O Fundo Monetário Internacional (FMI) defende que a Grécia tem de conjugar reformas credíveis com um alívio da dívida, numa nota à comunicação social em que recusou comentar a publicação de um documento da WikiLeaks sobre as negociações com Atenas.

O portal na Internet da WikiLeaks publicou hoje a alegada transcrição de uma teleconferência entre dois responsáveis do FMI, na qual é discutida a estratégia para a Grécia aceitar mais cortes orçamentais e também para levar a Alemanha a ceder a uma nova reestruturação da dívida pública helénica.

Esta ‘fuga’ de informação levou mesmo o governo grego a exigir explicações oficiais à instituição liderada por Christine Lagarde.

Publicamente, o FMI emitiu uma nota de imprensa a recusar comentar “supostos relatórios de discussões internas” e a defender que o país deve continuar o caminho das reformas acompanhado de uma renegociação da dívida.

“Temos afirmado claramente que pensamos que é necessário uma solução sustentável para os desafios económicos que a Grécia enfrenta, que ponha a Grécia num caminho de crescimento sustentável suportado por um conjunto credível reformas conjugada por um alívio de dívida pelos parceiros europeus”, lê-se no comunicado da instituição sediada em Washington.

O documento divulgado hoje pela Wikileaks revela uma conversa de 19 de março entre o diretor de assuntos para a Europa do Fundo Monetário Internacional (FMI), Poul Thomsen, e a chefe da missão da instituição na Grécia, Delia Velculescu, em que se mostram muito exasperados com o ritmo lento das negociações quanto às reformas a concretizar pelos gregos e falam sobre a estratégia a adotar nas negociações do terceiro programa de resgate para o FMI fazer valer a sua posição.

Durante a conversa, Poul Thomsen lembra que, no passado, os gregos só aceitaram ceder às exigências quando “estavam prestes a ficar sem dinheiro e a entrar em incumprimento”.

“E isso é provavelmente o que vai acontecer de novo. E, neste caso, arrasta-se até julho e claramente os europeus não vão ter quaisquer discussões durante o mês anterior ao ‘Brexit'”, acrescentou o responsável do FMI, em referência ao referendo britânico marcado para 23 de junho, que vai decidir sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia.

Thomsen fala ainda da reestruturação da dívida grega, que há bastante tempo o FMI defende, e da forma como levar a Alemanha a aceitá-la.

“Basicamente, nós a certa altura dizemos: ‘Olhe, senhora Merkel, tem um desafio e tem de pensar o que lhe traz mais custos. Ir em frente sem o FMI e, aí o parlamento alemão irá questionar ‘O FMI não participa?’, ou escolher o alívio da dívida que nós pensamos que é necessário para estarmos dentro'”, afirmou, citado na transcrição disponibilizada pela WikiLeaks na sua página na internet.

O terceiro programa de resgate à Grécia foi aprovado no verão de 2015, sendo que em janeiro deste ano o Governo grego aceitou o envolvimento do FMI.

A Alemanha tem insistido na participação do FMI, uma vez que considera que esta será mais exigente com a Grécia na execução de reformas.

Para aceitar estar financeiramente envolvido no resgate, no valor de 86 mil milhões de euros, o FMI — que atualmente presta assistência técnica – exige de Atenas várias reformas, nomeadamente nas pensões, mas também que a zona euro aceite a renegociação da dívida pública do país.