Um think-tank liberal e conservador espanhol, ligado ao Partido Popular, está a insistir na necessidade de um Congresso aberto no partido, que possa mudar a sua orientação e alterar o seu líder, Mariano Rajoy. Já dia 21 de dezembro, no rescaldo das eleições (que o PP venceu, mas em que perdeu a maioria) o grupo conservador havia pedido um congresso aberto e uma reorientação do partido. Agora, o Floridablanca insiste e vai mais longe: pede a saída de Rajoy.

O diagnóstico é duro: “Os resultados obtidos pelo Partido Popular nas últimas eleições, assim como o tempo passado entre as eleições e a formação de governo, tornaram patente o que já estava latente. O PP caminha para a irrelevância, sem projeto político e sem um discurso claro e reconhecível em termos ideológicos“, afirmam.

Na sequência desses resultados (que não permitem ao PP governar nem mesmo com o apoio do Ciudadanos), o think-tank conservador pede um Congresso que permita “iniciar a inevitável renovação [do partido], recuperar a vocação de maioria e unir [o PP] em torno de um projeto político e não em torno de [um projeto de] poder”.

Para além das críticas ao modelo de Congressos do partido (“que em vez de promoverem a participação dos militantes e simpatizantes na eleição dos candidatos, levam a que a eleição possa ser dirigida [pelos atuais dirigentes]”] e à ação da atual direção (que acusam de ter uma “ausência de autocrítica e um incumprimento constante dos estatutos“), o Floridablanca afirma ainda que levar a cabo mudanças substanciais no partido é urgente:

“Parece evidente que para ir a novas eleições há que eleger um novo candidato. A lógica obriga a pensar que se o programa e as últimas listas eleitorais – onde figuravam o candidato [Mariano Rajoy] e a sua equipa de governo – não conseguiram o apoio de uma maioria suficiente de espanhóis, a confiança do eleitor não vai ser recuperada sem mudanças substanciais (…). Só um congresso aberto que eleja um novo líder e uma equipa dirigente com visão, princípios e sentido de Estado poderá salvar o centro-direita [espanhol]. Algo de que Espanha necessita urgentemente” defendem.

A realização imediata de um congresso do partido é recusada por Mariano Rajoy: segundo o El Español, o líder do PP prefere concentrar-se exclusivamente na tarefa de tentar formar governo, algo que não tem conseguido nas últimas semanas. Rajoy está disponível para agendar um congresso, sim, mas após a situação política espanhola ser clarificada.

Entre os membros do Floridablanca encontram-se militantes e colaboradores do Partido Popular, como Eugenio Nasarre e Javier Viudeira, assim como simpatizantes do partido.

Após as eleições espanholas, e a recusa do PSOE em viabilizar um governo liderado por Mariano Rajoy, várias possibilidades foram equacionadas pela imprensa espanhola. Uma delas era precisamente a saída de Mariano Rajoy: num editorial publicado em dezembro, o jornal El Español sugeria a possibilidade de um executivo com o PP, o Podemos e o PSOE, liderado por uma “figura consensual” entre os três partidos: que não seria, nunca, Mariano Rajoy.

Em campanha, o líder do Podemos, Pablo Iglesias, sugeriu mesmo que os três partidos se preparavam para chegar a acordo e apoiar a vice-presidente do PP, Soraya Sáenz de Santamaría, abdicando de Rajoy — Iglesias chamou-lhe mesmo “Operação Menina”. A alternativa desejada por Iglesias era ter uma figura “independente” à frente do executivo, que pudesse reunir um apoio maioritário de PSOE, Podemos e Ciudadanos. Essa figura não poderia ser Pedro Sánchez, líder dos socialistas, por este talvez “não ter sequer condições para ser o líder do seu [próprio] partido”; já Rajoy estava fora de hipótese.

A possibilidade de Mariano Rajoy abdicar da liderança do PP ganhou alguma força com o exemplo da Catalunha, onde Artur Mas decidiu abdicar de voltar a ser o candidato à presidência do governo regional para permitir a formação de um governo maioritário, liderado por Carles Puigdemont, um outro candidato do seu partido (CDC). O PP, no entanto, rejeitou essa possibilidade – e a saída de Rajoy continua a ser uma “linha vermelha” dos populares nas negociações para a formação de governo.

Texto editado por Rita Ferreira