“Olhos nos olhos, Sra. dra. juíza”. Nuno Vasconcellos, presidente da Ongoing, responde confiante às perguntas que lhe são feitas durante o julgamento do caso das Secretas, esta quinta-feira, no Campus da Justiça, em Lisboa. Acusado de corrupção ativa, no caso em que o ex-espião Jorge Silva Carvalho é o principal arguido, o número 1 da Ongoing começa por justificar a contratação do ex-diretor do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED).

Depois de uma breve explicação sobre a “Ongoing não ser [apenas] Lisboa”, mas também Pequim, Estados Unidos, Angola ou Brasil, e apoiando-se no crescimento exponencial da empresa em quatro anos, Nuno Vasconcellos revela: “Não estávamos à procura de ninguém no mercado, mas sabíamos que era premente ter alguém sénior”. E é precisamente por esta altura que o presidente da Ongoing começa a desfiar o seu percurso profissional: caça talentos, especialista em sistemas informáticos ou recrutamento de executivos e gestão das suas carreiras. Por isso, com o olho atento no mercado, Nuno Vasconcellos já teria abordado Jorge Silva Carvalho sobre a possibilidade de entrar para a empresa, dois anos antes do ex-espião trocar o SIED pela Ongoing – altura em que Silva Carvalho “nem sonhava em sair do [serviço] público”, argumenta. “Como estratega. Eu nunca vi o Jorge como um espião, mas como um gestor. Não como um operacional”, acrescenta o responsável pela Ongoing.

Questionado sobre as condições de contratação impostas ao ex-espião, Nuno Vasconcellos enumera duas das principais: ficar desligado e não mais voltar para as secretas, nem ir para a política: “Era um fecho de ciclo. Ele próprio [Silva Carvalho] disse que queria partir para outra, por isso disse-lhe: Jorge, não quero que a Ongoing seja uma alavanca para ti. Isto primeiro é um namoro e depois um casamento”. Apenas e só, recorda o arguido, “se quiseres mudar de vida, com essa vida que tens eu não quero”.

Negócio feito, Jorge Silva Carvalho ganharia um ordenado acima da média: “Temos de contratar a ganhar aquilo que ganha um administrador, entrou a ganhar o que era a banda salarial de um administrador de uma empresa. Não podia ser um médio”, argumenta.

“A função que ele ia exercer não existia, ele não foi substituir ninguém”. Era preciso “tirar o elephant of the room. E o elephant of the room eram as questões financeiras”, atira.

O Porto grego e os cidadãos russos

Quando questionado sobre o interesse da Ongoing no Porto marítimo grego de Astakos, Nuno Vasconcellos disse não existir nenhum: “Não era o nosso foco, foi uma oportunidade que apareceu. O meu interesse era na Telefónica, na Vivo, Oi. Era nas participadas”, justificou.

De acordo com o presidente da Ongoing, Vasco Rato e Fernando Paula Santos (funcionários da Ongoing), apresentaram “essa oportunidade”. Mas a oportunidade exigia, garantiu, um investimento de 300 milhões de euros: “Eu não tinha os 300 milhões de euros, mas recebi as pessoas [ligadas ao Porto grego]”. Mais: Nuno Vasconcellos disse ainda não ter pedido informações a Silva Carvalho sobre os cidadãos russos ligados a Astakos e acrescentou: “Na empresa podemos aceder a uma base de dados internacional, sediada nos Estados Unidos, e eles [russos] estão lá de certeza. Se eu quisesse saber bastava aceder a essa base de dados”.

João Luís, diretor do departamento operacional do SIED, é também arguido e está acusado de, juntamente com Jorge Silva Carvalho, ter acedido ilegalmente à fatura detalhada do telemóvel de Nuno Simas, jornalista do Público, que escrevera um trabalho sobre a situação interna das Secretas. O MP acredita que os três arguidos aturam “sempre de forma livre e deliberada, sabendo que as suas condutas eram contrárias à lei”.