Livros

Esquizóide como Dr. House? Somos todos um pouco

Arrogante, instável, teatral, desconfiada, submissa, lunática. Características extremas da personalidade humana são explicadas num novo livro da psiquiatra brasileira Katia Mecler. Conhece a sua?

Psiquiatra Katia Mecler diz que todas as pessoas têm "transtornos mentais", mesmo que leves, pelo menos uma vez na vida

Autor
  • Bruno Horta

“Sou médica, mas agora já me chamam escritora”, conta Katia Mecler. “Acho que escrevo bem, mas muito lentamente, por falta de tempo e porque a minha formação é outra.”

A psiquiatra brasileira está em Lisboa e promove o livro Psicopatas do Quotidiano, que acaba de ser publicado em Portugal. A edição brasileira saiu em agosto do ano passado e nos primeiros meses vendeu cerca de 25 mil exemplares, informa a autora.

Médica há quase três décadas no Rio de Janeiro, decidiu escrever sobre as “perturbações mentais que fazem parte do quotidiano e podem causar sofrimento” porque “o público leigo tem pouco acesso a livros sobre os transtornos da personalidade e do comportamento”.

Acrescenta: “Várias outras doenças psiquiátricas estão muito divulgadas e bem descritas, como o transtorno bipolar ou a esquizofrenia, são até muito faladas nos media, mas isso não acontece com os transtornos de personalidade.”

psicopatas_do_quotidiano

“Psicopatas do Quotidiano”, de Katia Mecler; ed. Casa da Letras; 223 páginas; 15,50€

Não estamos propriamente a falar de terroristas ou assassinos em série, antes de pessoas perfeitamente comuns cujo “comportamento inflexível e repetitivo” as torna de difícil convivência. E toda a gente tem características assim, sustenta a autora.

De perto, ninguém é normal. Toda a gente tem as suas questões ligadas à anormalidade. Mas para diagnosticar um transtorno psíquico é necessário reunir uma série de sintomas que fazem parte de critérios específicos, são situações que envolvem o exagero de determinadas características e costumam vir acompanhadas de sofrimento.”

Muito expressiva na forma de falar e comedida nos gestos, a psiquiatra assume que “todas as pessoas têm uma ou outra característica que foge à normalidade”, o que não quer dizer que não haja gente sem quaisquer transtornos psíquicos.

“Nem todas as pessoas têm diagnóstico de transtorno psíquico, no sentido científico, mas é provável que ao longo da vida todos tenhamos algum transtorno em maior ou menor grau, ainda que leve.”

A afirmação desvia a conversa para um velho tema que surge sempre que se fala de psiquiatria ou psicologia: como se determina o que é ser normal?

De resto, no prefácio do livro, o psiquiatra brasileiro Miguel Chalub escreve que mais pessoas passaram a ser consideradas psicopatas na era do capitalismo comercial e industrial, porque quem não produz e não rende é visto como anormal.

Katia Mecler está disponível para elaborar, mas dá a entender que se trata de um tema estafado. “É uma discussão interminável”, introduz.

Há várias formas de definir hoje a normalidade. Um dos critérios seria o estatístico: normal é o que não foge muito a um determinado padrão de comportamento que existe no meio social e cultural da pessoa. Aquilo que se desvia da normalidade estatística será uma anormalidade. Outro critério, por exemplo, é o sofrimento. Quando defino a normalidade, até para poder trabalhar, centro-o na noção de sofrimento. Nem sempre o próprio tem consciência de que adota um determinado comportamento que acarreta sofrimento para si e para o outro de uma maneira repetitiva”, explica.

Psicopatas do Quotidiano não é um livro de autoajuda, pois apresenta uma abordagem científica e técnica, e também não é um manual para médicos. Com o objetivo de chegar ao grande público, a autora recorre a exemplos do cinema, de séries televisivas e da literatura.

Bernardo Soares, heterónimo de Fernando Pessoa, é dado como exemplo de personalidade esquiva. A obra-prima de Franz Kafka, A Metamorfose (1912), aparece como um bom retrato de um indivíduo esquizóide. O protagonista da série House of Cards, Frank Underwood, é a típica personalidade antissocial.

A parte introdutória tem 56 páginas e é nesse início que se concentra a parte mais técnica. O restante livro está dividido em três capítulos principais que correspondem aos “transtornos de personalidade” estabelecidos pelo Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM), da Associação Americana de Psiquiatria, referência mundial na matéria.

