Relações

Cinema, literatura e televisão: estará a cultura popular a estragar as nossas relações amorosas?

Os especialistas dizem que os filmes da Disney, os clássicos da literatura e de Hollywood, estão a perpetuar expectativas erradas sobre as relações e a condenar-nos à infelicidade e insatisfação.

Somos levados a acreditar que grandes sentimentos pedem grandes declarações de amor e pedidos de casamento no topo da Torre Eiffel. Mas grandes expectativas levam a grandes desilusões.

FRED DUFOUR/AFP/Getty Images

Autor
  • Helena Magalhães

Nos dias de hoje, vivemos num mar de informações que nos entra todos os dias em casa: vídeos, filmes, livros, televisão, música e internet. Todos gritam o mesmo e fazem-nos viver em busca de um conceito de felicidade que pode ser tendencioso, incompleto e simplesmente errado. Falamos da cultura popular onde existe um príncipe encantado, onde a mulher precisa de ser salva, onde não há vida para lá do amor, onde a morte é a salvação dos desamores e onde o final feliz só existe com o tão esperado casamento. Dos filmes da Disney aos grandes clássicos da literatura, a verdade é que muitas das ideias que vamos absorvendo enquanto crescemos criam-nos expectativas irreais e acabam por nos tornar adultos eternamente infelizes e insatisfeitos.

Uma notícia no Huffington Post Brasil dava conta, em Março, de uma novidade que, a chegar a todo o mundo, pode vir a mudar a forma como as próximas gerações vão viver: no Chile, foi criado o seminário “desprincesamento” para raparigas entre os nove e os 15 anos de idade. A ideia? Criar ferramentas para que as jovens raparigas cresçam convictas de que são capazes de mudar o mundo e não precisam de um homem para isso. E porque é que isto é importante? Porque todos nós — homens e mulheres — vivemos rodeados de conceitos fantasiosos sobre as relações e que, a longo prazo, acabam por alterar a perceção que temos dos papéis de ser mulher, homem, felicidade, amor, casamento e sexo. E embora saibamos que muitas das coisas que vemos não são reais, muitos de nós acabam por se deixar influenciar inconscientemente.

Expectativas irreais com base no príncipe encantado

Quem consegue resistir à ideia de um príncipe encantado montado no seu cavalo branco para nos salvar de todos os nosso problemas? Esta é praticamente a fórmula mágica de toda a cultura popular que conhecemos: Desde 50 Sombras de Grey a Notting Hill, passando pela saga Twilight, Romeu e Julieta, Pretty Woman, O Diário da Nossa Paixão… A lista é infinita. Uma equipa de psicólogos da Universidade Heriot-Watt em Edimburgo levou a cabo uma investigação para avaliar a influência dos filmes de Hollywood nas expectativas irreais que alimentamos sobre a relações e chegaram a várias conclusões interessantes:

  • Tendemos a simplificar o processo de nos apaixonarmos e erradamente acreditamos que deve ser conseguido sem esforço: todos queremos entrar numa sala, olhar para alguém e saber que aquela pessoa é a nossa alma gémea.
  • Filmes como Você tem uma Mensagem ou Enquanto Dormias criam a ideia de que se alguém quer estar connosco, essa pessoa vai saber aquilo que queremos, criando problemas de comunicação porque, na vida real, ninguém adivinha o que nos vai na cabeça.
  • Tendemos a acreditar na ideia da alma gémea que estamos predestinados a conhecer e que, quando isso acontecer, vai correr tudo instintivamente bem como se ambos lessem a mente um do outro, que é como quem diz, encontramos o nosso final feliz.

“Todos queremos ser bem-sucedidos nas nossas relações, queremos conhecer aquela pessoa especial e, infelizmente, as pessoas tendem a acreditar que se uma relação não é como um filme de Hollywood, então não é boa. Todos estes meios populares estão a perpetuar estas ideias na mente das pessoas”, diz Bjarne Holmes, o psicólogo que conduziu este estudo.

O ponto de vista masculino

E se, muitas vezes, atribuímos todos estes problemas apenas ao lado feminino — a donzela em perigo que precisa do seu príncipe — a verdade é que a cultura popular também cria pressão no papel de homem. O site The Good Men Project, um portal de assuntos masculinos, com mais de 5 milhões de visitas mensais, analisou a forma como os filmes da Disney prejudicam os homens. Tal como as meninas crescem a acreditar no príncipe, os meninos também veem estes filmes e recebem mensagens erradas sobre amor e casamento: têm de mudar a vida das mulheres, têm de as salvar, têm de fazer tudo por elas, tornar os seus sonhos em realidade e garantir o seu final feliz.

