizou três testes nucleares nos últimos dez anos: 2006, 2009 e 2013. Cada um foi procedido de sanções por parte das Nações Unidas que afetaram as transações comerciais e financeiras que pudessem ter ligações ao programa de armamento de Pyongyang. Na quarta-feira à tarde, depois de ter reunido de emergência, o Conselho de Segurança da ONU deixou expresso num comunicado que os desenvolvimentos de 6 de janeiro são a demonstração de que “continua a haver uma clara ameaça à paz e segurança internacional”.

Mas, afinal, quão forte será essa ameaça? A Coreia do Norte faz bluff ou é de facto uma força que os seus adversários devem temer?

Mais nem sempre é melhor. Comparação entre Coreias

Os números não são lineares e nem sempre falarão por si. Segundo o relatório “The Military Balance 2015” do International Institute for Strategic Studies, a Coreia do Norte tem mais meios que aquele que será sempre o seu primeiro alvo, a Coreia do Sul, com quem ainda se encontra, oficialmente, em guerra. A diferença é, muitas vezes, duas vezes maior para o lado da Coreia do Norte. Veja-se:

  • Soldados. Coreia do Norte — 1 milhão; Coreia do Sul — 522.000
  • Tanques. Coreia do Norte — 3.500; Coreia do Sul — 2.414
  • Unidades de artilharia. Coreia do Norte — 21.100; Coreia do Sul — 11.000
  • Submarinos. Coreia do Norte — 72; Coreia do Sul — 23
  • Fragatas. Coreia do Norte — 3; Coreia do Sul — 14.
  • Navios bombardeiros. Coreia do Norte — 0; Coreia do Sul — 6
  • Força aérea (aviões). Coreia do Norte — 563; Coreia do Sul — 571

À primeira vista, os números pendem para o lado da Coreia do Norte mas, por si só, não dizem aquilo que é apontado pelo veredicto do International Insititute for Strategic Studies: “A Coreia do Norte continua a contar maioritariamente com equipamento obsoleto nas três frentes [terrestre, marítima e aérea]”.

Ainda assim, a proximidade com a Coreia do Sul poderá permitir a Pyongyang levar a cabo um ataque relâmpago contra o seu rival, sobretudo com recurso a fogo de artilharia. “A grande vantagem da Coreia do Norte é que a artilharia pode fazer um bombardeamento forte [em Seul, capital da Coreia do Sul, com mais de 10 milhões de habitantes].”

A resposta, porém, seria igualmente rápida, apesar da destruição. Além da força militar da Coreia do Sul, tecnologicamente mais avançado do que o dos rivais a norte, a Coreia do Norte iria provavelmente ter de enfrentar o poderio norte-americano. Neste momento, estão 28,500 tropas dos EUA na Coreia do Sul. E, além disso, teria grandes dificuldades em parar uma ofensiva aérea daqueles dois países.

“A Coreia do Norte não seria capaz de aguentar uma guerra intensa durante muito tempo”, disse em 2013 ao Huffington Post Mark Fitzpatrick, analista do International Institute for Strategic Studies e antigo membro do Departamento de Estado norte-americano. “O maior problema da Coreia do Norte é que rapidamente perderia controlo dos céus por causa das bastante superiores forças sul-coreanas e dos EUA. O alegado número de aeronaves norte-coreanas não quer dizer nada, porque muitas delas não estão aptas para voar e os pilotos da Coreia do Norte têm pouca prática no ar.”