Nome: Tudo o Que Sobe Tem de Convergir
Autor: Flannery O’Connor
Editor: Relógio d’Água
Páginas: 248
Preço: 16€

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Flannery O’Connor não é, sob nenhum ponto de vista, uma escritora versátil. As suas obras têm sempre como fundo o Sul dos Estados Unidos (mesmo quando todas as personagens estão em Nova Iorque), a estrutura familiar é frequentemente a mesma e muito semelhante à da escritora e até nomes de personagens se vão repetindo. Em nenhum momento Flannery sente a muito moderna necessidade de se reinventar, o que é, por estranho que pareça, uma das suas maiores virtudes. Flannery O’Connor está constantemente a escrever o mesmo conto porque percebe que fica sempre aquém desse conto, porque percebe que nunca será capaz de esgotar o seu assunto.

Precisamente por isso, talvez a melhor maneira de escrever uma recensão sobre Tudo o Que Sobe Tem de Convergir (obra que a escritora disputou à morte e que é agora re-editada, posfaciada e traduzida de forma excelente por Rogério Casanova) não seja fazendo breves e necessariamente superficiais comentários sobre cada um dos nove contos integrados no livro mas antes prestando atenção a um só desses textos, procurando nele não apenas os aspectos centrais e mais recorrentes na obra de Flannery O’Connor mas também os motivos para o espanto e admiração que sentimos diante do que deixou escrito. Olhemos, portanto, para “As Costas de Parker”, o penúltimo e mais extraordinário conto de Tudo o Que Sobe Tem de Convergir.

“As Costas de Parker” conta a história de O.E. Parker, um mulherengo errante do Sul dos Estados Unidos. Aos 14 anos, numa feira ambulante, Parker encontrara um homem tatuado dos pés à cabeça num “padrão intrincado e singular de cores brilhantes” (página 186). Ao ver este homem, comove-se e sente-se “invadido por uma inquietação peculiar”. Alguns anos depois, Parker tinha já tatuado todo o seu corpo menos as costas, por não ter interesse em tatuar partes de si que não pudesse ver. No entanto, o efeito resultante desses desenhos nunca lhe parece, ao contrário do do feirante com que se cruzara na juventude, “o de um intrincado arabesco de cores, mas apenas uma coisa caótica e mal executada”. O prazer de cada nova tatuagem dura para O.E. cada vez menos tempo e a inquietação e o descontentamento pela crescente falta de espaço onde se tatuar aumentam constantemente. A vida que Parker escolheu para si e que tanto admirara no homem pequeno e atarracado da feira não é, portanto, capaz de o satisfazer, tal como acontece a Julian, no conto que empresta o nome ao livro, ou a Asbury, em “O Calafrio Permanente”. Há sempre qualquer coisa a travar o sucesso dos planos de vida que as personagens desenham para si, há sempre qualquer coisa que não permite às personagens de Flannery que acreditam conhecer-se a si mesmas justificarem a frustração em que vivem e essa coisa parece ser, como veremos mais à frente, a incapacidade de se bastarem a si mesmas e de alcançarem a felicidade pelos seus próprios meios.

Já sem mais corpo visível que tatuar, Parker pára no meio de uma estrada devido a uma avaria na sua carrinha, mesmo em frente à casa de Sarah Ruth. Parker antipatiza logo com Sarah, mas no dia seguinte, contra a sua vontade, acaba por voltar ali para lhe oferecer uma cesta de pêssegos. Pouco tempo depois, leva-a a passear na sua carrinha, sendo-nos dito que o protagonista decidira naquele momento não voltar a ver a mulher que já antes tinha descrito como “banal, banal” e que “a juntar a todos os seus outros defeitos, andava sempre a farejar pecados” (página 183). Surpreendentemente, a frase seguinte diz-nos que O.E. e Sarah se casaram “no registo civil porque Sarah Ruth achava que todas as igrejas eram exemplo de idolatria” (página 191). Parker não percebe o que o leva a permanecer junto da mulher de quem espera um filho e julga-se alvo de um qualquer feitiço, que o enche de vergonha, e o insere na longa linhagem de personagens de Flannery O’Connor que encaram o amor como uma fraqueza que procuram desesperadamente e sem sucesso combater. Tal como em “Good Country People”, onde Hulga, uma jovem rapariga com uma perna amputada, depois de se apaixonar pela primeira vez na vida, oferece num momento de êxtase amoroso a Pointer a sua prótese que este imediatamente rouba, o amor em “As Costas de Parker” é visto não como uma bênção mas como a maior das ameaças, deixando quem ama indefeso e vulnerável à acção do amado.

