O romance de Patricia Highsmith que deu origem ao filme “Carol”, que estreou esta quinta-feira em Portugal, chamou-se originariamente (caso alguém ainda não o tenha ficado a saber nos últimos tempos) The Price of Salt. Com o título O Preço do Sal foi publicado entre nós pela primeira vez, salvo erro, em 1991 pela Europa-América, numa tradução de Fernanda Pinto Rodrigues recuperada a seguir pelo Círculo de Leitores e reeditada mais duas vezes pela EA, a última das quais em 2008. O ano passado, a Relógio d’Água publicou uma nova tradução do livro, de Ana Luísa Amaral, sob o título que desde a cinematização da obra tem sido geralmente adoptado em toda a parte: o título do filme de Todd Haynes. Publicado envergonhadamente sob pseudónimo (Claire Morgan) The Price of Salt, que Highsmith só assumiu publicamente em 1989, é talvez o seu melhor livro – certamente um dos melhores, um excepcional exercício literário sem idade.

Patricia Highsmith, que morreu há pouco mais de dez anos, que não se pensaria ser uma escritora popular em Portugal, é dos autores cuja obra mais completamente foi traduzida e publicada entre nós, embora de forma bastante desordenada e propensa a gerar confusões. Desde o primeiro romance, de 1950 – Strangers on a Train, em mais do que uma tradução mas sempre sob o título também escolhido em França de O desconhecido do norte-expresso, até ao último, de 1995, Small g: a Summer Idyll (Small g: idílio no verão ou Um idílio de verão, pois, como outros, teve mais de uma versão portuguesa ou mais de um título português) – quase toda a obra de Highsmith foi editada em Portugal.

[Veja aqui o trailer de “Carol”]

Dos seus vinte e um romances (sem contar Carol) só não encontrei um: Those that walk away; de todos os outros encontrei edição ou edições portuguesas. Até A Game for the Living, que a autora considerava um dos seus romances mais maçadores e recebeu em português o nome de O jogo da vida, numa tradução de Mascarenhas Barreto para a coleção Vampiro (nº 160). Mesmo as suas colectâneas de contos (e conhecemos a renitência dos editores em publicar livros de contos) tiveram editor português: em nove que saíram (incluindo o póstumo, que se chamou em português prosaicamente Contos Póstumos – omitindo a primeira parte do título original, Nothing that meets the eye, difícil de traduzir, é verdade) – só dois ficaram no tinteiro inglês: Little Tales of Misogyny (uma série de contos curtos de seco humor negro) e Chillers. Até as suas reflexões sobre Plotting and Writing Suspense Fiction, A Criação do Suspense (Relógio d’Água, 1987). Em vários editores: da Livros do Brasil à Relógio de Água, passando, por exemplo, pelas Edições 70 ou a Gradiva.

Patricia Highsmith foi sempre remetida, sobretudo nos Estados Unidos, para o cantinho dos escritores de histórias policiais – em que desde o princípio foi laureada pelos seus pares – por muito reconhecimento que os seus méritos literários lhe tenham granjeado na Europa. Graham Greene, que ela admirava, foi um dos seus mais públicos admiradores. Mas foi num número dedicado a ‘le polar’, justamente, que o Magazine Littéraire lhe atribuíu o título de “imperatriz americana do thriller“. E com efeito foi com a sua “Riplíada”, como se deu em chamar aos cinco romances protagonizados por Tom Ripley, que se tornou um nome conhecido mesmo de quem não cultiva especialmente o género policial.

O primeiro dessa série foi também o primeiro dos seus livros conhecidos em Portugal: traduziu-o Mário Henrique Leiria, que lhe deu em português o excelente título de Um Homem de Talento; saiu, com o número 149, na Colecção Vampiro (foi para essa mesma colecção que MHL traduziu também Raymond Chandler e criou outro título que é um estupendo achado literário: O Imenso Adeus, para The Long Goodbye). A mesma versão seria editada sob o título O Talentoso Mr. Ripley, que é uma tradução literal que passou a ser adoptada, reforçada pela escolha do título da mais recente versão cinematográfica deste livro. Os cinco livros da “Riplíada” são, por ordem cronológica: The Talented Mr. Ripley (Um Homem de Talento ou O Talentoso Mr. Ripley), Ripley Underground (Azul Cobalto), Ripley’s Game (O Amigo Americano, na esteira do filme de Wim Wenders, baseado neste livro e, em parte, no anterior), The Boy Who Followed Ripley (O Rapaz que Seguiu Ripley) e, por fim, Ripley Under Water (Ripley Debaixo de Água).

