Arriscou numa campanha diferente por ser um “candidato diferente”. Mas só ele poderia passear pelas ruas de Portugal a recolher abraços e beijinhos como um ator de novela. Pegou na genuinidade como papel-chave e espalhou-o nos passeios a pé pelas cidades e aposta que isso é suficiente para ganhar. Marcelo Rebelo de Sousa não fez da campanha uma festa, mas  andou 15 dias a passear e a comprometer-se o menos possível com a ideia que a campanha é só o mal necessário para o que aí poderá vir. Foi uma campanha em que o candidato falou vezes demais sobre a própria campanha. Foi a campanha de um homem que ensaiou a pose de Estado nas palavras e levou para a rua o Marcelo, amigo, ouvinte e conselheiro. Na proximidade às pessoas aproxima-se de Mário Soares, na intervenção política foge de comparações como de uma segunda volta: “No ponto de vista da intervenção, sou muito escrupuloso”, diz ao Observador.

Marcelo Rebelo de Sousa arrisca-se a ser o próximo Presidente de Portugal, dizem as sondagens, e apesar de carregar na tecla que esta foi uma campanha “espontânea”, a verdade é que o mestre da comunicação não deixou pontas soltas. Marcelo, o político, puxou da experiência passada e vendeu o seu melhor produto: ele próprio. Começando pela mensagem política, acabando no estilo de Presidente.

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“No ponto de vista da intervenção, sou muito escrupuloso (…) e tenho a exata noção de que esta é uma situação e um momento muito complexo e que um Presidente com um excesso de participação impensada pode agravar a situação e não ajudar a resolver os problemas. Nesse sentido, acho que toda a ponderação é pouco no exercício dos poderes presidenciais”

Da mensagem política

Marcelo ouviu muitas vezes a máxima de que em Portugal se ganham eleições ao centro. E o candidato tem a apoiá-lo dois partidos do centro-direita para lá. Plano número 1: descolar-se o mais que pôde das siglas partidárias, reforçando a imagem de independente nas ideias e na campanha. Nas ideias, fez questão de referir, ainda a campanha ia no adro, que a sua área política era a “esquerda da direita”. No terreno, apesar de ter sempre o apoio dos dirigentes distritais do PSD, apenas Luís Montenegro, dos dirigentes de topo, apareceu ao seu lado. Marcelo não quis sequer que lhe organizassem grandes eventos e ficou incomodado quando isso aconteceu.

Plano número 2: Garantir a estabilidade governativa e retirar discurso aos adversários. Se Marcelo enquanto comentador serviu muitas vezes como espalha-brasas, enquanto candidato presidencial, vestiu a pele de estadista na mensagem política. Raramente respondeu aos casos lançados pelos adversários e não os criticou durante os 15 dias. Além disso, pegou-lhes nos argumentos e tornou-os seus. Foi esta a sua grande mensagem: se for eleito, fará “tudo por tudo” para que  o Governo de António Costa acabe a legislatura.

Encostou-se quase sempre à posição do atual Executivo e com isso tirou discurso aos adversários que espreitavam à esquerda. Afinal, o “candidato da direita”, como lhe chamam, era aquele que garantia a toda a hora que acredita no “equilíbrio talentoso” que o primeiro-ministro é capaz de fazer, e repetia a todo o instante que nada fará que prejudique o Governo. E isso é válido quando o assunto é o Banif, quando o assunto é a posição sobre as decisões do Banco de Portugal em relação aos obrigacionistas do antigo BES ou ainda sobre o próximo Orçamento do Estado. A lista poderia continuar. Marcelo será o “construtor”, o “moderado”, o “pacificador” e o “desdramatizador”. Tudo palavras ditas por si.

Do estilo do Presidente

Plano número 3: Mostrar que será um Presidente “escrupuloso” e interventivo  q.b – Várias  vezes defendeu que os poderes constitucionais do Presidente chegam e são mais do que suficientes, mas o uso que se deve fazer deles está também ali na linha do meio: nem parlamentarista, nem presidencial, será semi-presidencialista e muito racional. O candidato quer um estilo próprio na Presidência:

“No ponto de vista da intervenção, sou muito escrupuloso (…) e tenho a exata noção de que esta é uma situação e um momento muito complexo e que um Presidente com um excesso de participação impensada pode agravar a situação e não ajudar a resolver os problemas. Nesse sentido, acho que toda a ponderação é pouco no exercício dos poderes presidenciais”, defende ao Observador.

Plano número 4 – Mostrar que a experiência lhe dá a possibilidade de ser o “construtor” – Durante os 15 dias de campanha, esta foi umas das diferenças que sempre marcou dos adversários: a bagagem política conta e Marcelo tem bagagem de fazer consensos desde autarca a líder da oposição, mas nunca disse, em nenhum dos discursos que fez sobre a experiência passada, que os consenso que fez nos Executivos de António Guterres foram negociados com… António Costa. Contudo, o candidato presidencial diz que será o Presidente capaz de “unir” o que outros quiseram “dividir” e quer muitos “consensos de regime” em áreas essenciais como a educação, saúde, justiça ou impostos para que não se ande sempre a mudar a legislação.

Na mensagem política e a forma que quer ser, foram estas as mensagens-chave do homem que quer ser Presidente da República numa decisão que começou por ser  uma “aventura arriscada”, caracteriza ao Observador.

Plano número 5 – Ser o Presidente “fofinho”, próximo e carinhoso – “Agora todos juntos: BAAAA-NAAAA-NAAAA”. É assim que muitas vezes o candidato tira fotografias com apoiantes. Mais comum que isto? O estilo do Presidente será assim igual ao estilo do candidato, diz. E caso a mensagem não estivesse a passar, foi o candidato a repeti-la justificando e explicando a sua campanha “simples”, “modesta”, com “contenção”, de “afeto” desde a primeira semana de campanha. Marcelo quer uma “Presidência de afetos”, porque defende uma “proximidade” com os portugueses.

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“É um estilo. Há coisas que obviamente aproximam a Presidência que foi e esta Presidência que poderá vir a ser, se isso for a vontade dos portugueses. Isto é, o feitio da pessoa, o temperamento da pessoa, a sua maneira de querer estar presente em varias atividades”

O candidato prefere as presidências abertas de Mário Soares aos roteiros de Cavaco Silva e diz ver semelhanças com o socialista naquilo que quer ser para o povo se chegar a Belém. “É um estilo. Há coisas que obviamente aproximam a Presidência que foi e esta Presidência que poderá vir a ser, se isso for a vontade dos portugueses. Isto é, o feitio da pessoa, o temperamento da pessoa, a sua maneira de querer estar presente em várias atividades”, admite ao Observador.

Respondeu àqueles que o acusavam de fazer uma “campanha da marmita” com o facto de “comer uma sandes de queijo e um sumo” todos os dias; àqueles que o acusavam de andar a distribuir beijinhos, respondeu com a necessidade de “afeto” de ser “genuíno” no trato e de lhe ser natural enquanto que outros precisavam de agências de comunicação para o fazer; àqueles que o acusavam de andar de pastelaria em pastelaria a comer bolos, até ironizou com as necessidades de açúcar. Foram muitas as meta-conversas sobre a campanha e foram muitos mais os bolos que comeu. Marcelo quis durante quinze dias mostrar aos portugueses que será um Presidente como o português comum. Domingo se saberá se chegará.