Durante nove meses, entramos na intimidade de um casal de atores que espera um filho. Um pouco antes, até. Entramos pela peça de teatro que estão a encenar — A Gaivota, de Tchekhov — e naquele momento em que ela, na casa de banho minúscula, com ele encostado à porta do lado de fora, faz xixi para um teste de gravidez. Sim, faz xixi. É assim que toda a gente faz, é assim que este documentário-ficção mostra.

Olívia Corsini é Olívia, Serge Nicolai é Serge. São um casal enamorado, que partilha a profissão e a alegria imensa da notícia: é positivo, há um bebé a caminho. Mas este não é um filme de uma gravidez cor-de-rosa, nem do endeusamento da mulher que gera um filho.

O primeiro embate com a realidade acontece num jantar, quando Olívia percebe que, muito provavelmente, não vai conseguir acompanhar a companhia de teatro na digressão a Nova Iorque, uma oportunidade que todos festejam com vinho e gargalhadas, perante o olhar desconcertado de Olivia. Pouco tempo passa e Olivia tem um percalço na gravidez. A médica ordena que fique em casa até o bebé nascer. E aqui começam todos os dilemas, todas as interrogações, todas as discussões e altos e baixos, durante os nove meses em que Serge prossegue com a sua vida de ator e Olivia espera em casa.

– O que fizeram hoje? — pergunta Olivia a Serge quando ele entra em casa vindo de mais um dia de trabalho.

– Ensaiámos, como sempre — responde ele, não querendo prolongar a conversa com pormenores.

Mas ela quer saber mais. Ela ali parada todo o dia no sofá e ele a ensaiar, outra atriz no lugar dela, e ele quase não conta como a outra é. Olivia fala como se fosse uma injustiça esta distribuição de papéis. A vida dele prosseguia, ele trabalhava, pagava as contas, ia ao mercado e ela ali, sentada no sofá. Até que ele por fim, acicatado por ela, pergunta de volta:

– E tu? O que fizeste?

– Hoje fiz uma orelha, acabei o nariz, mas o que me deu mais trabalho foi o fígado. Isso foi o que me deu mais trabalho a fazer.

Olmo e a Gaivota (Olmo é o nome do bebé que nasceu) é um documentário-ficção realizado por duas mulheres: a brasileira Petra Costa e a dinamarquesa Lea Glob. Estreia esta quinta-feira em Lisboa (Amoreiras e Cinema Ideal), Porto e Coimbra (cinemas NOS Dolce Vita), mas passou já no Indie Lisboa. Foi nessa altura que conversámos com Petra Costa, uma das realizadoras do documentário que tem mão portuguesa, numa co-produção de O Som e a Fúria.

Como surgiu a ideia para este filme?
Foi uma conjunção de acontecimentos sucessivos. Fui convidada pelo Docs Lab, da Dinamarca, onde dez cineastas europeus co-realizam filmes com dez cineastas fora da Europa. Eu e a Lea tínhamos uma semana para decidir que filme iríamos fazer. Eu tinha uma ideia que era a de fazer um dia na vida de uma mulher, em que nada acontece, mas tudo acontece na cabeça dela. Já tinha conhecido também a Olivia [a protagonista do filme] e queríamos trabalhar juntas.

Contei isto à Lea, ela gostou, e disse: ‘e se nós arranjássemos uma mulher real?’, porque ela queria fazer um documentário. Eu disse ‘sim, mas vamos convidar uma atriz e assim ela pode fazer a vida real dela e nós brincamos com mais liberdade’. Então perguntei à Olívia e ela aceitou. Nesse mesmo momento disse que estava grávida. Então, o que era um dia virou nove meses e nós acolhemos muito bem essa novidade, porque somos ambas mulheres, nos 30 anos, e tínhamos já muitas questões sobre o que é engravidar ou não, sobre o que é esse dilema que existe hoje em dia, porque como a gravidez é uma escolha, ela é um dilema. E é um dilema muito pouco representado, tanto no cinema como na literatura, apesar de metade do mundo estar a lidar com ele, de uma forma ou de outra.

Quisemos mergulhar nessa realidade e a primeira coisa que fizemos foi dar um gravador de voz para a Olivia registar os seus pensamentos e questões. Eu mandava-lhe perguntas e ela gravava a partir dessas perguntas.

Esses registos são a voz off que ouvimos no filme…
Sim. Foi muito rico porque houve vários momentos em que ela só tinha o gravador ao qual recorrer e foi um depoimento muito honesto que ela deu, muito turbulento, que ela nunca poderia ter reproduzido depois, porque assim que o bebé nasceu essas questões deixaram de existir. Nos primeiros meses então eram ainda mais fortes, porque ela não via a barriga, não era algo concreto, era só uma ideia quase, aquele embrião.

E como se tornou uma gravidez de risco, muita coisa mudou. Porque ao princípio pensávamos fazer várias coisas, ir para Itália, fazer diversas improvisações, mas a realidade foi mais forte, no sentido de que ela não podia sair do apartamento e o bebé colocou-se como protagonista desta história, mudando a narrativa do filme de forma drástica.