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Matt Damon (à esquerda) fez de Tom Ripley no filme de Anthony Minghella

Tom Ripley, o protagonista desta série, é um oportunista sem escrúpulos, sempre à beira da perdição, desde o primeiro livro em que assassina e assume a identidade e a herança de um amigo rico e escapa à justiça por um fio. Todo o suspense destes romances assenta no risco iminente em que Ripley está sempre de ser apanhado pela polícia ou vítima dos seus próprios negócios escuros e como se livra de todas as ameaças. É um homem afável e bem-educado, de gostos caros, sem escrúpulos, que a partir de certa altura vive com a sua mulher numa opulenta mas discreta domesticidade mas sempre à beira do abismo; é capaz de bons sentimentos: “só mata quando é estritamente indispensável”. Um herói pouco habitual (um “anti-herói”, como às vezes se gosta de dizer) cuja aventura tem sido tomada como emblemática de uma obra que se define para muitos por uma amoralidade psicopática, uma noção que a reputação pessoal da autora ajudou a consolidar – alcoólica, contraditória, desagradável, cruel, agarrada aos tostões, misógina, toda a vida exilada por vontade própria longe do seu país, disforme na meia idade e na velhice, sexualmente promíscua, de hábitos muitas vezes sórdidos e opiniões em muitos casos repelentes, etc. – uma reputação que a própria não deixou por mãos alheias como revelam os milhares de páginas de diários e cadernos que deixou ao morrer e que a sua biógrafa e em tempos íntima Joan Shenkar espiolhou sem piedade para escrever The Talented Miss Highsmith: The Secret Life and Serious Art of Patricia Highsmith (entre as listas que fazia a toda a hora constam estas duas: “Coisas que se podem fazer às crianças” e “Coisas que as crianças podem fazer”; não são para espíritos fracos).

O mundo à parte que Patricia Highsmith criou – tão “artificial” como, nas suas antípodas, o de uma Agatha Christie que recentemente relembrámos – não se resume às tortuosas peripécias de Ripley, culposamente empolgantes. Em tudo o mais que escreveu, sem qualquer exibicionismo estilístico – nisso se parece ao grande Simenon do Comissário Maigret – com uma neutralidade meticulosa e hipnótica, criou um clima – diferente mas tão inconfundível como o dos livros de Simenon – em que não é preciso haver nenhum crime para nos transmitir um profundo mal-estar difícil de definir. Foi, nas palavras de Graham Greene, um “poeta da apreensão”. Detestava a condição humana. Tinha como animais de estimação dezenas de caracóis.

Filha de pai ausente

Menina infeliz de pai ausente, nascida no Texas, Patricia Highsmith cedo subiu a Nova Iorque e iniciou a sua carreira literária com um primeiro êxito, coroado pela adaptação ao cinema num dos melhores filmes de Alfred Hitchcock: “Strangers on a Train” (em cujo argumento chegou a colaborar outro grande do romance “policial”, Raymond Chandler, na sua acidentada e rendosa passagem por Hollywood): era já a história de um ambíguo dueto masculino, que se repetiria em muitos outros livros da autora.

A seguir foi na Europa, sobretudo em França e na Alemanha, que o cinema se interessou por ela: em 1960 René Clément realizou a primeira versão cinematográfica de The Talented Mr. Ripley, com o título de “Plein Soleil” (“À Luz do Sol”), um excelente filme com um magnífico Alain Delon no papel de Ripley e uma boa ideia para lhe dar um fim menos “imoral” do que o do livro, no qual, finalmente certo da sua impunidade e do seu triunfo, um esfuziante Ripley apanha um táxi em Atenas, gritando ao condutor que fala um italiano mascavado que o leve a um hotel; a qual? – “il meglio, il meglio” – “o melhor, o melhor”.

Haveria uma nova versão cinematográfica deste livro em 1999, desta vez, por fim, americana, “The Talented Mr. Ripley”: mais fiel, dirigida pelo inglês Anthony Minghella, com Matt Damon como protagonista e um papel secundário memorável de Philip Seymour Hoffman. No mesmo ano do filme de Clément, Claude Miller fez o filme “Dites-lui que je l’aime” de This Sweet Sicckness (Doce Doença ou Querida Doença, o livro teve estes dois nomes entre nós). Em 1963, um outro realizador francês adaptou o segundo romance policial de Highsmith, The Blunderer: foi “Le Meutrier”, de Claude Autant-Lara. E em 1987 foi a vez de outro reputado cineasta francês, Claude Chabrol, que adaptou The Cry of the Owl (O Grito do Mocho) no meio-falhado “Le Cri du Hibou” (foi transmitido há pouco tempo cá em Portugal num canal de televisão).

Em 1977, Wim Wenders realizou “Der Amerikanische Freund” (“O Amigo Americano”), com o realizador Nicholas Ray num pequeno papel e um Dennis Hopper não muito convincente como Ripley. Mas não é para deitar fora. O Ripley’s Game, em que Wenders principalmente se baseara, tornou a ser filmado sob a direção de Liliana Cavani em 2002, com o título original: John Malkovitch brilhava como Ripley, embora não tivesse propriamente o físico do papel. Mais terra a terra, este “Ripley’s Game” (“O Jogo de Mr. Ripley”) é um thriller bem realizado para nos entreter sem muitos segundos pensamentos. De então para cá foram filmados o Ripley Under Ground (“O Regresso de Mr. Ripley”, 2005, de Roger Spottiswoode, com Barry Pepper) e, em 2014, The Two Faces of January (As Duas Faces de Janeiro).

Em Maio do ano passado foi anunciada a intenção de filmar para televisão a “Riplíada” completa mas, que eu saiba, não houve mais notícias sobre esse projecto.

Miguel Freitas da Costa foi cronista no Expresso, no Público, no Diário Económico e no DN, entre outras publicações. Foi director editorial da Guimarães Editores e secretário-geral da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros. É tradutor.