Artigo atualizado às 16h57 de 17 de junho de 2016, depois de ter sido conhecida a sentença.

Reinhold Hanning, de 94 anos, foi condenado a cinco anos de prisão por crimes de guerra durante o Holocausto em Auschwitz. Hanning trabalhou como guarda no campo de concentração de Auschwitz, na Polónia, durante a II Guerra Mundial. Mais de 70 anos depois do final do conflito, o antigo guarda enfrenta a justiça. Foi acusado de ter sido cúmplice de mais de 170 mil homicídios.

Durante os últimos quatro meses, o antigo guarda nazi foi julgado no tribunal de Detmold, na Alemanha. Segundo o The Guardian, vários sobreviventes do Holocausto e historiadores testemunharam em tribunal contra Hanning, que terá evitado olhá-los nos olhos durante o julgamento.

Este processo não é o único relativo ao Holocausto a acontecer nos dias de hoje. O jornal britânico lembra que, até 2011, só era acusado quem estivesse diretamente ligado a homicídios e torturas. Em 2014, um outro guarda de Auschwitz, Oskar Groening, foi condenado a quatro anos de prisão. Este homem foi acusado de ter sido cúmplice em mais de 300 mil mortes. O próprio admitiu, na altura, a “culpa moral”, e explicou que “estava na rampa quando era feita a seleção dos judeus” que seriam mortos. Mas este processo contra Hanning pressupõe que, enquanto parte da organização nazi, o antigo guarda também deve ser responsabilizado pelas mortes.

Este antigo guarda de Auschwitz, que agora é agricultor, esteve envolvido numa operação entre maio e julho de 1944, em que cerca de 425 mil judeus da Hungria foram deportados para o campo de concentração. 300 mil foram imediatamente gaseados.

Uma das testemunhas ouvidas no julgamento foi Angela Orosz, de 71 anos, que nasceu no campo de Auschwitz. A mulher foi ao tribunal pedir a Hanning que explicasse “o que aconteceu em Auschwitz, o que ele fez em Auschwitz e o que ele viu em Auschwitz”.

Reinhold Hanning permaneceu calado durante grande parte do julgamento, e nunca chegou a revelar o seu trabalho no campo. Mas em abril fez uma importante declaração no tribunal em que pediu clemência.

“Estive calado toda a minha vida. Quero dizer-vos que estou profundamente arrependido por ter pertencido a uma organização criminosa que foi responsável pela morte de um enorme número de pessoas, pela destruição de um incontável número de famílias, por miséria, tortura e sofrimento por parte das vítimas e das suas famílias. Estou envergonhado por ter ficado a ver essas injustiças acontecer e não ter feito nada para as evitar”, disse o antigo guarda do campo.

A razão que levou Hanning a Auschwitz também foi lembrada em tribunal. “O líder da minha unidade disse «Hanning, tu nem consegues usar um capacete». Por isso pensou que era uma boa ideia enviar-me para Auschwitz para serviço interno”, lembrou.

Sobreviventes falam pela primeira vez

Vários sobreviventes do Holocausto vieram do Canadá, Reino Unido, Hungria, Estados Unidos e da própria Alemanha para darem testemunhos inéditos. O The Guardian regista que muitos deles ficaram irritados com a declaração de Hanning ao dizer que não podia ter feito nada para evitar trabalhar no campo.

Um dos sobreviventes, Leon Schwarzbaum, também de 94 anos, pediu a Hanning que falasse antes de morrer, e disse-lhe: “Temos virtualmente a mesma idade, e em breve iremos enfrentar o julgamento final. Queria pedir-lhe para contar uma verdade histórica, tal como eu”.

A BBC recorda as palavras de outra sobrevivente. Hedy Bohm disse que não tinha “o direito de perdoar quem matou” os seus pais. “Quem sou eu para perdoar em nome deles”, questionou.