Não há vencedores de antemão. Esta é uma daquelas máximas do futebol, velhinhas e com barbas. Mas não caiu em desuso. E se é verdade que os maiores vencem mais do que perdem, também é verdade que os mais pequenos, volta e meia, batem-lhes o pé e fazem da tal máxima uma verdade mais do que insofismável.

Hoje, na Choupana, onde o Sporting perdeu quase tantos pontos quanto aqueles que ganhou (venceu nove jogos, empatou outros nove e perdeu por três vezes), numa Choupana em que, com nevoeiro ou não, ganhar nunca é fácil, o Nacional, não sendo favorito, era um osso duro de roer. Mas a verdade é que começou a perder o jogo mesmo antes de este começar. Mal se conheceram os titulares, não era preciso ser um Nostradamus ou sequer uma daquelas cartomantes da TV, para perceber que o Sporting ia ter uma tarde, quase noite, de sossego e só não golearia se não quisesse.

Porquê? É simples: Manuel Machado fez titulares dois avançados-centro (Ricardo Gomes e Soares) e dois extremos (Salvador Agra e Willyan). Médios, só tinha dois, Aly Ghazal e Washington, mais defensivos do que ofensivos — aliás, atacar ou fazer a bola chegar ao ataque não é nada com eles. O Sporting, por sua vez, com William, Adrien e João Mário no centro, com Bruno César e Ruiz a recolher muitas vezes da lateral para lá, tomou o meio-campo para si. E se é verdade que as defesas vencem campeonatos — outra máxima, esta do basquetebol e do histórico treinador do LA Lakers, Phil Jackson –, os meios-campos vencem jogos. Assim o ataque lhes dê uma ajudinha, claro.

Foi isso que aconteceu no jogo desta noite. William Carvalho, por força da renovação de contrato ou não, voltou a ser o que realmente é: um médio que não se limita a recuperar bolas, a ocupar espaço (porque é um matulão) e fazer marcações homem-a-homem; William distribui jogo e galga metros no terreno com a sua passada lenta mas larga, arrastando os adversários para a defesa e os seus para a frente. João Mário, esse, com pezinhos de lã e sem se dar muito por ele, não é capaz de jogar mal, está em todo o lado e faz do futebol o que ele devia ser e nem sempre é: simples. O meio-campo, também e sobretudo por causa deles, foi do Sporting.

E o Sporting marcou cedo, mal Bruno Paixão tinha apitado para o começo, logo aos três minutos de jogo, mas não tanto por isso, pelo domínio do meio-campo — afinal, o golo nasceu de um canto. A “culpa” foi de Slimani. O argelino foi mais veloz que todos e atacou a bola mais alto do que todos. E fez o 1-0. O Nacional simplesmente não rematou em toda 1.ª parte. E o Sporting só não aumentou porque Bruno Paixão, o árbitro, viu os braços de Ruiz estendidos e em fora-de-jogo; o problema é que os braços não contam no fora-de-jogo.

No recomeço, mais do mesmo. Ou quase. Só se viu Sporting, no Nacional era tudo um trouxe-mouxe, mas houve uma diferença: viram-se mais golos ainda. Manuel Machado até deu a mão à palmatória, reduziu o número de gente na frente e aumentou-o a meio-campo, mas o Sporting, mesmo sem ser acutilante, foi controlado, circulando, e chegaria cedo ao segundo golo. Foi aos 52′. Na área, Ruiz coloca a bola à frente do central Rui Correia, tenta ir buscá-la, mas Correia desvia-a com a mão, impedindo o costa-riquenho de progredir. E vê amarelo, Rui Correia. É Adrien quem marca a grande penalidade, sem espinhas.

E o Sporting estava mais próximo do terceiro do que o Nacional de reduzir. Fê-lo mesmo, aos 63′. Que disparate de Nenê! É de João Mário o golo, numa recarga na área. Ruiz quis colocar a bola em Slimani, à entrada da área, mas acertou em cheio em Nenê Bonilha. O problema (para o lado do Nacional, entenda-se) é que Nenê tentou sair a jogar na defesa, Slimani surripiou-lhe a bola em três tempos, entrou na área e chutou. Acertou na barra, o argelino, mas a sobra foi ter com João Mário e este, de primeira e sem deixar que a bola tocasse sequer na relva, chutou de canhota para o 3-0.

Bruno Paixão voltou a errar. Mas desta vez, ao invés de prejudicar o Sporting, beneficiou-o. Há falta de Sequeira sobre Ezequiel Schelotto? Há. Tanto há, que o defesa-esquerda do Nacional, que derrubou o argelino ostensivamente, até viu o cartão amarelo. Mas é dentro da área? Não, é no limite, mas fora, um, dois metros fora. O argelino Slimani, como não é de zunzum (isso é coisa para os milhentos programas desportivos de segunda-feira à noite), rematou para um lado, Gottardi foi para o outro, e o Sporting já goleava por 4-0.

Até final, o Sporting abrandou o ritmo (talvez demasiadamente) e o Nacional, por fim, aos 89′ e de livre, fez o seu primeiro (e único, realmente com direção) remate à baliza de Patrício. O guarda-redes do Sporting defendeu, a custo, um livre à Roberto Carlos e frontal de Rodrigo Pinho. É pouco, poucochinho, para quem esperava que o Nacional ia fazer da máxima dos vencedores de antemão, uma máxima. O Sporting venceu de antemão. E isolou-se no topo da Liga, com mais três pontos do que o grande derrotado da jornada, o Benfica.