Transplante

Cientistas tentam gerar órgãos humanos em porcos

Cientistas americanos estão a desenvolver um projeto que pretende fazer crescer órgãos humanos dentro de corpos de porcos. A investigação tem enfrentado algumas críticas.

O estudo pretende começar a desenvolver pâncreas e depois corações, fígados, rins ou pulmões

NUNO VEIGA/LUSA

Um grupo de cientistas quer descobrir uma forma de fazer crescer órgãos humanos dentro de porcos, como forma de reduzir a limitação dos transplantes devido à escassez de dadores.

Segundo o The Guardian, o grupo de investigação já conseguiu criar embriões que são em parte porco e em parte humanos. Os investigadores da Universidade da Califórnia conseguiram combinar células humanas com ADN de porcos e criar embriões que se desenvolveram ao longo de 28 dias. Ao fim deste período, o tecido dos órgãos foi analisado.

Para criar estes órgãos, os cientistas irão recorrer a uma técnica CRISPR de edição de genes para remover a porção de ADN do embrião de porco recentemente fertilizado, que permitiria o desenvolvimento do pâncreas. Ou seja, quando os genes pré-selecionados do ADN são cortados com a técnica CRISPR, os embriões de porco tornam-se incapazes de formar um pâncreas. Pelo menos, com as próprias células. Depois, são introduzidas células estaminais humanas no embrião. Estas são células estaminais induzidas (iPS), ou seja, células adultas transformadas de forma a retomarem a capacidade de células estaminais. Como são pluripotentes, são capazes de desenvolver-se e criar um órgão – qualquer um – dentro do corpo do suíno, como explica a BBC.

“Está-se a criar, basicamente, um vácuo, um buraco, para que as células humanas respondam às indicações certas, para que criem um pâncreas, já que as células de porco não conseguem”, comentou Robin Lovell-Badge, um geneticista do Instituto Francis Crick, em Londres, citado pelo The Guardian. “O que não sabemos, e é para isso que temos de olhar, é se as células humanas também podem contribuir substancialmente para [a formação de] outros órgãos.”

Em setembro de 2015, os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH na sigla americana) levantaram algumas barreiras ao procedimento de criação das “quimeras” até ter mais dados sobre as implicações do procedimento. Segundo os NIH, existe uma preocupação sobre a forma como a presença de células humanas no corpo dos porcos pode afetar o seu comportamento.

Segundo os investigadores, os porcos deverão ser capazes de ter uma vida comum, mas quando um ser humano necessitar de um órgão, serão utilizados como fontes de órgãos destinados a transplantes. Mas isto pode não ser viável, como alertou o geneticista do Instituto Francis Crick: as células do porco podem invadir o “pâncreas humano”, nomeadamente as células que compõe os vasos sanguíneos que irrigam o órgão.

Robin Lovell-Badge está particularmente preocupado que as células humanas invadam o cérebro do porco. Mas a equipa de investigadores afirmou que está a estudar atentamente a reação que a introdução das células estaminais terá neste órgão. Pablo Ross, o investigador principal do projeto, procurou acalmar os medos, afirmando que existe um “potencial muito pequeno para que cresça um cérebro humano” nos animais.

Os porcos foram considerados como os incubadores ideais para órgãos humanos que se destinem a transplantes, principalmente do pâncreas – a primeira aposta do estudo, que pretende depois desenvolver corações, fígados, rins ou pulmões. “Isto abre a possibilidade não só de transplantar de porcos para humanos, mas toda a ideia de que os órgãos de porco são aperfeiçoáveis”, disse George Church, que já conduziu um estudo semelhante usando quimeras, citado pela BBC. “A edição genética pode assegurar órgãos que são muito limpos, disponíveis a pedido e saudáveis, por isso podem ser superiores a órgãos de dadores humanos.”

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