As tipologias

Eis as “perturbações” abordadas no livro e o respetivo resumo, feito pelo Observador:

  • Grupo A
    – Esquizóide: Indivíduo “estranho, solitário, misantropo, deixa clara a sua aversão aos seres humanos”, como o Dr. House da série norte-americana;
    – Esquizotípico: Tal como o miúdo do filme O Sexto Sentido, é o indivíduo que tem “processos de raciocínio e experiências incomuns da realidade”, o que o coloca “numa fronteira ténue da normalidade”;
    – Paranóide: Com “grande desconfiança e suspeita em relação aos outros”, estas pessoas “acreditam que podem ser exploradas, maltratadas ou enganadas, mesmo sem o menor indício de que isso realmente vá acontecer”.
  • Grupo B
    – Anti-social
    : “Carecem de culpa e empatia”, por isso “seduzem, mentem, abusam, manipulam, agridem e transgridem”, como a personagem principal de O Lobo de Wall Street;
    – Estado-limite: A pessoa “parece viver numa montanha-russa de sentimentos”, caracteriza-se, entre outras coisas, por “comportamento suicida, sensação de vazio, raiva intensa”;
    – Histriónico: “A exibição é a regra, não importa o que é exposto”; são os “caçadores de atenção”, com “comportamento sedutor e exagerado”;
    – Narcísico: São “caçadores de admiração”, estão “sempre a almejar o topo, lugar que consideram ser-lhes destinado”, numa “procura excessiva de atenção.”
  • Grupo C
    – Dependente
    : Tem “dificuldade em tomar decisões quotidianas”, “falta de iniciativa”, “medo irreal de ser abandonado à própria sorte”;
    Evitante: Sentem-se “socialmente incapazes”, por isso “preferem o conhecido e a rotina de um quotidiano tranquilo”;
    – Obsessivo-compulsivo: Apresentam “padrões elevados de desempenho autoimpostos”, como o detetive Hercule Poirot, personagemde Agatha Christie, e são “extremamente autocríticos”, além de terem “preocupação excessiva com regras, organização e horários.”

Ao que explica Katia Mecler, nenhum destes “transtornos” é mais prevalente do que outro na população geral. Calcula-se que cada uma destas “patologias” atinja cerca de 10% das pessoas. Ainda assim, acrescenta, certas características destas “patologias” (não as “patologias” em si) são hoje muito frequentes na generalidade das pessoas.

“As características do Grupo B são cada vez mais observadas”, diz a médica, insistindo que “o que vai definir a patologia e o transtorno é o excesso de características, o verificar-se que a pessoa desde jovem se comporta assim, ou seja, que tem um padrão duradouro e repetitivo”.

KatiaMecler-003

Katia Mecler, a autora

Mas porquê o Grupo B (também designado “Cluster B”)? Porque a sociedade Ocidental “valoriza muito mais o ter do que o ser, é uma sociedade altamente competitiva e exibicionista, onde toda a gente tem de aparecer e destacar-se”, entende Katia Mecler. “É uma sociedade muito coisificada e centrada no consumo”, logo, certas características narcisistas ou antissociais, no sentido psiquiátrico dos termos, tendem a emergir.

Neste contexto, refere a médica, a utilização das redes sociais da internet assume foros de preocupação, pois “já há pessoas com quadros de compulsão”. “Quem estudar e investigar esta área nos próximos anos vai estar na crista da onda”, acredita.

Em rigor, quem dedica tempo considerado excessivo ao Facebook, Instagram ou Twitter está a mostrar sinais de dependência e compulsão que não são novos, pois poderiam estar presentes noutras práticas e consumos. Simplesmente, o acesso às redes sociais é muito fácil para a maioria das pessoas.

“Quando a pessoa para de investir em atividades habituais, perde interesse ou prazer em tudo, e passa a centrar-se apenas na droga que vai usar, no álcool que vai beber, nas compras compulsivas ou no uso da internet, passa a ser uma patologia”, afirma a médica. “Há pessoas que deixam de comer ou dormir e que vão tendo prejuízos na sua vida laboral, social e de convívio. Aí estamos a falar de anormalidade e grave prejuízo para a vida da pessoa”.

Qual seria então a dose certa no caso das redes sociais? “Não é uma verdade, é a minha opinião pessoal e profissional, mas acho que mais de duas horas por dia já é excessivo”, estabelece Katia Mecler.

“Num dia de 24 horas preciso de dormir sete a oito horas, tenho de ter tempo para estar com a família, para trabalhar e ganhar a vida, para fazer alguma ginástica… Mais de duas horas nas redes sociais acho que já retira tempo às outras coisas”, reflete.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Futuro

Homo Deus? /premium

André Abrantes Amaral
111

Não sendo nós mais que uma soma de algoritmos, tendo Deus morrido, o que resta então? Qual o sentido da vida? E se não somos livres, o espaço ideológico para os totalitarismos volta a estar em aberto.

Conflitos

Mediterrâneo

Luis Teixeira

Huntington defendeu, como Braudel, que a realidade de longa duração das civilizações se sobrepõe a outras realidades, incluindo os Estados-nação em que se supôs que a nova ordem mundial iria assentar.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)