Uma escritora pessimista ou optimista?

Irritado e nervoso por não ter ideias para uma nova tatuagem capaz de impressionar Sarah Ruth nem sítio onde a fazer, O.E. tem um acidente de tractor na plantação onde trabalha, vendo a máquina agrícola pegar fogo junto de uma árvore. Num episódio semelhante ao de Moisés e da sarça ardente narrado no livro do Êxodo, O.E. fica descalço diante de uma árvore, sentindo “o hálito quente da árvore em chamas no seu rosto” (página 194). Depois desta revelação que chega da forma mais inesperada, deixando Parker agonizado e atónito (tal como acontece a Mr. Head em “Artificial Nigger” ou a Mrs. Turpin em “Revelação”), O.E. dirige-se mecanicamente para o centro da cidade, sem pensar em mais nada.

Parker entra no salão de tatuagens, escolhendo uma imagem de um Cristo bizantino para figurar nas suas costas. O encontro com a sarça ardente parece, assim, revelar a Parker que não tem para onde fugir de um Deus que nunca pode ser visto face a face, mas sempre através de um espelho, como explica Paulo na primeira carta aos Coríntios. A imagem de Deus que as personagens têm nunca é, no entanto, a do Deus cristão mas de uma versão travestida deste, que nunca as larga e que insiste em destruir violentamente todos os planos de felicidade que com tanta confiança tinham desenhado para si. É a isto que Flannery O’Connor se parece referir quando, num ensaio a que chamou “Some Aspects of the Grotesque in Southern Fiction”, diz que escreve todos os seus textos a partir de um contexto que mais do que centrado em Cristo (Christ centered) é atormentado por Ele (Christ haunted). As personagens dos contos da escritora tentam sempre construir ilusões acerca daquilo que são e da possibilidade de forjarem sozinhas a sua própria felicidade, ilusões que são depois deitadas por terra por revelações inesperadas como a acima narrada.

Depois de tatuado, O.E. vai a um bar e mostra a sua tatuagem a alguns dos seus conhecidos. Ao perguntarem-lhe se se convertera, Parker nega peremptoriamente, dizendo que fizera a tatuagem apenas para se divertir. Alguém grita: “Então porque é que não pareces nada divertido?” (página 200), o que deixa Parker, que luta contra a compreensão do real significado da revelação que tivera, fora de si, iniciando-se uma zaragata “que meteu mesas viradas e punhos a voar”.

Expulso do bar, Parker dirige-se para casa, bate à porta mas a mulher não abre. Ele repete “Sou eu, o O.E.”, mas a mulher volta a não abrir até que, já desesperado, Parker diz o seu verdadeiro nome, o nome de que fugira o conto inteiro: Obadiah Elihue (Servo e Amigo de Deus, em hebraico). Só quando deixa de procurar fugir do seu nome, de reduzir a duas letras enganadoras aquilo que o constitui é que Obadiah, e já não O.E., pode regressar a casa. Só quando Parker reconhece que não é o arabesco que pintara na sua pele, mas o homem que procurou desesperadamente nas tatuagens aquilo que lá não podia encontrar é que a revelação se torna completa.

O conto acaba depois como acabam sempre os contos de Flannery O’Connor, com Obadiah a ser fustigado aos pés da cruz que pela primeira vez toma para si. Em várias entrevistas e ensaios, Flannery manifestava espanto por muitas pessoas tenderem a ver os seus contos como negros e pessimistas apenas por acabarem sempre com jovens tatuados a serem agredidos por mulheres enraivecidas de vassouras em punho, idosas a serem baleadas por assassinos foragidos da justiça ou crianças a serem violadas à beira da estrada porque, para Flannery O’Connor, não é nunca assim que os contos acabam. O’Connor é uma escritora profundamente optimista e esse optimismo expressa-se precisamente no final dos contos onde leitores distraídos vêem apenas mortes, agressões e violações, mas em que, se olharmos com mais atenção, vemos personagens que, quando confrontadas com momentos em que a morte e o perigo se tornam evidentes, se rendem a Deus e passam a desprezar estes momentos para os quais nós olhamos com natural horror. Porque, para Flannery O’Connor, tal como para Dante, o caminho para o Paraíso passa sempre pelo centro do Inferno. Porque, para Flannery O’Connor, todos nós, tal como a mãe de Bailey em “Um Bom Homem é Difícil de Encontrar”, seríamos bons se estivesse cá alguém para nos matar a cada minuto da nossa vida.

João Pedro Vala é aluno de doutoramento do Programa em Teoria da Literatura da Universidade de Lisboa.