Foram ter com ela quando ela estava de quanto tempo?
Dois, três meses, mas mais intensamente a partir do quarto mês.

Como era o processo de filmagem?
Pelo menos uma vez a cada dois meses estávamos lá e montámos depois tudo a partir do que existia. No final fizemos algumas cenas que faltavam na narrativa que estava nos diários e nas coisas que aconteceram quando não estávamos lá.

Petra Costa é a co-realizadora deste documentário onde trabalhou com a realizadora dinamarquesa Lea Glob

Petra Costa é a co-realizadora deste documentário onde trabalhou com a realizadora dinamarquesa Lea Glob

Há uma altura no filme em que vocês decidem “aparecer” e dizer ao espectador ‘nós estamos aqui’. Porque decidiram fazer isso?
O filme dá-se muito nessa corda bamba entre a ficção e o documentário, em vários sentidos. Primeiro, é um casal de atores encenando a própria vida. Eles encenam muito a versão deles próprios, a versão que eles querem encenar. E é nos momentos de provocação, que nós colocamos enquanto realizadoras, que essa máscara cai um pouco. Empurramos um pouco mais e outra coisa aparece, que não é aquela que estava prevista.

Talvez isto seja o mais próximo do que são aquelas pessoas por detrás das personagens. É nessas interrupções que vemos que é um teatro, que eles estão a encenar a própria vida e por isso talvez cheguem mais próximo da vida. Eu acho que a encenação serve muito para chegar mais próximo da vida. Podermos encenar uma cena dela na casa de banho, estamos a aproximar-nos da vida, embora através da mentira, da ficção. A nossa voz revela isso, que é encenando que estamos a entrar na vida deles.

O filme, além de ser fisicamente bastante íntimo, retrata dilemas da gravidez que se calhar a maioria das mulheres sentem mas não falam, não dizem, têm vergonha. Foi uma surpresa?
Não. Na verdade, assim que Olivia contou que estava grávida, eu disse para a Lea que não queria fazer um filme de margarina, queria ir nas questões mais tabu da gravidez. Era isso que me interessava. Na verdade, eu acho uma grande injustiça para com a mulher a falta de narrativa sobre o dilema da gravidez. Desde há séculos que a mulher é colocada num lugar passivo e com muito pouca subjetividade. Imaginar que a mulher mais famosa na sociedade ocidental é uma virgem, que deu luz a um ser humano e ele nem sequer se dá ao trabalho de agradecer por tudo o que aprendeu com ela. É a relação dele com o pai que importa. Ela não teve nem o sexo, nem a gratidão do filho, no sentido em que não diz ‘mãe, você me ensinou a ter amor pelo próximo’. Não, foi o pai que ensinou. O pai ensinou tudo, ela é um objeto de toda a situação. E eu acho que é assim que toda a sociedade ocidental tem retratado a mulher e a gravidez. Também por isso a gravidez é tão pouco problematizada e muitas mulheres reclamam disso. Eu comecei a ler muitos relatos de mulheres que passaram por gravidezes, complicadas ou não, e que dizem: ‘ninguém me disse que eu ia ter essas questões, era sempre tudo cor-de-rosa, era tudo sempre maravilhoso, a criação era um momento divino. E é muitas vezes assim, mas muitas vezes não é assim.

– Mas a verdade é que o filme termina nesse momento maravilhoso e divino. Há sempre um momento de redenção…
No final tem a vida. O que não apaga o resto.

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O filme também mostra muito o lado do pai e deixa claro que por muito que o homem queira envolver-se, há diferenças insanáveis.
Ele nunca vai conseguir aceder a isso, sim. Há um provérbio africano que diz que a gravidez é como uma ponte, as pessoas podem acompanhar-te até ao começo da ponte, acolher-te do outro lado, mas você atravessa essa ponte sozinha. E eu acho que deve ser assim, embora nunca tenha vivido isso.

Ela está quase sempre sozinha no filme…
E os dilemas pelos quais a mulher passa são, além de solitários, muito silenciosos. Os dilemas masculinos são muito mais confrontacionais, entre eles e o mundo, uma guerra, um confronto, enquanto o dilema dela é entre ela e o ventre. Desde Medeia e Ofélia é assim. Os personagens femininos costumam ter dilemas mais silenciosos e invisíveis, porque muitas vezes eles se dão no corpo. O corpo da mulher como lugar de política.

