Core de ‘sta Città
unico grande amore
de tanta e tanta gente
che fai sospirà.

Luciano Spalletti está irrequieto. Para trás e para a frente, tão preocupado quanto pensativo, não se senta no banco de suplentes. Acaba de ver o Torino, o ousado convidado, a colocar uma segunda bola na baliza romana. O Torino ganha 1-2. O visitante atrevido quer tramá-lo e apenas tem 10 minutos para lhe dar a volta. Puxa pelos neurónios, a careca já não lhe dá cabelo para gastar, e lembra-se do símbolo de amor-ódio que está aquecer os músculos, à espera de ir a jogo. Não o chama logo, quis matutar mais um pouco a iminente decisão, até a urgência do que se passa em campo o obrigar a agir. Anda, Francesco, vai lá para dentro. Dou-te quatro minutos para nos ajudares, terá pensado, sem o ter dito.

Ouve-se um apito, é uma falta para a Roma já perto da área. O árbitro deixa que o jogador entre e Spalletti, ansioso, espera que o recém-entrado lhe leia os pensamentos. “Quando o coloquei, pensei imediatamente: espero que ele não vá bater o livre”, admite, mais tarde. Ele faz o que o treinador imagina e corre para a área. Fica atrás de um adversário, no esconderijo do segundo poste. Vinte e dois segundos após entrar em campo está a atirar o corpo de 39 anos que serão 40 em setembro para o ar, esticando uma perna para tentar chegar à bola. O livre batido por outrem faz a bola ir ter com ele e fazer ricochete para a baliza. Francesco Totti marca o golo mais rápido da época, na Série A, para um substituto.

Ele sorri, festeja, o estádio torna-se barulhento, mas que não se perca tempo. Um empate apenas significa não perder e a Roma tinha que ganhar. Era preciso aguentar o terceiro lugar, não escorregar do comboio da Liga dos Campeões. A equipa carrega, encosta o Torino à área, e vê um cruzamento a tornar-se num penálti. A bola toca na mão, o árbitro sopra no apito e a bola é para Totti. Três minutos passam e lá está ele, decisivo, pé direito de gelo, a rematar para o canto inferior esquerdo. Francesco Totti marca pela Roma, uma conversa ouvida pela 312.ª vez. O italiano corre, grita para uma câmara de televisão que ama a mulher, antes de os companheiros o apanharem e engolirem em abraços. No banco, Luciano Spalletti suspira. É o alívio.

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Francesco Totti salva a Roma, uma repetição à qual já se perdeu a conta. Nas bancadas veem-se homens feitos a chorarem, a “festejarem como se fosse uma conquista da Liga dos Campeões”, lê-se na Gazzetta dello Sport. É a alegria provocada por um homem que nunca marcara um bis como substituto porque muito raramente foi na Roma o que é hoje: um suplente. É o que impede Luciano Spalletti de suspirar mais vezes de alívio. “O problema é que, entre o que o treinador quer e a história de Totti, há uma série de experiências vividas que impedem que isto alguma vez seja uma relação equilibrada — e eu sou sempre visto como o mau da fita”, dispara o treinador, talvez já farto de ter de sacar sempre a mesma pistola de respostas em conferências de imprensa.

Spalletti chegou à Roma em janeiro e tem sido sempre assim. Totti começou a jogar menos e a equipa passou a ganhar mais, porque além de Totti ser Totti e ter um estilo próprio (mexe-se pouco, quer a bola no pé, é um homem de passes e não de corridas), os 39 anos precisam que a equipa jogue para ele. Quando o treinador viu nisso um problema, os adeptos viraram-se contra ele. A lenda viva que está há 24 anos no clube e nunca quis ir-se dali limita-se a jogar uns parcos minutos por jogo, que até lhe têm sido suficientes. No domingo, entra aos 78’ e marca para salvar um empate em Bergamo, contra a Atalanta. Mas a relação com Spalletti não se anima e Totti também não ajuda: no sábado à noite, diz-se que fica até às 2h da manhã a acordar os outros jogadores no hotel, para ter alguém com quem jogar às cartas.

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Cartadas à parte, tanto em Bergamo como em Roma, no estádio olímpico, o capitão salvou a equipa. Para Spalletti é mais um problema do que uma alegria, já que os quatro golos e três assistências que o italiano já marcou em 11 jogos ajudam os adeptos a amá-lo ainda mais. “É correto dizer que o Totti salva a Roma, mas não que ele é a Roma. O Francesco joga quando a Roma está em apuros. Involuntariamente, as minhas decisões colocam-nos um contra o outro. Mas fico feliz se ele fizer o que lhe faz feliz”, justificou o treinador, enquanto Totti não recebe o que o tornaria mesmo feliz da vida: uma renovação do contrato (que expira em junho) que o deixaria jogar até aos 40.

É neste vai-não-vai, pendurado em rumores, em discussões e em adeptos que gostam tanto de um jogador como do clube, que a Roma vai ficar até ao final da época. “Com ele em campo, o Olímpico é nosso. Mas, no máximo, apenas me podem acusar de que o podia ter colocado 10 minutos antes. Eu preciso dele para os outros jogadores sentirem a sua presença em campo, é um impulso”, admitiu o treinador, dizendo até que “gostaria” de treinar Francesco Totti ainda mais uma temporada. Luciano Spalletti vai suspirando pois, no fundo, saberá que este é um dos raros casos em que um futebolista é tão grande quanto o clube que representa. Se leu e ficou com dúvidas, então pense nisto: os versos que abrem e fecham este texto estão no início e no fim do hino oficial da Roma, mas podiam ser sobre Totti. Ufff, que suspiro.

Unico grande amore
de tanta e tanta gente
m’hai fatto ‘nammorà