Senadores ligados ao Partido dos Trabalhadores (PT), que estão a participar nas reuniões do Eurolat, em Lisboa, disseram esta terça-feira que aproveitaram o encontro parlamentar para denunciar o golpe que está ocorrer contra o Governo de Dilma Rousseff.

“Para além de participar nas reuniões do EuroLat, a nossa vinda aqui também é uma defesa da democracia, do processo constitucional brasileiro e é uma denúncia de que esse ‘impeachment’ (destituição), esse afastamento, é um golpe”, disse a senadora Gleisi Hoffmann, do PT, que votou contra o afastamento de Dilma Rousseff no Senado brasileiro.

A senadora brasileira falou à Lusa à margem das reuniões parlamentares permanentes da Assembleia Parlamentar Euro-Latino-americana, a decorrerem esta terça-feira na Assembleia da República, em Lisboa.

“Não temos dúvidas que não estamos diante de um ‘impeachment’, mas de um golpe”, referiu a senadora Vanessa Grazziotin (do Partido Comunista do Brasil/PCdoB, aliado de Dilma Rousseff), que faz parte da comissão especial de ‘impeachment’ no Senado e votou contra a destituição.

“Não há crime de responsabilidade caracterizado (contra Dilma Rousseff). Vamos lutar para reverter esse quadro de afastamento no Senado”, acrescentou a senadora do PCdoB, tendo a mesma opinião a senadora Gleisi Hoffmann.

A Presidente com mandato suspenso Dilma Rousseff foi afastada por 180 dias do seu cargo, na semana passada, pelo Senado brasileiro no seu processo de ‘impeachment’, assumindo interinamente o vice-Presidente, Michel Temer.

Segundo a senadora do PT, nas reuniões do Eurolat, que decorrem até quarta-feira, encontrou muito apoio de todos os países latino-americanos à Dilma Rousseff.

Com os eurodeputados, Gleisi Hoffmann disse que nas conversas que manteve, esses disseram-lhe que não consideram normal o que se está a passar no Brasil e estão “muito preocupados com a democracia brasileira”, considerando “que a saída é pela população e não com um Governo interino”.

“Quem está a assumir o Governo agora, o vice-Presidente (Michel Temer), mudou completamente o plano de governo. Tem uma posição liberal na economia e conservadora nos costumes. Não foi esse o resultado que saiu das urnas”, disse a senadora do PT, opinião compartilhada pela senadora Vanessa Grazziotin.

“Uma coisa que chocou o mundo e aqui (Portugal) é o facto do novo Governo ser composto por homens brancos e ricos, não tem mulheres, não tem negros, não tem pobres, não tem a diversidade do povo brasileiro”, avaliou Gleisi Hoffmann.

A senadora do PT disse que irão “defender os legados sociais que existem no Brasil”, porque “já uma movimentação para cortar os programas sociais que minimamente dão apoio a maioria do povo brasileiro, como nas áreas da saúde, educação, assistência social, previdência (segurança social)”.

Para a senadora do PCdoB, a oposição aproveitou-se da extrema fragilidade do Governo de Dilma Rousseff, que enfrentava uma grave crise económica e a Operação Lava Jato – que investiga esquemas de corrupção, que envolvem também empresas públicas, como a Petrobras, políticos e empresários -, para abrir o processo de ‘impeachment’.

“Aproveitaram esse ambiente fértil para fazer o que não conseguiram nas eleições, ou seja, não conseguiram vencer as eleições e trataram imediatamente de transformar o Congresso brasileiro num colégio eleitoral, cujo objetivo não é só tirar a Presidente, é mudar as pessoas para mudar a política. Esse é o fator principal”, disse Vanessa Grazziotin.

“Agora, revertendo esse quadro (de ‘impeachment’), eu entendo o seguinte, Dilma de facto perdeu a capacidade de governar, porque perdeu o apoio da maioria parlamentar. Então, primeiro, a nossa tarefa é, como o nosso partido estabeleceu, barrar o golpe”, referiu a senadora comunista.

“Não permitir que esse golpe se consume e, segundo, buscar a população para antecipar as eleições e colocar nas mãos do povo brasileiro a decisão, mas não deixar alguém que sem ter recebido nenhum voto, chegue ao poder para mudar tudo, para fazer uma política de privatizações, uma política de retirada de direitos”, defendeu.

Segundo Vanessa Grazziotin, o seu partido está a defender a realização de um plebiscito, que pode coincidir com as eleições municipais (em outubro), para novas presidenciais.

Se a população decidir por um novo sufrágio antecipado, no início do ano que vem já se poderia realizar eleições, declarou a senadora comunista, referindo que Dilma Rousseff certamente concordará com essa saída.

Também participaram do evento o senador Roberto Requião, a senadora Lídice Mata (que votaram contra o afastamento da Presidente) e o senador José Medeiros e Hiram Gonçalves, que votaram pelo afastamento de Dilma Rousseff.

O senador Lindbergh Farias (PT) acompanhou a comitiva de parlamentares no evento.