Habitualmente a ideia que existe é que a maternidade é um incrível e permanente estado de graça, tudo um mar de rosas. O filme mostra que há um lado B da gravidez. Isto mexeu com as cabeças das pessoas?
No Brasil o filme gerou uma discussão muito maior do que eu imaginava e houve momentos muito bonitos, como quando uma jovem disse: “Eu tenho 19 anos, passei por uma gravidez muito difícil e sentia-me doente o tempo todo, no sentido de inadaptada, e eu sinto que esse filme me humanizou, me tornou humana, não sou uma doente mental por não ter sido a grávida que eu imaginava”. Eu espero que o filme possa servir um pouco nesse sentido, de humanizar quem se sentia desajeitada, ou inadaptada, ou errada por ter certos pensamentos, que eu acho que são os pensamentos da condição humana. Principalmente nas alturas em que a mulher trabalha, tem de pensar na carreira, e de repente vem algo biológico que muda tudo. Tudo muda drasticamente da noite para o dia, com uma moral antiga e muito machista. Se o filme criar abalos sísmicos, se uma mulher começar a sentir que tem direitos que antes não imaginava que podia ter? Tomara… Se o filme “desbalancear” casamentos, espero que faça com que os homens se revejam, porque na minha perceção, acho que o homem começa a dar 50%, quando ele tem de dar 100%, nessa questão dos filhos. Porque ele nunca vai poder amamentar nem engravidar, o bebé vai ter sempre uma atração mais forte pela mãe. Então, quando o homem tenta dar 100%, consegue chegar aos 50%.

Olivia e Serge são o casal de atores que protagonizam o filme. Olmo é o bebé que nasceu

Olivia e Serge são o casal de atores que protagonizam o filme. Olmo é o bebé que nasceu

O papel das mulheres no Brasil tem sido alvo de discussão. Houve aquela publicação da revista Veja sobre a mulher de Michel Temer.
A bela, recatada e do lar…

Exato. Este filme mostra a mulher no pólo oposto… Acha que este momento político do Brasil pode também significar um retrocesso para as mulheres e para o feminismo?
Já está a significar. É trágico. Ter tido toda a batalha para eleger a primeira presidente mulher, tê-la retirado dessa forma inconstitucional, muito por ela ser mulher…

Acha que é por ela ser mulher?
Entre outras coisas. Acho que há milhares de motivos, mas o machismo durante o impeachment é evidente. Desde os autocolantes dela, com perna aberta, que punham na entrada dos depósitos de gasolina dos carros, ao tchau querida que os deputados seguravam com tanto orgulho no Congresso, e todos os comentários das pessoas pró-impeachment são carregados de machismo. O próprio presidente do Congresso, Eduardo Cunha, talvez seja um dos políticos mais machistas que o Brasil já teve. O Congresso brasileiro, que fez o show de horror, que talvez tenha sido a noite mais humilhante da história do Brasil, tem 10% de mulheres, é um dos órgãos de representação política com menos mulheres no mundo, menos que a Arábia Saudita, que tem 16%.

O machismo está envolto em todos os aspetos deste processo. Eduardo Cunha tentou passar uma lei no ano passado para dificultar ainda mais o aborto. Queria que a mulher tivesse de fazer corpo de delito, para provar que foi estuprada, queria passar para a consciência do farmacêutico se deveria ou não entregar à mulher a pílula do dia seguinte… O Brasil ainda esta muito atrás na conquista dos direitos das mulheres e mesmo assim esses direitos estão a ser perdidos.

Como é que as mulheres brasileiras reagem?
Elas estão a reagir. Em novembro presenciei o primeiro movimento feminista de facto, que tomou as ruas do Brasil, que agora é conhecido como a primavera das mulheres. O filme foi lançado nessa altura, coincidentemente, e as discussões em torno do filme foram muito sobre isso. A falta de representatividade das mulheres no cinema, na televisão, a questão do aborto. O Brasil está extremamente dividido. Como dizem, é um espelho quebrado que não se reconhece, porque por um lado os movimentos de direitos humanos, de direitos das mulheres, nunca estiveram tão fortes; a sociedade nunca esteve tão rica, apesar de empobrecendo; nunca tivemos tantas pessoas na universidade, enfim, tantas conquistas, e ao mesmo tempo existe uma veia reacionária que nunca esteve tão presente, talvez pela crescente onda evangélica no país, pelo ódio da direita à esquerda que está no poder há 14 anos. Esse ódio acumulado começa a transformar-se num ódio fascista, com caras do fascismo, com expressões fascistas. Não só nas ruas mas no poder judiciário, no Ministério Público e no Congresso. O Brasil, que sempre foi uma sociedade tão conciliadora, que nunca teve grandes embates, está tendo talvez uma guerra civil retardada. Talvez esta guerra que estamos vendo seja uma guerra dos abolicionistas contra os esclavagistas, que nos EUA aconteceu no século XIX e no Brasil está a acontecer agora. Qual vai ser o final?

Está também a filmar esse processo?
Já vinha há um tempo fazendo um filme que era um pouco tentar contar a história do Brasil a partir da perspetiva da terra. Desde as capitanias hereditárias até hoje. No meio dessa investigação surgiu esta crise política que estou a registar como posso.

O que tem filmado?
Todas as manifestações de rua, as coisas que têm acontecido dentro do cenário político.

O que acha que vai acontecer? Acha que as pessoas vão para as ruas?
Isso é o melhor que pode acontecer. O pior é as pessoas começarem a aceitar este processo, aceitar este golpe. Isso é o pior, cruzar os braços. Tomar as ruas é bom.