O estádio do Dragão, mais às moscas do que à pinha, assobiou. Muito.

Não por o FC Porto estar a perder desde há instantes com o Arouca em casa — o 2-1 foi aos 67′ e havia tempo de sobra para empatar e virar o resultado depois. Não por ter começado a perder logo aos dez segundos — sim, leu bem; Walter fez o primeiro golo do jogo mal se escutou o prrriiiiii de Rui Costa. O Dragão assobiava — mais do que assobiar, apupava — Maicon, um dos capitães do clube, porque este saiu do relvado, cambaleante, enquanto os colegas seguiam para o ataque, à procura do empate. Maicon fez ouvidos moucos aos assobios. Só não os fez a Jose Peseiro, ao ralhete de Peseiro, que quando o viu a encaminhar-se para o banco, terá julgado que Maicon vinha refrescar-se com água, pedir um pulverizadela do spay “milagroso”, e nunca que este se dirigisse ao banco para lá se sentar. Mal se apercebeu, Peseiro fê-lo voltar lá para dentro na hora.

O ataque não deu em nada, a bola acabou por sair pela linha lateral e Maicon lá foi substituído. Antes, pouco antes, tinha a cabeça autenticamente no ar aquando do golo do Arouca. Que disparate, Maicon! Que disparate. Hugo Basto, central do Arouca, e desde a defesa, colocou a bola, longa, no meio-campo defensivo do FC Porto, Walter (o mesmo paraguaio que fez o 1-0 madrugador no jogo) saltou para disputar a bola com Martins Indi, ainda lhe tocou de raspão, mas esta foi ter com Maicon. O problema é que Maicon quis controlar a bola, fintar Walter, sair a jogar. O problema (para o FC Porto, entenda-se) é que não conseguiu. Walter surripiou-lhe a bola e correu em direção à baliza de Casillas, procurou o poste esquerdo, colocou lá a bola com a canhota e, ao primeiro remate do Arouca no recomeço, fez o 2-1.

Maicon é um profissional. Maicon não fingiu a lesão. E provavelmente até a tinha mesmo antes do golo de Walter. Mas se se está lesionado, não se finta na defesa. E mesmo quando não se está — e a menos que se seja o Gerard Piqué ou o Mats Hummels lá do sítio –, não se finta na defesa. Ponto.

É importante dizer que o FC Porto fez o 2-1 antes do Arouca. E fê-lo pouco antes do Arouca se recolocar na frente, aos 67′. Nem quatro minutos antes, o árbitro Rui Costa anulou um golo ao FC Porto por fora-de-jogo de André André. Mas errou, Rui Costa. Ele, André André, foi desmarcado na área por Brahimi, devolveu o passe ao argelino no meio e este desviou, sozinho, para o 2-1. Ambos, Brahimi e André André, estavam em jogo — Velázquez, central, esqueceu-se de avançar com os restantes defesas e colocou-os assim.

É verdade que este golo poderia ter escrito uma historia diferente na noite molhada do Dragão. Mas também é verdade que, até aí, o FC Porto só tinha realizado na 2.ª parte um único remate, com Aboubakar a ser desmarcado ao acaso por Maicon (foi realmente um “acaso”; o brasileiro disputou uma bola pelo ar a meio-campo e acabou por isolar o camaronês nas costas da defesa do Arouca), mas Aboubakar demorou uma eternidade (fez um golo, com todo o mérito, num canto de Layún, mas falhou uma mão-cheia de golos, como é costume dizer-se, “cantados”…) a rematar e Bracali defendeu.

O que também é verdade é que até final, e depois do 2-1 pelo Arouca, o FC Porto não mais rematou com perigo. E Peseiro bem mexeu. Tirou Brahimi — que esta época com Lopetegui ganhou o vício, ele que era um virtuoso vindo do Magrebe como o conterrâneo Madjer, de mastigar demasiadamente o jogo, de procurar o meio por tudo e por nada, de mal arriscar o um-para-um com os defesas, de estar mais vezes cabisbaixo do que a celebrar golos — e fez entrar Varela. Peseiro queria tirar do FC Porto o ADN do ex-treinador, aquele ADN que faz a bola circular de lá para cá, de cá para lá, mas sempre sem pressa, sempre nos arrabaldes do relvado e onde nem cócegas o adversário sente.

Peseiro queria o FC Porto mais acutilante, mais vertical — como o chegou a ser na 1.ª parte. Mas não conseguiu. Brahimi praguejou quando saiu. Brahimi acreditava que a mastigar o jogo ia conseguir evitar a indigestão da derrota com o Arouca — o FC Porto, em cinco jogos contra os arouquenses, venceu os cinco; perdeu aos sexto. Pior: os restantes, os que ficaram no relvado, acreditavam como ele. E o FC Porto não voltou a rematar até final. Mas lá que mastigou o jogo, lá isso mastigou.

José Peseiro é um treinador capaz — até podem chamá-lo de “pé-frio”, e com razão, mal ele é capaz. Mas será capaz de, em cinco dias, mudar o que não mudou duas semanas e uns dias, desde que chegou ao banco? É que na sexta-feira há clássico na Luz, contra o Benfica (o FC Porto está a seis pontos dos da Luz e pode ficar a oito do Sporting, se este vencer o Rio Ave amanhã em Alvalade) e os maus-hábitos de Lopetegui, aqueles que dão em derrota contra o Arouca em casa, estão lá todos. Não vai ser fácil. Mas se fosse fácil não era para mim. Ah, esperem; essa frase é de Rui Vitrória.

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