Muitas mulheres acreditam que é isto que é suposto um homem ser e ficam desiludidas quando percebem que o seu companheiro não se encaixa nesse molde. Elas esperam que ele deixe tudo para correr atrás dela, mesmo se ela estiver do outro lado do mundo, porque é assim o verdadeiro amor. Mas um homem não é sempre “encantado”, também tem os seus dias maus, tem os seus hobbies, a sua vida pessoal, a sua independência, nem sempre é corajoso e forte e, provavelmente, vai preferir ler um livro ou jogar consola do que lutar contra dragões. Todos estes estereótipos de como um homem deve ser tornam as relações infelizes porque ao invés de trabalharem em conjunto em prol do amor, do respeito e dos sonhos a dois, se um dos conjugues não está feliz, a culpa é automaticamente do outro.

Por outro lado, o ideal de donzela frágil também cria nos homens a ideia de que a esposa ideal é alguém que precisa dele e mulheres independentes, inteligentes e com carreiras de sucesso fazem-nos sentir menos masculinos, como abordámos neste artigo.

O papel do destino nesta história

Uma notícia da BBC abordou outro problema: a crença absoluta no destino e no amor predestinado. E, na verdade, toda a cultura popular presente nas músicas, na literatura, no cinema faz-nos acreditar erradamente que o amor chega quando menos esperamos, que quando nos cruzarmos com o “tal”, vamos apaixonar-nos imediatamente e que, a partir do momento em que o encontramos, a confiança e o compromisso nascem automaticamente quando essas são qualidades que, normalmente, levam anos para se desenvolver.

E num mundo cada vez mais narcisista, somos levados a acreditar que, quando encontrarmos o nosso amor eterno, todas as nossas necessidades serão satisfeitas, vamos ser felizes para sempre e ter alguém com quem contar para tudo. É tudo sobre nós, nós, nós. Este modelo popular de amor faz-nos acreditar que a outra pessoa vai ser a nossa salvação. E esta é uma noção de amor que continua a ser vigorosamente promovida em todo o lado.

Expectativas irreais em que tem de deixar de acreditar:

Alguém se vai apaixonar perdidamente por nós e fazer de tudo para nos conquistar como em 500 dias com Summer. Dificilmente alguém que não nos conheça nos vai aparecer à porta com um ramo de flores e convidar-nos para jantar porque somos o amor da sua vida. Conquista e amor requerem tempo e paciência e uma boa dose de sorte para nos cruzarmos com a pessoa certa.

Alguém que nos ame realmente vai esperar por nós como em Diário da Nossa Paixão. Na verdade, o mais certo é essa pessoa refazer a sua vida, encontrar outro amor, casar, ter filhos. Se há alguma hipótese de acreditarem que podem ser felizes com alguém, não coloquem essa pessoa na prateleira enquanto pensam. Porque ninguém espera uma vida por ninguém como o Noah.

O amor verdadeiro leva a grandes gestos como em 10 Coisas que Odeio em Ti. Queremos acreditar que grandes sentimentos pedem grandes declarações de amor, pedidos de casamento no topo da Torre Eiffel, alguém que corra atrás de nós no aeroporto para nos impedir de partir… Mas grandes expectativas levam a grandes desilusões.

Alguém vai deixar tudo por nós como em O Amor é o Melhor Remédio onde Jamie deixa a sua carreira porque se apaixona por Maggie, uma jovem com Parkinson, e quer tomar conta dela para o resto da vida. Sejamos honestos: iríamos querer estar com alguém que desiste da sua vida para viver a nossa? Não — e essa seria uma relação fadada ao fracasso.

Quando encontrarmos a pessoa “tal”, vamos saber instantaneamente como em Titanic. Jack apaixona-se perdidamente por Rose mal a vê e dá a sua vida para a salvar (embora, na realidade, só se conhecessem há uma semana). Esta é uma expectativa irreal, tanto para homens como mulheres. O amor nasce com a convivência, com a partilha, com os toques, os cheiros, com a voz. E não com um olá numa discoteca ou um chat a piscar.

    Se tiver uma história que queira partilhar ou informações que considere importantes sobre abusos sexuais na Igreja em Portugal, pode contactar o Observador de várias formas — com a certeza de que garantiremos o seu anonimato, se assim o pretender:

  1. Pode preencher este formulário;
  2. Pode enviar-nos um email para abusos@observador.pt ou, pessoalmente, para Sónia Simões (ssimoes@observador.pt) ou para João Francisco Gomes (jfgomes@observador.pt);
  3. Pode contactar-nos através do WhatsApp para o número 913 513 883;
  4. Ou pode ligar-nos pelo mesmo número: 913 513 883.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Solidão

Meu querido mês de Agosto

Teresa Espassandim

Neste “meu querido mês de Agosto”, há quem sinta a manifesta necessidade de estar permanentemente ligado, sem por limites ou conseguir sair da trajectória da solidão acompanhada da existência online.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)